Sobre o verdadeiro pecado!

Sobre o verdadeiro pecado!
"O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida." Carl Sagan

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Óbvio?



Óbvio?

Ontem eu havia acordado após um salutar sono vespertino, e, acompanhada de algumas pessoas assisti por breves instantes em um canal televisivo uma mulher que se tornou conhecida no País inteiro por dar palestras sobre como uma mulher deve agir para seduzir um homem, sentir-se bela e competente, e algumas maneiras para reforçar a autoconfiança de algumas para, com isso, sentirem-se "destemidas" em seus relacionamentos afetivos, ou meramente sexuais.
Obviamente a existência daquela mulher, morena, porém sem muitos atrativos físicos, sem um corpo exuberante, sem lábios carnudos e, aparentemente, sem ter se entregado a dupla "silico-lipo" suscitou comentários negativos nas mulheres presentes no ambiente. Diziam que ela falava o "óbvio", e "como seria possível alguém ganhar tanto dinheiro" (como se soubessem o quanto a dita conselheira ganha por mês) falando o "óbvio"? Bem, eu ora silenciei, ora erigi-me em defesa da simpática mulher que não tem beleza marcante, mas tem a marca que as poucas pessoas fortes possuem: Auto estima e inteligência emocional.
O "óbvio" para alguns é um tesouro escondido no mais recôndito da alma de outros e, quiçá dos petulantes que chamam aquilo de "óbvio" porque nunca vivenciaram determinada situação, porque falar algo na teoria é bem diferente de vivê-lo na prática, assim como os romances narrados em livros ou no cinema são bem diferentes dos romances reais. Assim aquele "óbvio" é algo difícil de se encontrar, e aquela mulher deixou para os que lhe pediam conselhos, (desde como esquecer alguém até como potencializar o orgasmo) frases que servirão como setas indicando o caminho da mudança que certas mulheres precisam (inclusive aquelas que criticaram a "existência" da "Sra. viva a auto-estima").
No entanto, afirmo que cada pergunta que lhe era feita quer fosse como fazer um strip-tease, quer como esquecer uma antiga paixão, enfim, todas as questões vinham envolvidas pela "fera" que assombra 8 entre 10 mulheres (e homens também): A insegurança.Não adianta, se o mal da maioria dos homens é o egoísmo e a falta de perspicácia para reparar pequenos fatos, o mal das mulheres é a falta de segurança em si mesmas, provinda, via de regra, da carência, que é a "filha única mimada" da falta de amor próprio.
E, lamentavelmente, esta "família desconstituída" atormenta as mulheres. Não há prozac, frontal, lexotan, pamelor, plástica, lipoaspiração, polifenóis de alcachofra, botox (na testa, na boca, ou onde precisar), silicone nos seios, no glúteo, que curem a insegurança (ainda não se ouviu falar de "cirurgia para aumentar a capacidade mental”). A auto imagem pode melhorar, o sono aumentar, a necessidade de chocolate e doces diminuir, mas a insegurança e a carência só terminam com uma mudança efetiva na forma de se "auto projetar", na forma de pensar, e de encarar a vida.
Para isso existem pessoas como a mulher que aparecia na televisão (só lembro que o sobrenome era Penteado o nome esqueci). Pessoas que auxiliam as desprovidas do que ela possui (auto-estima) a crescer mentalmente e a se gostarem, posto que muitas mulheres se exigem muito por se compararem com as demais.
É possível ser a melhor amante, a melhor esposa, a melhor mãe e cozinheira, mas, para isso não se pode comparar é preciso fazer o seu melhor dentro da própria vida e das possibilidades que ela propiciou, ver o que nela se pode fazer de melhor, qual o caminho para o aprimoramento pessoal, ignorando que a outra faz uma massa melhor, que tem a bunda menor e o seio mais firme, que é mais bronzeada ou menos flácida, é preciso, (agora eu digo o "óbvio") se aceitar como é, amar o que tem e desejar evoluir, sem comparação depreciativa com os outros, mas tendo como "margem" o que melhor se pode ser dentro das próprias limitações..
Esse é o "óbvio" que a "não bela", mas sábia instrutora emocional-sexual possui em mente e que muitas donzelas, muitas musas, muitas crentes, enfim, muitas mulheres (e homens também) não possuem, e é isso que faz dela uma mulher especial e, inegavelmente, bem amada, afinal, apenas quem se ama pode ser bem amado, apenas quem se prioriza efetiva seus ideais, pois quer acompanhado, quer só, esta de bem consigo.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 11 de fevereiro de 2005.

A saudade, o passado, o presente e o futuro.

A saudade, o passado, o presente e o futuro.

O passado é aquele tempo que deixou de existir, o futuro é o tempo que não existe e trás consigo todos os mistérios e dúvidas do mundo, enquanto o presente é a vida, é o tempo da ação, é o tempo do sentir, do agir. O hoje é a vida, o amanha é a possibilidade, é a hipótese, a incerteza e suas dúvidas, que, para o covarde, ou seja, para aquele que não vive o presente, é "o tempo de ser feliz".Deixando para o amanha a vida, se desculpa por ignorar a possibilidade de aproveitar as chances, armar-se de coragem e ir lutar pelos seus sonhos.
Os sonhos são como um comandante severo que manda o homem para a o campo de batalha, se ele não for irá safar-se por covarde, mas não receberá congratulações, se for poderá ganhar e alcançar metas. Para auto-realizar-se é preciso arriscar, para viver é preciso arriscar, quem não arrisca esta vivo apenas, mas não esta vivendo: Vegeta calmamente no silêncio de seu marasmático ambiente de alienação.
O passado, o presente e o futuro são como barcos interligados por uma corda de aço que os junta a uma só âncora: Ela se chama saudade.Não sentimos saudade apenas do que passou, não sentimos falta apenas dos amores antigos, dos amigos que se mudaram, do pai que se foi, da mãe ausente, da esperança que a perda da inocência levou.Sentimos saudade do futuro!
Sim, sentimos saudade dos sonhos cujas sementes guardamos para semear no futuro e que, por algum fato do presente (ou do passado) perdemos, e nos faz ter que ignorar o sonho antigo para mudar de metas.Sentiremos saudade daquele sonho.Os sonhos futuristas distraem a alma e alentam o espírito que, enquanto sonha, pressiona as sementes com os dedos contra o chão, fugindo do hoje, ignorando a terra seca do presente, pensando que no amanha ela estará fértil.
A mulher que desejava ter um filho em 1 ano,tem seus planos frustrados ao saber que necessitará de tratamento para engravidar e que tal levará muito tempo.O futuro almejado mudará, e ela terá saudade dos planos e da idéia que fazia de si com 14 quilos a mais e um ser amado no ventre em poucos meses. O homem apaixonado que desejava fazer uma viagem com a namorada dentro de 6 meses, terá que mudar os planos diante do falecimento da mãe da moça, e em meio à lágrimas e lamúrias sentirá saudade da idéia que tinha em mente, de ambos na praia, se amando e conversando.O acadêmico que tinha os papéis adequados para o ingresso em uma pós-graduação em São Paulo, terá saudade dos planos e de sua imagem de "pós-graduando" dedicado na capital paulista, ao ser reprovado na defesa do trabalho de fim de curso. A jovem que marcou um encontro com um rapaz que não apareceu, sente saudade da esperança de alegria e envolvimento que tinha antes da frustração, e da idéia que fazia se ocorresse atração entre ambos.
Enfim, a saudade não é de algo concreto, sente-se saudade de sonhos, de pensamentos e de "idéias" que, sem serem concretizados traziam a idéia de felicidade, e é desta possibilidade, de alegria, paz e venturas que se sente saudade.
Sente-se saudade, também, de paz, de igualdade social, de amizade, de fidelidade, de companheirismo, de respeito humano, de afeto, de compaixão, de compreensão, de humildade, de partilha, de carinho, de humanidade.Faz falta, a inexistência de amor e respeito entre os homens, por isso temos saudade destes sentimentos e realizações, porque se fossem concretos ou concretizados muitas vidas, situações e atos seriam melhores, mais fecundos e grandiosos.
A música é algo que para todos trás lembrança, e toda lembrança remete à sentimentos e todo sentimento bom suscita saudade. Saudade de nossa alma na época em que a ouvimos, de nosso estado de espírito esperançoso, ainda que iludido, apaixonado ainda que por tempo curto (posto que passou), de nossa agitação pela espera de algo ou alguém, enfim, a maior saudade que uma canção trás é dos sentimentos que tínhamos e que, sendo nossos, notamos que é de nós mesmos que temos saudades (!).
Temos saudades de nós no passado, temos saudades da idéia que fazíamos de nós no futuro que ainda não chegou e que o presente já mudou. .Antes a esperança, a meta, o sonho, a empolgação, a música...Aquela música! Hoje, a frustração, a realização conforme a possibilidade do momento, a calma de quem controlou a ansiedade enfrentando as agruras da vida, a música do momento, para fugir das lembranças das quais, por mais que nos esquivamos não as afastamos.
Não nos afastamos das lembranças porque, elas são como as cicatrizes na pele que não saem do corpo: elas são as cicatrizes da alma. Como as marcas no corpo, podem ter sido adquiridas com uma queda lamentável, podem ter sido adquiridas em uma alegre escalada em uma macieira que se mostrou perigosa, pode ter sido adquirida em um escorregão no banheiro quando nos apressávamos para abrir a porta para a visita de alguém, independente, pois de terem sido adquiridas por bons ou maus motivos as cicatrizes no corpo marcam, assim como as lembranças, cicatrizes da alma.
Elas não saem de nosso espírito, contudo não provirem de motivos agradáveis. Ao nos lembrarmos de algo sentiremos saudade do que fomos naquele momento, ainda que a cicatriz tenha provindo de uma desilusão, podemos ter certo saudosismo da inocência que tínhamos antes daquele fato.
Porém, é no hoje que vivemos, e a saudade não pode tornar-se melancolia, porque quando lembramos e exprimimos um suspiro de "que bom era", devemos suscitar a certeza de que o dia de hoje esta acabando e que amanha é por ele que iremos suspirar, porque é humano regozijar-se com o que lembramos e não valorizarmos nosso hoje, e principalmente à nós mesmos e à nossos sentimentos presentes.
Se no ontem tínhamos ilusões e sonhos, hoje temos realizações e marcas de luta e maturidade, se antes tínhamos esperança hoje temos novos motivos para enfrentarmos novas batalhas, e conhecemos melhor o caminho da realização. O ontem, porém, será lembrado, pois algumas circunstâncias e sentimentos se eternizam na alma do homem que se constitui do que viveu, do que sentiu, do quanto se doou e amou. Lembrar é reviver a si mesmo, lastimar , no entanto não é sentir saudade.Lastimar-se é se afogar no poço da melancolia, abdicando de novos sonhos, novas lutas e nova vida, pois a vida se renova diariamente para quem a aprecia com atenção e a deseja, feliz, com ardor.
Quem lastima demais desistiu de mudar e de avançar na vida, quem sente saudade relembra com sorriso o que foi, mas anima-se para que, no barco do futuro, tenha boas lembranças do presente, do que foi, como agiu e quão intensamente o gozou..

Cláudia de Marchi

2005.

A ficção do "tarde demais"


A ficção do "tarde demais"

O decurso do tempo que faz uma fruta perecer faz o sabor do vinho se acentuar. O mesmo tempo que trás rugas na face dos pais chegará para os filhos, trazendo maturidade e as responsabilidades. O tempo que relativiza a beleza jovial engrandece e enobrece a alma do individuo que amadurece.
Na vida humana não existe o "tarde". Nunca é tarde para mudar, nunca é tarde para pedir perdão, nunca é tarde para amar e para entregar o coração que se manteve em silêncio quando o "tarde" era cedo, ou era, simplesmente o "momento inadequado".
Realmente as oportunidades passam, as oportunidades não voltam. Mas, esta no livre arbítrio do homem a busca para concertar os lapsos do passado, distante ou próximo e criar novas chances, novas oportunidades.
Como na culinária, na vida humana nada se perde porque o tempo transcorreu. É possível engrossar o molho, é possível suavizar o sabor salgado da comida, é possível fazer omelete dos ovos, é possível fazer geléia com as uvas maduras, rabanadas com o pão envelhecido, basta certa inteligência e criatividade.
Para o homem bastará sensibilidade e coragem para agir e mudar a situação que, possivelmente tenha criado. O que é inaceitável é a afirmação de que não pode fazer nada para mudar as circunstâncias, ou a si mesmo, afirmando, ao tratar de seu gênio, por exemplo que "sempre fui assim, é meu jeito".
Se a pessoa justifica sua forma de agir é porque possui ciência que pode ser diferente e, quiçá, melhor, o problema é que a tarefa de evoluir requer que responsabilidades sejam assumidas, e muita coragem para correr riscos.
O homem é "Deus" para sua vida, as chances lhes são dadas, depende dele mudar, agir e assumir a imensa responsabilidade que tem pela sua felicidade. Nunca é tarde para ser feliz, o tarde não existe, é apenas mais uma barreira que o negativista impõe-se: "Tarde demais", por que, na vida, é muito mais fácil cruzar os braços, chorar e se conformar do que ir adiante, agir, forçar a cicatrização de feridas enquanto se tenta recuperar o que foi "perdido". A situação implica em não lamuriar pelo leite derramado, mas em limpar a sujeira sem reclamações inúteis.
Com garra e vontade nada jamais será perdido. Abaixo do céu e acima da terra sempre haverá formas de conseguir o que se deseja.A impossibilidade só existe para o corpo sem vida, para o qual não há mais possibilidade de amar, de perdoar e de ser perdoado.Se o "tarde demais" existe é apenas uma vez na vida, que se dá no momento pelo qual, quem sentiu e passou jamais pode contar - a morte.
A vida é um mundo de oportunidades, um mundo de chances em que, para o velho e para o novo, sempre será cedo se as intenções forem boas, porém o mudar, o agir posteriormente à oportunidade em que se manteve inerte, requer o mais difícil dos atos: O de perdoar a si mesmo.
Uma das maiores aflições do ser humano consiste na dificuldade ou incapacidade para perdoar-se. De um ponto de vista "antimetafísico" nenhuma opinião, nenhum amor, nenhum perdão, é tão importante quanto o do homem para consigo, e para com os outros somente tais sentimentos e atos serão sinceros se existirem na alma de quem os sente. É necessário autocompreensão, e ausência de autopiedade para que, com a constatação da necessidade de mudança, o homem se encoraje para ir à luta, para mudar a si mesmo, para mudar suas contingências, enfim, para mudar sua vida e realizar seus desejos.
Sonhos não existem para figurar no imaginário, se assim for, se tornarão ilusões. O sonho deve ser o prelúdio da conquista, que não afasta a necessidade de luta, abdicação e perseverança.Para quem sonha, não existe "tarde", tampouco oportunidade "perdida", quem sonha esta vivo, e quem esta vivo ressuscita oportunidades e chances que apenas não emergem com a morte de quem as desejou.

Cláudia de Marchi

2005

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A melhor defesa

A melhor defesa


Tem muita gente por ai que ainda acha que a melhor defesa é o ataque. Mas não é, a melhor defesa é o uso da razão enquanto o outro, descontrolado, consegue perde-la facilmente. Conheço muitas pessoas que atacam, acusam, ofendem, e, enfim, magoam para defender uma possível razão que, se tinham, acabam por aniquilar com sua atitude "desproporcional" ao possível agravo.
A capacidade de ponderação, de ouvir o outro e suas explicações, o que enfim se passa na mente alheia, a capacidade, inclusive de perceber que, como nós, o outro pode se expressar de forma equivocada, ou seja, fazendo presumir algo que não deseja e tampouco ache verídico é um sinal de maturidade.
Por outro lado, humilhar, usar de argumentos grotescos, pesados e aviltantes não serve para nada. Não leva à reconciliação, à reconstrução da amizade ou de qualquer laço afetivo, na verdade corrói qualquer espécie de carinho que possa existir, macula sentimentos e, principalmente o respeito alheio.
Antes de falar, de jogar pseudo-verdades dolorosas e humilhantes para o outro é preciso ponderar seus argumentos, suas explicações, sob pena de, mesmo tendo um certo "ar" de razão, terminar por faze-lo evaporar para longe, afinal a violência, seja ela física ou verbal, pode ser letal em relação a todos os nobres sentimentos,do amor ao respeito, sem o qual relação nenhuma sobrevive.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 18 de novembro de 2008.

sábado, 15 de novembro de 2008

A alma livre

A alma livre

A liberdade assim como todas as dádivas humanas se goza na alma. O homem não é livre porque esta só, porque não tem mãe, pai, irmãos, irmãs, namorada ou esposa junto dele, porque não "deve satisfações" à ninguém. Não é o outro, o "alheio" quem influencia a liberdade humana. O homem só é livre quando tem a alma livre, quando sente-se bem em si mesmo, consigo mesmo, quando sente o poder de gerir sua vida, seus sentimentos, sua liberdade, enfim.
A liberdade de espírito é a única liberdade verdadeira, o homem que a tem não se sente preso nem mesmo dentro de uma jaula. Ser livre no espírito é não se sentir inferior a nada nem a ninguém, é se sentir bem com a própria consciência e forma de sentir, de pensar. É não ter medo de amar, de se expor, de admitir as próprias fraquezas de reconhecer os próprios méritos, é não se subjugar aos pensamentos e criticas alheias.
É poder se ver só, mas não incompleto no mundo, é poder estar acompanhado diariamente sem se sentir escravo do outro, porque livre dentro de si mesmo. É poder ser de um amor sem se sentir fora de si mesmo. Ser livre não é atributo daquele que acha que não tendo nenhuma companhia afetiva pode fazer o que deseja: O homem que ainda não tem a alma liberta não consegue se entregar ao amor, por outro lado, o amor verdadeiro liberta, dá ânimo, empolga.
Aquele que precisa apregoar para o mundo que se auto-determina e que sempre se "manda" não é livre verdadeiramente, no fundo é escravo da opinião alheia, de preconceitos, de medos. O homem livre não perde sua liberdade por estar nesta ou naquela situação. Uma vez conquistada a liberdade de espírito ela jamais é perdida, pelo contrário, é cultivada e se expande. Depende mais da autoconfiança, auto-estima e alegria de viver do que de qualquer situação exterior.
Enfim, ser livre é ter o espírito e a alma libertos de medos, de receios, de preconceitos, de pré-julgamentos. É saber que o mundo é seu, que a vida esta em suas mãos para ser gozada sozinho ou acompanhado, que quando queremos nada pode nos aprisionar, porque a liberdade verdadeira é aquela que transcende a matéria, transcende o corpo do homem. Ninguém, pois aprisiona um homem de alma livre.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 15 de novembro de 2008.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O "bye, bye" do amor

O "bye, bye" do amor

Quantos poetas, filósofos, psicólogos, psiquiatras e até mesmo neurocientistas tentaram conceituar o amor? Vários, inúmeros. A tentativa e até mesmo a possibilidade de cada pessoa dar um conceito pessoal para tal sentimento é humanamente compreensível, todavia, na sua essência o amor reúne uma série de fatores inexplicáveis que só quem ama sente e pode (ou tenta, sem lograr êxito) aferir e justificar.
Amar é admirar a pessoa apesar de seus defeitos, é continuar tendo paciência, tendo encanto e vendo magia no convívio com o outro mesmo quando ele age de forma contrária a nossas espectativas. Amar é aprender a ser tolerante, amar é tolerar os defeitos sem irritação, ou melhor, com menos irritação do que os que não amam.
Um dos sinais de que uma relação esta no fim, de que o amor findou, é quando o outro começa a se tornar irritante, quando, na verdade, continua sendo o que sempre foi, mas a falta da admiração, da intensidade, pois, do amor, faz com que vejamos o que antes era um "detalhezinho pouco agradável da personalidade alheia" como um imenso problema.
Amar é ver o outro ao lado e visualizar o amanha ao seu lado, é saber que apesar dos percalços é a sua parceria que nos satisfaz, o seu toque que nos conforta a sua mão que nos dá firmeza. Sem parceria, sem cumplicidade, sem boas risadas e algumas lágrimas juntos inexiste amor ou relacionamento amoroso que dure.
Parceria só para a cama? Se consegue uma por noite, via telefone, internet, ou saindo pra baladas. Parceria pra bebedeira e festas? É só chamar os "amigos" e bancar o "festerê". Parceria para dar força na carreira? Existem consultorias especializadas. Parceria só para desabafo? Existem os psicólogos. Parceria para dormir todas as noites e acordar feliz? Existem os ansiolíticos e antidepressivos.
A parceria entre pessoas que se amam inclui todas as espécies dela. O amante é o parceiro que nos completa na cama, nos alegra nas festas, nos acompanha nos programas "meia boca", no final de semana chuvoso ou ensolarado, que nos incentiva a crescer em nossa profissão, que nos ouve, compreende, mas que nem sempre nos dá paz para dormirmos e nem sempre nos deixa feliz. A felicidade é algo pessoal, amor e o ser amado não são remédios para nossas frustrações. São pessoas, seres humanos, complementos em nossas vidas (imperfeitos como nós), jamais "soluções".
Pode ser que um dia tenhamos raiva, que um dia sintamos vontade de deixar aquele que julgamos amar, pode ser que por alguns instantes queiramos sufoca-lo com um travesseiro. Crises? Briguinhas? Acontecem. O que não pode acontecer é o desgosto, a decepção, o sentir-se constantemente chateado com o outro, o perder a admiração ou a atração. Quando isso acontece, uma coisa é certa, o amor disse "bye, bye".

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 14 de novembro de 2008
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Castelos arruinados

Castelos arruinados
É preciso mais do que coragem para romper com planos. É preciso humildade. O ser humano vive de planos, por mais que tente apregoar o “viver um dia de cada vez”.A gente pode curtir um dia de cada vez, mas sem planos para um amanha, próximo ou futuro, ninguém levantaria da cama. Ninguém teria entusiasmo para trabalhar, para batalhar, para entregar o coração e a confiança à alguém que possa ser tido como digno deles.E, assim, a gente trabalha hoje, vive o hoje, devendo aproveitar ao máximo nossos momentos com quem amamos e fazendo o que gostamos, mas pensamos no que poderemos fazer em nossas férias, no final de semana, na jantinha especial com a pessoa amada.A gente se encontra hoje, rola a química, e ficamos pensando num próximo encontro. A gente namora e pensa como será a pessoa amanha, se nossas metas serão convergentes, se poderemos formar uma família legal, com comunhão de pensamentos e sentimentos.Mas, e quando algo surge e bloqueia a estrada de nossos planos? Quando a gente percebe que aquela pessoa não nos completa, não nos faz feliz, não será aquela que no amanha irá nos alegrar, ser um bom companheiro, uma boa parceira? E quando a gente vê que a moça linda que esta ao nosso lado não nos palpita nada mais que atração, carinho, amizade?E quando o trabalho nos descontenta? É difícil aceitar o fim de uma relação, é difícil aceitar e admitir que, por algum motivo e em algum aspecto fracassamos. Por motivos alheios ao nosso ânimo e entusiasmo inicial nossa relação fracassou, nosso negócio deu errado, nossas amizades enfraqueceram.É preciso coragem para dar um basta em algo, é preciso aceitar a nossa impotência diante de certos motivos, as nossas culpas em relação a outros, as nossas omissões que se tornaram falhas sérias, precisamos rever nosso agir, aceitar o que fizemos de errado, de certo e compreender que nem sempre o fracasso depende unicamente de nossa conduta, mas a sua aceitação sim, depende unicamente de nossa maturidade, coragem e humildade de espírito.Se é difícil assumir o fim, a frustração, o “tentei, mas não deu certo”, o “lutei mas perdi a batalha”? Sim. Se dói? Muito, e no orgulho. Na verdade é o orgulho que nos faz insistir e sofrer ainda mais, é ele que nos faz fazer de uma batalha uma guerra visando uma vitória que não existirá, porque se fosse para existir não seria necessário lutar, batalhar, pisar em cima de orgulho e de outros valores, o que é pra dar certo, dá sem tanto padecimento.O ser humano sofre pelo próprio orgulho e teimosia. Frustra-se, cria castelos de planos, destrói castelos, mas de seus destroços reconstrói sua auto-estima com mais sapiência. Cresce enquanto pessoa adquire méritos de valores inestimáveis, impassíveis de serem adquiridos por qualquer fortuna.
Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 10 de novembro de 2008.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Não mais, mas melhor.

Não mais, mas melhor.

Desejamos mais. Desejamos mais dinheiro, mais trabalho, mais poder, mais beleza, mais afeto, mais carinho, mais sexo, mais prazer, mais trabalho, mais comida, mais viagens, mais carros, mais felicidade, mais paz. 
Desejamos mais, tudo mais.Muitas vezes esquecemos, nesta ânsia do "mais" ter e do "mais" ser, que podemos desejar o melhor.
Podemos investir melhor o dinheiro, trabalhar imprimindo melhor qualidade, termos força e utilizarmos o poder que ela nos dá da melhor forma, podemos ser melhores como pessoas e não mais belos, porque se a intensidade da beleza se degrada a intensidade da alma se engrandece, deveríamos imprimir mais qualidade em nossas relações de amor e amizade, demonstramos melhor nosso afeto, abraçando com mais alma, beijando com mais essência, e não beijando e abraçando mais, sem sentir o outro. 
Devemos ser mais carinhosos, fazer sexo melhor, não com qualquer pessoa com a qual não conseguimos nem conversar depois, deveríamos buscar um sexo melhor, brando ou animalesco, (ou ambos), com quem nos deixe de pernas bambas fora da cama também, para que o prazer seja melhor e maior, não apenas reiterado e incompleto, porque apenas físico,deveríamos desejar que o gozo mental anteceda e acompanhe o gozo físico, isso é fazer melhor, sentir melhor a mente, usufruir melhor do corpo.
Deveríamos viajar para onde desejamos, com quem amamos, para que a viagem seja melhor, deveríamos aproveitar melhor os momentos para curtirmos a felicidade que esta a nossa porta, mas que atropelamos porque não temos "tempo" para abrir-la enquanto nos preocupamos que temos que fazer mais, ganhar mais, dormir mais,conquistar mais,enfim nos preocupamos com "tudo o mais".
Façamos pouco, mas façamos de coração, demos nosso sangue, nossa força, doemos nossa essência e energia, mas façamos melhor. Façamos com qualidade. Dormimos pouco? Mas vamos dormir com qualidade. Vamos ter um sono profundo e sonhos intensos. Vamos ter o sono dos que cumpriram a missão de tentar se tornar seres melhores.
Vamos conquistar poucas pessoas, mas conquistemos quem desejamos, vamos trazer para nossa alcova nossa amada e não uma série de amantes. Vamos ter uma apenas, mas intensamente e não muitas superficialmente para dizermos que temos mais.
Quem deseja apenas ter mais não vive conforme o "live and let live", pelo contrário, vive controlando e seguindo os passos alheios para comparar-se, e, se covarde for, desejando o tropeço alheio. Quem deseja ser melhor e aprimorar-se na vida vive e não interfere, física ou mentalmente nos anseios e na vida alheia, apenas respeita, e deixa o outro viver, porque se preocupa, realmente, com seu aprimoramento.
Coitados dos que têm mais e não sabem que o valor esta em ter o necessário, e o simples, mas ter o melhor e fazer do que se tem, do que se sente, e do que se é, algo melhor. Nós não somos o que acumulamos a mais, somos o que aprimoramos em nossa vida. Seremos melhores se transformarmos 3 laranjas em suco, e não as desperdiçamos do que se comprarmos 15 e deixarmos apodrecer.Seremos melhores se fizermos uma mousse com a metade do vidro do suco de maracujá que esta a uma semana no refrigerador, e não se comprarmos mais um vidro e deixarmos guardado até o sabor ficar ainda mais azedo.
Somar, acrescentar não é melhorar. Melhorar pode ser diminuir e intensificar a qualidade do que temos, pensando no futuro, intensificar a qualidade de nossa alma visando a eternidade.Vender um móvel ou imóvel é diminuir, mas se o dinheiro for investido em algo será aprimorado o patrimônio. Diminuir a incompreensão e o medo aprimoram as oportunidades de nos sentirmos melhor e sermos seres humanos melhores.
O que temos a mais poderá nos ser tirado e diminuído, e, se estivermos com nossa auto-estima pautada no excesso que acumulamos iremos esvaecer, no entanto, o que temos em nosso interior de aprimorado e de melhor não será tirado, e, se um dia abalado for, saberemos com exatidão o caminho que nos torna, e nos tornou melhores.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo/RS
, 15 de abril de 2004.

Eu, Schopenhauer e a maldade.

Eu, Schopenhauer e a maldade.

Folhando papéis antigos encontrei uma citação do único filósofo que minha mãe, (que nunca foi dada a leituras), leu e me deu o livro do qual tirei alguns trechos e anotei em uma "agenda" há muitos anos atrás. Bem, era um livro de Arthur Schopenhauer, e a citação que inseri em minha agendinha adolescente dizia o seguinte: "Quanto mais enxerga as distinções - ou seja, quanto mais inteligente é -, maior é a dor que o homem sente: aquele que é dotado de gênio sofre mais do que os outros."
Certamente a citação se adequava aos meus sentimentos de adolescente, em uma cidade estranha, sem irmãos, e, como sempre, "estranhando" as companhias, afinal dos 12 aos 16 anos (ou seria dos 10 aos 18?) eu me sentia uma espécie de "Carrie - A estranha", menos macabra e feia é claro, mas "estranha" porque não encontrava justificativa para dores e sentimentos que ninguém se importava, não encontrava explicação para a maldade, para a inveja, para a falsidade, enfim, para todas as manifestações de ignorância humana que sempre irão me perseguir (que perseguem todo o homem de alma pura). Ou melhor, eu me sentia "perseguida" porque sofria com tais sentimentos desgraçados: a maioria não sofre porque não sente.
Mas a vida surpreende. Amadureci, evolui, aprendi a ignorar o que poderia me afligir, contudo percebi que não adianta fugir do que nos cerca: A ignorância humana. Não sei se sou "inteligente" no sentido dado por Schopenhauer, mas sempre enxerguei as distinções, e fui (sou e serei), como muitos, ferida pela maldade humana. Creio, porém, que a dor que sente quem não consegue entender o "porque" do agir humano maldoso e egoísta sofre como aquele que leva uma surra, porém a dor é na alma, e a ferida se abre nela, que fica cansada, como o corpo de um lutador após uma batalha.
Quem sabe analisar e vê o desagradável constata o que aqueles que não analisam senão as superficialidades não vêem, e sofre por, muitas vezes, não encontrar compreensão para sua agitação mental, para sua frustração com o mundo, pois assim como os fúteis, muitos ignoram a maldade por acovardarem-se em idealismos incoerentes e distantes da realidade, e outros, simples e lamentavelmente, já se contaminaram com o pensar da maioria.
Aquela, tão (por mim) falada maioria que não pensa nos outros, a maioria que fala em pecado - fala em inveja, fala em cobiça, fala em preguiça, fala em vaidade, enfim critica os atos vis do ser humano e age contra o maior preceito de bondade: não fazer para os outros o que não se deseja para si.
É constatando a ausência deste "pensar e colocar-se no lugar do outro" que fez com que na infância, na adolescência e que agora na fase adulta, contudo jovem, eu estranhe o mundo. Estranhe a futilidade, a supervalorização do que é perecível, que faz com que até mesmo os relacionamentos se tornem vulgares e frívolos. Busco e encontro explicações para muitas agruras humanas, mas não consigo deglutir a falsidade, a ignorância, o egoísmo, a futilidade, a arrogância, as obsessões e apegos desprovidos de respeito. Não, consigo, enfim, assimilar a falta de respeito dentre seres iguais, dentre os seres humanos.
Não fazer para o outro o que não desejamos que nos façam é a maior prova do respeito e do amor ao próximo que impede a ocorrência de grandes barbáries até pequenas injustiças que doem como um corte de gilete que, contudo pequeno, é difícil fazer parar de sangrar.
Concordo, pois, com o único filósofo que minha mãe leu. Daquela citação jamais esquecerei, ou, ainda que, com o tempo, da minha memória ela se apague, tenho certeza que seu significado será, lamentavelmente, constatado durante toda minha existência, vez que não posso fugir de meu próprio gênio, de minha própria alma e da sensibilidade que lamenta, constantemente, a falta dela na maioria das pessoas.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo/RS
, 12 de junho de 2005.

No limite.


No limite.

No limite. Não, não se trata de nome de programa de televisão imbecil. No limite é onde o ser humano que leva uma vida atarefada esta essa época do ano. Tem aqueles que estão no limite do cheque especial, no limite da força física, no limite da saúde psíquica, mas, a grande maioria esta é com a paciência no limite.
Certamente se o ano não estivesse a um passo do fim não averiguaríamos tal realidade. A gente só sofre esta época porque paramos para pensar no que fizemos, passamos e enfrentamos no ano que finda, nas tarefas, no esforço condecorado ou, simplesmente, ignorado, nas frustrações, nas surpresas, enfim, em tudo que nos aconteceu e que fizemos acontecer. Se o ano não tivesse fim não desenvolveríamos a consciência de que estamos na linha tênue entre a sanidade e a loucura.
Vontade de jogar tudo para o alto, de fugir para uma praia com uma companhia bem legal, para comer, dormir, beber e outras cositas mais. Apenas descontração e alegria para desestressar o corpo e a mente. Mente de pessoas honestas que trabalham, pagam impostos e quando precisam de médico enfrentam o horror chamado SUS, quando precisam de segurança, bem, dai já é tarde demais, é melhor entregar a bolsa e esperar na fila para registrar um boletim de ocorrência.
Pessoas que confiam, que dão o seu melhor, que são amigas, parceiras e muitas vezes só sentem o gosto amargo da inveja alheia e encaram falcatruas de traidores. No limite, onde mais podem estar estas criaturas? Trabalho, esforço, cansaço, juros altos, amizades de aparência, relacionamentos sem parceria, dias quentes, falta de tempo para quase tudo que se precisa fazer. No limite, este é o lugar.
Por essas e por outras razões é que os loucos são felizes - alheios a realidade e seus inconvenientes, afinal, muitas vezes, para eles tudo é motivo de riso. Mas nós temos uma cabeça que funciona bem (?) e que esta no lugar, todavia, nessa época, esta doidinha para sair um pouco fora do pescoço - mas não pode. A razão não deixa.
Nada, pois, como a esperança para nos fazer rir e sonhar. Um novo amor, um novo ânimo, uma nova meta, um novo sonho, uma nova busca. Chega um ano com novas possibilidades, finda um em que o melhor possível foi feito.
Os resultados não têm tanta importância, o importante mesmo é saber que houve esforço e garra porque estes sempre serão necessários. Passa ano, vem ano, o homem sem garra, esperança e força de vontade não é nada.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo/RS
, 22 de dezembro de 2006.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Relações Passatempo

Relações Passatempo

Bom se não fossemos loucos por andar com um questionário em mãos. Ah, o cara interessante te convidou pra jantar? Você foi. Convidou para um cinema, demonstrando maior interesse, você foi e deu pra ele um questionário. Bem, dai ele sumiu e espalhou para todos os seus amigos que você é pirada. Fazer o que? É impossível usar o "questionário da verdade pré-paixão" e não ser mal julgada.
Ora, mas que questionário infeliz é esse? Não, não é um questionário infeliz, é o questionário pré-paixão, pré-amor, pré-relacionamento. Nele deveriam conter perguntas simples como: O que você espera de um homem (mulher) dentro de casa? Você deseja uma boa profissional ou uma boa dona de casa? Você tolera uma pessoa comunicativa, humorada e simpática para com todos? Você aceita o marido extrovertido que se relaciona bem com todas as amigas e colegas de trabalho? Você aceita uma pessoa cuja profissão o coloca em contato com pessoas do sexo oposto? Você aceita uma mulher que tenha pouco tempo para ficar em casa? Uma mulher que não cozinhe muito bem, mas que consiga, ao menos comprar comida com o dinheiro dela?Você quer uma dona de casa? Uma colega de trabalho subordinada? Você aceita um homem que quer ser casado e poder sair de casa a hora que deseja sem dar satisfações como se solteiro fosse? Você se sente bem com uma mulher ou com um homem que apesar do trabalho acha sexo relaxante e gostaria de ter todos os dias?Você conseguiria assumir a posição de marido e as limitações a liberdade (e responsabilidades) que tal vida impõe? Você gostaria de compartilham momentos de diversão e diálogo com sua mulher ou marido ou acha que "conversas e programas legais" se faz apenas com amigos? Você deseja ser pai ou mãe e assumir tal responsabilidade? Você esta disposto a tolerar as variações de humor da mulher na época da TPM?
Sim, é um longo questionário. Praticamente insano, mas que, fosse respondido com sinceridade evitaria que muitas relações fadadas ao fracasso nascessem, afinal, muitas vezes, pessoas que discordam nesses e em outros pontos se apaixonam, se envolvem, e não conseguem se desencilhar, mesmo estando evidente a diferença de anseios, de tolerância e de expectativas de vida de cada um. "Ah, mas tem que curtir o romance, o namoro." Sim, tem, mas ninguém se relaciona seriamente com alguém para serem "eternos namorados".
O namoro, hoje em dia, é o prelúdio da união estável, do casamento. Os casais querem compartilhar seus dias quando se amam verdadeiramente, se curtir na intimidade, superar os percalços e tirar proveito disso. Tem problemas?Briguinhas, desentendimentos? Claro que sim, mas nada que uma boa dose de diálogo, carinho e paciência não resolvam, os resquícios de brabeza se resolvem numa boa noite (tarde ou manha) de amor e o sorriso volta a face.
Vida de casado não é prisão, mas requer limitações. Ninguém, tendo um marido em casa pode colocar um vestido, salto alto, pegar a chave do carro sem desejar ouvir a pergunta "para onde você vai?", são situações normais, ninguém pode desejar ser amado e viver com alguém que não queira curtir sua companhia. Quem não tem maturidade ou paciência para isso, deve, simplesmente, conformar-se com a solidão e passar a vida vivendo conforme se acostumou, como entrou no mundo: Sozinho.
Quanto ao questionário? Tolo, insano ou não, seria interessante que pudéssemos entrega-lo ao pretendente antes da paixão surgir. Talvez muito sofrimento, muitas relações baseadas mais na paixão do que na razão seria evitadas. Seriam, literalmente abortadas, porque na ausência de certas aceitações e compreensão não existe amor que resista, relação que siga em frente, da mesma forma que não existe relacionamento que viva apenas o presente. Quem ama sempre pensa um pouco no amanha, no que "seremos juntos no futuro", do contrário não é amor, é "curtição", relação com nome de bolachinha recheada: "Relação passatempo".

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 06 de novembro de 2008.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Os únicos responsáveis

Os únicos responsáveis

O homem nutre muitas crenças para não se sentir sozinho no Universo, e nutre muitas outras para não se sentir sozinho e responsável no Universo. Responsável pelas escolhas que faz, pelas atitudes que toma ou deixa de tomar, e, consequentemente pelo reflexo de suas ações ou omissões no agir alheio e nas circunstâncias que cria em sua vida. Nutre muitas crenças para fugir da responsabilidade de ser ele mesmo e assumir ser quem é.
Tais crenças podem ser de religiosas até a crença no futuro, no amanha: "Porque amanha tudo vai ser diferente, eu serei diferente", "porque se Deus quiser...". E enquanto Deus não quer e o amanha não chega o homem se isenta da responsabilidade por tornar realidade o que ele deseja e efetivar nele mesmo ou na sua vida as mudanças que espera. Vivemos num mundo em que poucas pessoas vivem, a maioria existe e crê: Crê no futuro, crê no "poder divino", crê no poder do tempo e suas mudanças milagrosas, acreditam demais em tudo e pouco em si mesmas, concretizam na mente o poder do que e de quem não podem ver e duvidam de sua própria força para fazer o que quiserem de suas vidas, inclusive evoluir, se auto-modificar, se recriar.
Amadurecer é tomar consciência da responsabilidade que temos por ser nós mesmos, de que o veículo de nosso destino esta em nossas mãos e somos nós os responsáveis por ele e pelo rumo que a ele daremos. Viver, é mais do que existir e passar a vida achando culpados ou coadjuvantes para os nossos méritos, viver é tomar as rédeas de nossa existência com a plena consciência de que somos os únicos responsáveis pelo que nela fazemos desde o momento em que entramos no mundo até o momento em que dele saímos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 31 de outubro de 2008.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Os riscos das palavras.

Os riscos das palavras.

As palavras podem ser anjos ou demônios, podem ser letais como armas de grande calibre, podem ser salvadoras como as mãos de um médico ao auxiliar um necessitado.
É através do uso das palavras que o homem assume riscos homéricos. Risco de magoar, risco de ferir, de causar na alma alheia dor indelével, ou, simplesmente o risco de encantar, de cativar.
Sim, porque cativar também é arriscado, gera a responsabilidade de cuidar do que foi conquistado com respeito, de demonstrar em atitudes o que as palavras doces e sinceras fizeram pulsar.
Triste é o risco que assume os que não pensam no que dizem, não ponderam o que fazem. Palavras mal colocadas acabam com o respeito, com sentimentos, com relacionamentos.
O perdão existe, obviamente, para ser pedido e concedido, mas não tem o condão de retirar do mundo e do coração de quem ouve alguma palavra ofensiva. Bom é viver, se expressar, sem contar com o perdão alheio por palavras mal colocadas, sem precisar pedi-lo enfim.
O homem precisa aprender a cuidar o que fala porque assume muitos riscos usando sua boca, exprimindo palavras que, muitas vezes, referem sentimentos inexistentes. Pode magoar, pode quebrar a confiança ou o amor, e, via de regra, vasos quebrados não voltam a ser belos como outrora foram. As palavras deixam marcas, salvam ou afundam relações e sentimentos.

Cláudia de Marchi
Passo Fundo/RS
, 19 de outubro de 2008.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Jogo de culpas

Jogo de culpas

As pessoas complicam suas relações por intransigência, por quererem ter razão, por atribuírem ao outro características suas, por não conseguirem respeitar o ponto de vista alheio sem culpa-lo, sem tirar de si mesmo muitas culpas e pesares para jogarem no outro. Via de regra, em qualquer discussão, inexiste o certo ou o errado, a parte cheia da razão ou a parte abstida dela, existem, isto sim, duas pessoas que desejam, ou não, contemporizar.
O problema é quando se inicia um jogo de culpas: "Você fez isso, você é assim, eu posso estar errada neste ponto, você esta errado naquele e naquele outro". Tirar de si, jogar no outro, ou, simplesmente, não assumir as suas próprias culpas e desejar atribui-las apenas ao outro, é uma forma cruel de desrespeitar, não apenas a outra pessoa, mas a relação, ao sentimento que ainda pode existir, ainda que seja de mero carinho.
Embora possa uma pessoa ter errado mais, fato é que se existe vontade de transigir, se ainda existem conversas a serem feitas, jogar culpas, ou inventar culpas para atribuir ao outro é algo insano, além de cruel. Em qualquer tipo de diálogo, de interação entre duas ou mais pessoas, o homem justo não busca persuadir o outro, não deseja ter razão, almeja, apenas, expor seu ponto de vista e ser respeitado. O diálogo não é um campo de batalhas em que a vitória é almejada, ele é a única forma dos racionais se entenderem desde que desarmados de sentimentos de cólera ou orgulho.
Ser respeitado não significa ouvir "é, você tem razão", ou um sarcástico "não adianta, você tem que ter sempre razão". Em qualquer tipo de relacionamento, é preferível ser feliz, ter paz e tranqüilidade a ganhar a razão. Ou seja, a pessoa deseja se fazer entender, ser compreendida, não aplaudida. Razões, argumentos a seu favor, cada pessoa terá os seus, tendo em vista o que são, como foram educados e o que aprenderam com a vida, são pessoas diferentes, pontos de vista diversos, culturas, muitas vezes, opostas: Cada um com o que chama de "suas razões".
Respeitar é saber ouvir, transigir é ouvir para entender, para compreender o outro e sua forma de ver, de analisar a vida, a relação e suas situações. Transige quem ouve desejando compreender e não ter razão ou tirar a razão do outro lhe julgando através de seu ponto de vista, transige quem quer paz e não brigas, quem quer entender e não acusar, quem quer uma interação madura e não um jogo de culpas insano onde todos saem perdendo.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 21 de outubro de 2008.

A esperança da mudança alheia.

A esperança da mudança alheia.

Como advogada ouço coisas assustadoras. Não falo de confissões de crimes, falo de pessoas, mulheres ou homens, que falam que passaram 26 anos casados com alguém que lhes tratava mal, com quem conversavam, tentavam deixar, mas, ouvindo promessas de mudanças davam chances: uma, duas, três, inúmeras chances, pensando que o outro mudaria. Falo de uma mulher jovem, que agindo em legítima defesa matou o marido que lhe batia: "Eu deixava dele, ele dizia que ia mudar e eu voltava".
Afirmativas assim, carregadas da mais triste das frustrações mechem com meus nervos. Até que ponto o amor perdoa? Até que ponto alguém pode mudar? Até que ponto uma pessoa consegue persuadir a outra em relação a sua mudança, e, porque e por quem, afinal, alguém pode mudar? São afirmativas de resposta difíceis, cujo sentido desconheço.
Segundo opinião de boa parte das pessoas que conheço ninguém muda. Segundo minhas concepções todos podem mudar, estamos na vida para aprender e melhorar, ou seja, sermos amanha um pouco mais, um pouco melhores do que somos hoje, logo, de uma forma ou de outra, a vida incita a mudança. A questão é o que pode motivar alguém a mudar, e quem é, de fato este alguém.
Pessoas de alma dura, de espírito empedernido (e existem várias), usam a afirmativa de que irão mudar para persuadir os outros. Eles mesmos não reconhecem seus defeitos, não conseguem se auto-perceber, logo, jamais conseguirão mudar de verdade sem tomarem consciência de si mesmos e de suas fraquezas. Pelo contrário, existem os que aprendem com a vida, seja através do amor, seja através da dor, estes, quiçá mereçam votos de confiança, e quiçá, também jamais precisem pedi-lo, porque mudam por si mesmos, sem que ninguém precise lhes pedir.
Mudar por alguém? Não sei se é necessário ou possível. A grande maioria das pessoas precisa mudar por ela mesma, por perceber que suas escolhas não estão lhe levando a um bom rumo, não estão lhe fazendo feliz. O homem muda, realmente, quando aprende algo que ainda não havia aprendido. Assim, a mudança será por ele mesmo, pelo seu próprio bem, todavia, tal crescimento é privilégio dos humildes de espírito e que possuem amor no coração. De outra forma, qualquer esperança de mudança por parte de quem é duro, implica em perda de tempo e aumento de sofrimento daquele que, triste, espera alguma mudança do outro.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo/RS, 20 de outubro de 2008.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ciúmes e desconfiança

Ciúmes e desconfiança

Tão necessária quanto a coragem e a perseverança para o homem enfrentar a vida, é a confiança para o homem viver um amor. Nenhuma relação se mantém sem que exista confiança entre o casal.
As pessoas confundem ciúmes com desconfiança. Todo desconfiado sente ciúme, mas nem toda "ceninha" de ciúmes é inquinada por desconfiança. Um pouco de ciúmes, é normal, todo ser que ama sente um pouquinho, que pode ser um tanto saudável.
O problema não é o ciúme eventual, mas sim as atitudes de quem diz que ama, mas não confia no outro. Não confia nas amizades que o outro tem, na postura profissional do outro, nas afirmativas que ele faz de onde esta, esteve, foi, com quem esta ou esteve, e sobre o que faz ou fez em determinado período.
A desconfiança é uma praga que mata o amor, ou, ao menos, que torna o convívio insuportável, a relação caótica, catastrófica. A desconfiança ofende, magoa, avilta a alma, fere o coração, os sentimentos, o equilíbrio mais de quem é vitima do que de quem a sente. Relação sem respeito não se mantém, e a desconfiança é o mais sérios dos desrespeitos dentro de uma relação.
Quem desconfia inferniza a própria vida e a do outro, não tem paz, tranqüilidade e faz da relação um berço de desarmonia, demonstrando falta de confiança e apreço, primeiramente, por si mesmo. A confiança é uma prova de amor, acreditar no outro, em suas palavras, gestos e afirmações são demonstrações de carinho inestimáveis.
Ciúmes? Aquela sensação ruim de ver o amado conversando com outra, falando bem de ex-namorada ou admirando a conhecida bonitona é normal, mas daí a desconfiar do que ele afirma pela sua forma, quiçá inocente de agir, questionar, enfim, sua lealdade é algo ofensivo e desrespeitoso.
Um pouquinho de ciúme é perdoável, aceitável em certa medida, desde que no final prevaleça a confiança. Na verdade a confiança deve basear a relação, é ela que sustenta o amor. Onde reina a desconfiança o amor esmorece, e nasce o desgosto.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 20 de outubro de 2008
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Perigosa diferença

Perigosa diferença

As pessoas se acostumam com a vida que levam, e, muitas vezes, se bitolam no hábito sem saírem dele, sem conseguirem mudar a forma de ver a vida, enfim. Afinal, a forma com que o homem vive reflete seus pensamentos sobre o mundo, sobre o que é felicidade e sobre o que pensa e deseja da vida. A maioria das pessoas, depois de certo tempo, vive pelo hábito, e com base nele.
Depois de acostumar a ser só, por exemplo, nem o homem, nem a mulher, consegue visualizar a constituição de uma família, não assimila o conceito de ser pai, de ser mãe, de gerir afetiva ou financeiramente um lar. Se acostumou a levar a vida com extrema liberdade, a fazer tudo na hora que quer, nos dias que quer e com quem deseja? Provavelmente vai passar a vida sem se acostumar a viver de forma diferente.
"Ah, mas a pessoa pode mudar". Claro, até mesmo criminosos contumazes podem mudar. Desde que queiram, desde que reconheçam que estão levando um estilo de vida que os distancia de certos valores e sentimentos, ou em desacordo com a idade e maturidade que deveriam ter. Mas, cada um tem seu tempo, o que muitos aprendem aos 20, 30 anos, outros irão aprender com 60, e muitos jamais aprenderão. Questão de opção, de livre arbítrio.
Existem pessoas habituadas a viverem sozinhas, outras habituadas a terem parceiros, que gostam de viver a dois, outros que curtem viverem sós, apregoando o valor da "liberdade" e se sentem "presos" na menor ingerência do outro em suas rotinas milimetricamente calculadas, há os que valorizam a companhia de poucos e bons amigos, os que estimam a de muitos, de muitas turmas. Cada um na sua, todavia pessoas com hábitos de viver diferentes não se acertam bem e não conseguem ser felizes juntas porque todo relacionamento requer similitude de pensamento, sonhos, planos e anseios comuns.
Uma pessoa que deseja ter uma família, um lar harmonioso, jamais será feliz com quem quer viver apenas para si, curtindo a vida sempre com liberdade, com companhia do sexo oposto apenas quando deseja, porque as formas de pensar e de ver a vida inerentes ao estilo que a pessoa tem de vive-lá são a base de sua personalidade, demonstram a sua cultura.
Quem quer um lar, uma família, uma união, valoriza princípios que o outro, o "eterno livre" não estima, como parceria, cumplicidade, união e, com ela superação de dificuldades em "a dois", enquanto o outro estima o individualismo, a resolução pessoal de problemas e a "curtição" da vida sozinho, para fazer o que deseja no momento que deseja. Algumas diferenças são superáveis, mas a diferença na forma de ver o mundo e os relacionamentos sem que exista forte vontade de mudança e adaptação é, via de regra, insuperável. Insuportável.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 16 de outubro de 2008
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Amores dominicais

Amores dominicais

Que tipo de relacionamento você deseja? O anseio do ser humano tem muito haver com a fase da vida e de maturidade que ele tem, bem como com o que aprendeu com os relacionamentos vividos.
Tem gente que acha que namorar a distância é uma maravilha: “Não tem brigas, quando o casal se encontra são só bons papos, boas situações”. Tem gente que nem namorar quer: Quer ter todos, sem ser de ninguém, dormir com muitos e acordar sem nenhum.
Questão de personalidade, de sentimentos, de maturidade, de experiência. Por outro lado, tem gente que curte o bom e o mau do relacionamento. Amor só para horas boas é e sempre será uma ilusão, não é a toa que os padres falam: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza”.
Logo, namoro de final de semana, namoro a distância, namoro de pouco convívio se baseia em ilusão que termina após alguns meses de convívio direto, em que a gente tem que respeitar o mau humor, a euforia, a tristeza ou qualquer estado de espírito do outro. Não que a gente goste, a gente respeita e o respeito é o maior sinal de amor que existe.
Nada contra namoros à distância, obviamente não. O amor ultrapassa oceanos. Mas, o amor tem que ser apesar da distância e sempre com a vontade de encurtá-la, ela não pode ser pretexto para se evitar o dia-a-dia, mas sim, por coincidência do destino que uniu pessoas de cidades, Estados ou (até mesmo) Países diferentes.
Cada um na sua fase. Tem gente que casa, descasa e nunca mais quer casar. Tem gente que namora e nunca mais quer saber de compromisso. Tem de tudo neste mundo. Pessoalmente acho que o bom é se divertir levando a vida a sério, amando com seriedade, curtindo o amor, curtindo a dor, a fossa, a ressaca, a depre, juntos, respeitando o outro, no dia a dia, nos bons e nos maus momentos, enfim.
As pessoas casam pensando na separação, passaram a acreditar que precisam estar sempre “bem” para manter uma relação. Conheço muitas relações que sobreviveram a crises financeiras, a problemas homéricos, pelo amor, pelo respeito entre o casal, pelo carinho e pela vontade de ambos em ficar junto. Mas, quem casa pensando no fim, tem essa vontade? Duvido.
Amor só pra hora boa? Relacionamento só de final de semana? Amor de “tudo bem, tudo bom”, a gente beija, a gente come, a gente transa, a gente dorme? Isso é bom para os adolescentes, que não deveriam pensar em se casar cedo. Adulto tem que aprender a viver, a conviver com quem ama, nas horas boas, nas horas ruins, porque o amor adulto se prova no dia a dia, não é amor dominical, ou é de verdade e enfrenta as mazelas e as benesses da vida a dois, ou é amor de ilusão.
Dizem que relacionamentos à distância duram mais. Pode ser. Dizem que é maravilhoso curtir somente as horas boas, sem discussão, contas a pagar, comida feita às pressas pra comer. Pode ser, também. Para alguns o que importa é a duração da relação, para outros é sua intensidade. E intenso mesmo é o amor que se concretiza apesar dos pesares da vida a dois, apesar da rotina.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 13 de outubro de 2008.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A perda da Beth

A perda da Beth

Poucas relações são tão puras como a estabelecida entre o homem e o animal. Aquele bichinho que não fala, não diz nada que agrade ou magoe, manifesta no olhar, no gesto, na demonstração de apego ao dono um sentimento que enternece seu coração e alegra sua alma.
O animal não cobra nada, gosta com desprendimento, sem interesses escusos, não julga o dono, não critica, não é estúpido, não xinga quando não deve, não descarrega seus problemas nos outros bichos ou no dono que, pode até fazer isso com ele e será perdoado. Quem já viveu bastante, ou, ao menos, quem teve contato com muitas pessoas aprende a estimar e amar os animais.
Mais amados são os bichinhos que a gente chama de "nossos". Aqueles com os quais conversamos, apertamos, amassamos, damos comida, carinho, e recebemos seus atos irracionais mas de intensa demonstração de apreço em recompensa. Eles não pensam? Não, mas muitas vezes seu instinto é mais benévolo do que o de muita gente que diz que pensa e age como animais, mas não domésticos ou de estimação, e sim como os brutos, os selvagens.
Nunca perdi nenhuma pessoa próxima, mas ontem perdi a Beth, minha gatinha persa que morava há dez meses em Marau. Beth, uma gata linda, calma, que pouco miava, tinha uma boquinha cor de rosa capaz de fazer qualquer gatinho deseja-lá. A "bebê" (era chamada assim por mim e pelo co-dono dela) foi namorar pela primeira vez há poucos dias e estava prenha de um gato persa branco, não tão lindo quanto ela, lógico, afinal donos de bichos os chamam de "filhos" e nenhum filho é tão lindo quanto os da gente.
Uma camionete atropelou ela. O dono do carro estava correndo numa rua onde não poderia andar em alta velocidade, passou por cima, fez de conta que não viu e causou dor a muita gente que amava a Beth e sua meiguice magnífica. Seres humanos são assim: Vêem e fazem de conta que não viram, pisam, maltratam, dão o tapa e escondem a mão, não têm vergonha de errar, mas odeiam assumir os erros, magoam sem piedade e tentam justificar seus atos. A racionalidade é usada para justificar crueldades e imprudência.
Eu perdi uma gata, enquanto mães estão perdendo filhos por atos de pseudoracionais, e isso me faz lastimar mais a morte dela que, certamente, valia, para mim, mais do que muita gente que conheço e que existe por este mundo afora, ferindo os outros, maculando a paz alheia, sendo impiedosa e cruel, dizendo que é gente. "Gente boa", o que é pior.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 10 de outubro de 2008.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Amor e relacionamento

Amor e relacionamento

Certo é que um relacionamento a dois precisa de muito mais do que amor para dar certo. Quem já viveu ou vive com alguém enfrentando os percalços diários sabe que é preciso muito mais do que este nobre sentimento para a relação se manter, ser legal, enfim, fluir bem e não findar rapidamente.
É preciso paciência, é preciso muito e sempre, excessivo respeito, o ato constante de “colocar-se no lugar do outro”, carinho, compreensão, confiança, jogo de cintura, bom humor, e, sempre, a vontade de ficar junto, de fazer dar certo, de enfrentar as adversidades em prol da união, de um futuro legal e ainda mais harmônico com quem se ama.
Por mais certo que seja que um relacionamento precisa de uma série de quesitos além do amor para dar certo, é igualmente certo que sem amor nada flui. Sem amor a gente não tem porque ser paciente, sem amor a gente não tem ânimo para evoluir, para mudar, para perdoar, para tentar novamente, para superar o que é preciso (porque os relacionamentos adultos sempre exigem alguma superação).
Amor a gente não força, no coração a gente não manda. Tem quem privilegie coisas materiais, tem quem force algo em prol de dinheiro e status, existem os interesseiros, infelizmente. Mas pessoas puras querem amar, amar sem porque, amar sem interesse, amar sem justificar, amar por amar.
A gente não escolhe quem vai amar, ou porque vai amar, na verdade a gente pode até tentar justificar porque ama alguém, mas a força inexplicável deste sentimento nos faz gaguejar. Podemos enlouquecer tentando justificar o amor que sentimos por alguém e jamais conseguiremos.
Logo, pode ser que o amor não seja suficiente para manter uma união, ele realmente não é, mas sem ele, não existe sequer motivos para se tentar conviver e ter um relacionamento com alguém. O amor não basta para fazer a relação dar certo, mas sem ele não existe porque existir uma relação, ele não é suficiente para fazer uma união fluir bem, mas sem ele nenhuma união nasce.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 08 de outubro de 2008.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Julgar

Julgar


Julgar é uma tarefa um tanto quanto difícil. Julgar pessoas deveria ser impossível, todavia, embora de fato seja, deveria ser algo impossível de gerar no homem a vontade que ele tanto possui de criticar o outro de forma tão rígida e pouco compreensiva.
Tendemos a julgar os erros e os defeitos alheios com grande rigidez, sem, pois, nos colocarmos no lugar do outro de forma realmente humana, ou seja, percebendo que, como nós, o outro também tem suas fraquezas, suas carências.Toda pessoa tem algo que lhe afeta, que lhe desconcerta. Nem todos reagem da mesma forma diante dos problemas, mas,muitas vezes, mesmo agindo de forma semelhante, todavia cada um com a sua realidade, tendemos a ver no agir do outro maior reprovabilidade e traços criticáveis do que no nosso.
Muitas vezes queremos ou precisamos para nos sentir mais fortes atestar a inferioridade do outro. É uma forma vil de superar frustrações, por exemplo. Vil, muito vil, mas humana. Duvido ser humano neste mundo que numa ou outra situação não tenha superdimensionado os defeitos e fraquezas alheias por desprezo, de forma quase involuntária ou para se auto enaltecer, para se tranqüilizar em relação a alguma decisão, a algum problema.
O tempo passa e a vida ensina, sendo através de nossos próprios problemas, de nossas dificuldades pessoais, através de mea culpa, através da análise de nossa própria vileza, de nossa ira ou revolta com um ou outro motivo que passamos a compreender melhor o outro e a sua revolta, a sua ira e os seus atos vis, que outrora podemos ter criticado. Ou seja, paramos de julgar e analisar o outro na medida em que julgamos e analisamos a nós mesmos.
Ora, mas é errado sentir ódio, nutrir revolta. É errado ter mágoa, é errado renegar pessoas e parentes, é errado isso, é errado aquilo. Pode ser que seja, mas a única pessoa que era extremamente certa para nos dizer o que é certo ou errado (porque acima do erro) morreu crucificada (é o que nos conta a história). Ser humano não justifica ser demasiado errante, mas explica, porque perfeitos, porque ser "acima de qualquer suspeita" ou vileza ninguém é neste mundo.
Pode ser que uma pessoa não cometa estes erros, mas comete aqueles, comete outros. E a vida esta cheia deles: O pecado, o erro, rondam a vida humana, e ser humano que se preze sempre comete um. Os que não cometem e julgam quem os faz, estão, no exato momento em que apontam a falha alheia, errando, por se acharem melhores do que são, melhores do que o outro.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 07 de outubro de 2008.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A opinião de quem nos importa.

A opinião de quem nos importa.

Com quem você se importa na vida? Pode parecer uma pergunta tola, mas é a resposta dada a ela que define nosso bem estar nesta existência. Querer agradar a todos, dar ouvidos as opiniões alheias, se incomodar com as idéias que as demais pessoas possuem e o que falam da gente pode ser nosso maior erro,do contrário, quando ouvimos e nos importamos com quem merece.
Mas, afinal, quem merece que ouçamos suas opiniões e a idéia que faz de nós? Quem, por não possuir nenhuma espécie de interesse nos estima, nos valoriza e nos respeita. O homem também é o que os outros pensam dele. Não podemos fugir desta realidade, afinal tendemos a ser juizes benevolentes conosco, e algozes julgadores da vida alheia, porém, é inegável que existe um pouco de razão no que os outros pensam de nós e que, muitas vezes, olvidamos por orgulho.
A questão é que não podemos nos tornar escravos da opinião alheia, devemos, isto sim, escolher quem tem importância em nossa vida, quem realmente nos ama, se importa conosco para, assim, podermos lhes dar ouvidos e, quiçá, crescer um pouco mais ouvindo opiniões sinceras abstidas de inveja, recalques ou pretensões vãs.
Quanto mais madura é a pessoa menor será o círculo de pessoas com as quais ela realmente se importa e confia na vida.Ora, mas que idéia negativa? Não acho. A vida ensina, e demonstra que ser realista às vezes pode parecer ser negativista, mas não é. Quando jovens temos mil parceiros: Parceiros do clube, da academia, parceiros para sair em baladas have, parceiros para festas mais convencionais, para shopping, para jantas, "grupinhos aqui", "grupinhos acolá", um casinho amoroso em cada ponto da cidade. Amigos de verdade? Estes desde a infância são raros. Amor? Mais raro ainda. Quando imaturos nos importamos um pouco com a opinião de todos, queremos "fazer bonito" com todos os "parceiros".
Com o passar do tempo a gente se torna mais independente, até mesmo as formas de diversão vão sendo melhor selecionadas, mais ainda as parcerias e amizades que passam, então, a ser melhor distinguidas. A gente quer alguns amigos leais (às vezes temos apenas um), um amor pra chamar de nosso, com o tempo, filhos, uma família na qual não seremos mais membros e sim chefes, gestores responsáveis. E é assim que vamos nos importando mais com quem nos ama e com quem amamos. O resto? Se tornam detalhes que, via de regra, adoram criticar, tripudiar e viver como expectadores da vida alheia. Importância dada e merecida por eles? Zero.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 02 de outubro de 2008.

O amor e a conquista

O amor e a conquista

A vida é um desafio e quase todas as pessoas gostam de desafios, se não deles especificamente certo é que para todos maior é a satisfação quanto maior for a superação para te-lá. Todavia, na vida pessoal gostar de riscos, obstáculos, desafios, ter, enfim, o difícil e o imprevisível como apetecível, pode ser perigoso.
Conheço vários homens e mulheres que gostam do que é difícil. Até ai tudo bem, em especial num mundo em que conseguir companhia apenas para momentos de prazer é tão fácil. O problema é que se essa tendência for séria, a pessoa se esforça, conquista e logo acaba perdendo o amor da pessoa desejada, admita ou não, por sua própria culpa.
No amor todos se tornam óbvios: Quem ama dá carinho, quem ama cuida, quem ama se preocupa, quem ama estende a mão, quem ama zela, quem ama sente um pouco de ciúmes, quem ama, enfim, de uma forma ou outra (mas todas boas) demonstra o seu amor. Sim, e daí? Dai que meus amigos que gostam do "difícil", conquistam o amor de alguém e colocam tudo a perder, porque depois de conquistado e apaixonado, ninguém é difícil ou demasiado complicado, então eles passam a não dar a devida atenção àquele cujo coração lutaram para "amolecer".
Eis que, para a conquista se pode até preferir seres de restrito ou difícil acesso, mas o certo é que após ela, qualquer pessoa que ame precisa ser conquistada diariamente com gestos singelos, mas que, no mínimo, demonstrem carinho, afeto, amor. E é nesse quesito que meus amigos que gostam de conquistas difíceis se perdem e acabam sofrendo: Batalham, conquistam e depois perdem o interesse, justo quando o outro se apaixonou. E após a perda o que ocorre? Sofrem, vendo que erraram não valorizando quem lhes dava valor, quando lhes dava.
A maturidade ensina ao homem que o amor é o principal fator de descomplicação da vida. Casais que se amam tentam se entender, dialogar, se ajustar. Da mesma forma, a vida ensina que a gente deve gostar e valorizar quem nos gosta e estima, e que a maior conquista que podemos fazer é cativar diariamente o amor de uma só pessoa quando ela já esta simples e "fácil" por nos querer bem. A conquista frívola de conquistar o encanto de alguém estranho não é difícil, mas conquistar todos os dias alguém que já esta encantado, ou seja, manter uma conquista, é tarefa para pessoas maduras e bem resolvidas. É tarefa para poucos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 02 de outubro de 2008.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

As escolhas do homem

As escolhas do homem

Quais as diferenças básicas entre uma pessoa madura e uma imatura? As escolhas. Aliás, se conhece a pessoa pelas escolhas que ela faz, pessoas fúteis escolhem a futilidade, pessoas de coragem escolhem os desafios, pessoas covardes escolhem o que é cômodo, pessoas banais escolhem ter, pessoas sábias escolhem ser, pessoas intensas escolhem sentir, pessoas superficiais escolhem gozar.
A vida é, sim, feita de escolhas e as pessoas, os astros nesse imenso teatro, podem ser conhecidas pelas opções que fazem. A gente escolhe com quem se relaciona, a gente escolhe os conselhos que desejamos ouvir bem como o conselheiro que queremos, a gente escolhe o melhor caminho para ser feliz, o melhor travesseiro para abrigar nossos sonhos e a nossa consciência. Somos nós quem escolhemos entre o arrependimento e o aprendizado, entre a reclamação e a perseverança, entre o amigo falso e o sincero, entre as companhias banais e o amor verdadeiro.
O homem só não escolhe o momento em que nasce, nem o momento em que sua vida findará, de resto, entre seu nascimento e morte, tudo são escolhas e, querendo ou não, toda a responsabilidade pelos resultados delas advindos é sua, de quem a faz, de quem, podendo, pôde fazer escolhas diferentes. Ninguém é escravo de ninguém, apenas os fracos se entregam para algum vício ou hábito, e pessoas fracas existem, não vivem, andam como mortos pelo mundo sem perceber sua condição.
Se é fato que o homem é as escolhas que faz, é sempre bom analisarmos a situação de quem desejamos inserir em nossas vidas e coração. É analisando as suas escolhas que percebemos o caráter, a essência por trás da aparência, o coração por trás das palavras do individuo.
Nada muito complicado. A vida é simples, o lamentável é que o ser humano adora complica-lá tentando deixa-lá mais parecida com ele, afinal, infelizmente a maioria é complicada e descontente com a vida, devido as escolhas erradas que fez, das quais não conseguiu fugir das conseqüências. Existem estradas na vida que não tem retorno de fácil acesso, uma delas é a da banalidade.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 30 de setembro de 2008.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O molho desandado e a persistência

O molho desandado e a persistência

Poucas vezes fazendo meu molho de maionese aconteceu dele "desandar". Para quem desconhece essa culinária esse molho desanda quando não endurece, colocamos ovos, azeite e, batendo no liquidificador ele demora para endurecer, ficando meio "aguado". Na esperança dele ficar bom vamos acrescentando cada vez mais azeite e ele continua mole, feio. Após constatar que ele desandou realmente percebemos que colocamos mais de 6 ovos e um litro de azeite fora investindo no molho que desde da primeira batida estava fadado a não dar certo.
Via de regra a maionese quando fica boa começa a endurecer com um ovo apenas, nas primeiras colocadas de azeite e batidas. No entanto, colocamos mais ovos e mais azeite na tentativa de fazer o molho ficar bom. Domingo aconteceu isso comigo: Estava fazendo o molho, coloquei quase um litro de azeite para, ao final, ter que colocar fora uma medida inteira de liquidificador fora.
Na vida da gente às vezes tentamos investir no que esta fadado a não dar certo. O problema é que desperdiçar ovos, azeite e alguns reais não macula nosso coração, o problema é quando investimos esperança, sentimentos, na crença de que algo possa melhorar, mudar de rumo. É nobre persistir, é nobre pensar que o que não foi bom pode melhorar. Até homicidas mudam de vida quando querem, o problema é que nem sempre as pessoas querem de verdade mudar alguma coisa. E não existe mudança sem vontade, sem esforço, sem abdicação.
Os ovos, o azeite e o liquidificar são coisas, eles não pensam, somos nós quem pensamos e achamos que podemos fazer o molho "desandado" ficar bom, somos nós e os ingredientes, dos quais apenas nós pensamos. Numa relação entre pessoas ambas têm vontade, e muitas vezes apenas uma possui força de vontade para fazer algo dar certo, e é ai que tudo desanda e vem a vida dizendo: Não adianta investir sozinho no que foi fadado ao insucesso.
Mas, insistimos porque não nos conformamos, porque achamos que podemos fazer algo errado se tornar direito, achamos que podemos fazer algo torto ficar reto. Mas não podemos, e, como quem insiste no molho de maionese desandado, estamos investindo nosso anseio no que, visivelmente, não tem conserto. Todavia, é errando que aprendemos, e de cada mancada surge um aprendizado, não necessariamente uma ruguinha a mais na face, mas, certamente e para quem deseja, um pouco de maturidade a mais.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 29 de setembro de 2008.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sociedade Afetiva

Sociedade afetiva

Toda sociedade precisa do empenho de seus sócios. Empenho na mesma medida, embora cada qual com suas habilidades especificas. Nenhuma sociedade pode dar certo sem que a discórdia passe a reinar quando um se sente prejudicado pela leniência, pela incompetência ou falta de dedicação dos demais sócios. O casamento é uma sociedade conjugal, a união estável uma sociedade conjugal de fato, embora sem testemunhas e demais detalhes burocráticos.
Na verdade desde o namoro todo relacionamento sério se torna uma sociedade, onde as quotas não são aferíveis pecuniariamente, e o investimento básico é a doação do amor, da paciência e, enfim , de afeto. Como em toda sociedade, na medida em que as forças são despendidas de forma igualitária maior será a possibilidade de sucesso. Por outro lado, relação em que apenas um se doa e se empenha para fazer dar certo, a falência é o rumo.
É complicado se relacionar? É complicado ser casado? Não, não é. Já fui e afirmo que não é nada complicado, o problema é a falta de boa vontade mútua porque é preciso doação de ambos. Nenhuma relação dá certo quando uma apenas se doa e se empenha e o outro se resigna a cruzar os braços, lamentar e dizer que é "difícil conviver". Nada da certo quando alguém tenta dificultar e complicar, fugindo do diálogo, por exemplo, e, assim, não se empenhando para fazer a relação evoluir com a superação dos percalços, que são inerentes a um relacionamento entre pessoas diferentes.
Doação do que, na verdade? De alma, de coração. Quem ama tenta entender o outro, se coloca em seu lugar. Quem ama não diz ou faz o que não gostaria de ouvir ou de receber, em forma de atitude, do outro. É ser indulgente, é mesmo após um dia ruim ouvir o outro e lhe dar a mão. Apenas isso, doar afeto e carinho. Cuidar e deixar ser cuidado, sem orgulho ou egoísmo (este último é o inimigo mor do amor).
Cada um com a sua opinião, mas pessoas simples não complicam a vida. Quando existe amor não há porque complicar a situação. O amor é o maior fator de descomplicação do mundo, se a relação entornou é porque faltou esse fator, faltou boa vontade, faltou doação. Quem ama se doa, ouve, fala, esclarece, respeita, descomplica, busca simplificar. Lógico, quem ama e quem tem o mínimo de equilíbrio emocional, de inteligência emocional, enfim.
Se para um negócio entre sócios dar certo é preciso parceria e inteligência, para um casamento dar certo da mesma forma, além da lealdade, é preciso inteligência, vontade, doação, empenho. Não é à toa que a maioria dos casamentos não dão certo, via de regra um se acomoda, reclama e o outro se dedica, e é este quem tende a cansar e desistir decretando a falência do que poderia ter dado certo.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de setembro de 2008

Uma nobre desistência

Uma nobre desistência

Li hoje uma frase de autoria atribuída à Bob Marley e me encantei: "Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer". Essa frase fala muito para quem, por uma razão ou outra teve que olvidar do amor e de sua força, para se auto-preservar, para salvar o próprio coração.
O ser humano pensa que o amor cura tudo, supera tudo, mas ele não cura, ele não supera. As pessoas pensam que quem ama nunca desiste, não cansa, mas elas estão enganadas porque todo amor que podemos sentir com sinceridade por alguém, é fruto do primeiro amor que podemos ter- o por nós mesmos, e é este que, mediante o sofrimento, um dia ou outro, se ergue e nos faz dizer: Desisto.
Nem todas as pessoas amam ou já amaram verdadeiramente alguém na vida, poucos são os que, por se amarem, tendo o espírito humilde e a alma limpa, conseguem entregar seus sentimentos de verdade numa relação. Felizes os que já amaram ou amam desta forma, porque o amor trás paz, trás felicidade e harmonia para o espírito de quem o sente vibrar.
Todavia, se é verdade que nem todos amaram verdadeiramente na vida também é fato que nem todos precisaram desistir, por brio, de lutar por um relacionamento, por um amor que poderia ter sido e não foi: Poderia ter sido harmonioso, poderia ter sido legal, poderia ter dado certo, e por um motivo qualquer, um erro, uma distração típica dos que não percebem o sentimento alheio, uma falta qualquer, inclusive de reciprocidade, não deu.
Não desejo à ninguém a desistência de um amor por não suportar mais alguma dor, mas admiro os que conseguem desistir do que outrora era desejado, sonhado, estimado. A dor ensina, principalmente os que não aprenderam pelo amor, que, por sua vez, fortalece aquele que o sentiu e precisou desistir dele para salvar a si mesmo. Na vida afetiva recuar é uma desistência nobre, e ninguém desiste em vão.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 24 de setembro de 2008.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A dor do arrependido

A dor do arrependido

Quem sofre mais com uma briga, com um rompimento, término de relação ou desentendimento entre amigos? Via de regra, a parte que se arrepende. Quem se arrepende de algo sofre em dobro, pelo rompimento e o sofrimento a ele inerente e pela culpa por ter errado.
Certamente o arrependimento causa as piores dores, mas com o tempo é assimilado e se torna aprendizado. Uma vez sofrido, uma vez curtido a dor pelos erro ou mancada cometida o homem de espírito humilde, que capta o aprendizado obtido com a dor, não se torna mais o mesmo: Errar nos mesmos pontos ele não errará mais, amadurece, cresce, enfim, se torna uma pessoa melhor.
Mas, será tarde demais para remediar o erro? Não se sabe, o outro sempre pode perdoar, e perdoa na medida em que ama, claro, dependendo das mancadas, mas não existe amor de verdade sem perdão, sem que algo seja ultrapassado em prol de um bem maior, com exceção de alguns erros praticamente imperdoáveis dentro dos conceitos de cada um, é claro.
Não houve perdão, o que fazer? Nada, o lucro do aprendizado sempre é melhor e a certeza de que o perdão não aconteceu é um incentivo para se erguer a cabeça e seguir adiante, sem cometer os mesmos equívocos. Erros sempre acontecerão, a questão é o homem não cometer os mesmos pelos quais já se arrependeu na vida.
Ninguém sofre em vão e, via de regra, após um rompimento menos padece quem mais investiu nele, porque sabe que não foi por falta da sua dedicação que a relação ruiu, sofre, mas não se arrepende de não ter feito algo, ou de ter sido relapso, de não ter cuidado do que precisava cuidar. A dor é menor, é menos incomodativa, menos aguda.
O arrependimento e a culpa tornam piores a dor de quem, por uma situação infeliz, os sente, todavia, se arrepender é algo saudável, cultivar o arrependimento sem nada fazer é atitude doentia: É preciso aprender, reconhecer o erro, crescer com ele, tentar o necessário, e se resignar com a situação quando não existe no outro a nobreza do perdão.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 18 de setembro de 2008.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O prazer da conquista

O prazer da conquista

Com exceção do prazer sexual todas as outras realizações do homem são maiores na medida em que maior foi o esforço despendido para sua realização. O homem não tem alegria em simplesmente ter alguma coisa, o contentamento, e consequentemente, a sua felicidade, será maior na medida em que conquistou aquilo por si mesmo.
Por isso que muitos dizem que dinheiro não trás felicidade. Dinheiro, em si, compra muitas coisas, compra companhia, viagens, parceria, luxo, até mesmo beleza, mas não compra realização pessoal, auto-estima e orgulho de ser quem se é. Feliz, não é o homem que ganhou dinheiro sem sentir o gosto da vitória de seus empreendimentos, feliz é aquele que tem dinheiro porque batalhou para te-lo.
O melhor sabor é o da trajetória, mais importante do que o destino é o rumo que se toma até ele. Existem lembranças indeléveis na alma do homem que buscou e realizou o que desejava, de forma que maior será o seu contentamento por saber tudo o que passou e o que enfrentou para ter o que conquistou.
O homem cujos bens ganhou sem precisar de esforço, via de regra não é feliz, por mais que tenha "coisas" que muitos invejam. Ele não teve trajetória para chegar até as benesses que possui. A felicidade do homem se liga muito ao orgulho que ele tem do que fez para ter o que adquiriu. Não àquele orgulho negativo, próprio dos soberbos que tentam convencer os outros que são bem resolvidos quando, na verdade, não são. Me refiro ao orgulho de ser contente consigo mesmo, orgulho do que fez, de quem foi e é na vida.
Eis que o homem não é feliz pelas posses que tem, mas sim pelo orgulho que possui por ter chegado até elas, e este, via de regra, só possui quem se esforçou para conquistar alguma coisa, não por menos existem tantos ricos infelizes, frustrados, deprimidos, alcoólatras, drogados. Falta-lhes o contentamento por terem conquistado algo, por terem lutado, escolhido o caminho e chegado até seus objetivos, o que não tem preço e é demonstrado através da alegria de viver e serenidade de espírito, atributos dos vitoriosos na vida.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 17 de setembro de 2008.

A vida ilusória

A vida ilusória

Na era dos amores descartáveis, do sexo fácil, da disponibilização de tudo a qualquer instante para quem se disponha a pagar, o amor vem perdendo valor. As ilusões são cada vez mais valorizadas: Muitas mulheres lindas, homens charmosos, galanteios variados, festas ocorrendo quase todo dia da semana, boas bebidas, teor alcoólico alto, um antidepressivo aqui, um ansiolítico lá, qualquer remedinho para dormir e fugir momentaneamente da vida.
De dia o trabalho, de noite a festa, a companhia com a qual não se pode dormir (tampouco sonhar junto), e logo após alguma cápsula para o sono chegar mais depressa (caso a bebida em excesso não ajude), para impedir que os pensamentos venham atordoar a consciência.
Na era do vale tudo por bons momentos o amor esta sendo malbaratado, legado à categoria de "devaneio adolescente". As pessoas afirmam que ser livre e poder tudo a qualquer hora é uma dádiva, um êxtase.
Não se encontram mais pessoas racionais, mas um pouco românticas, homens desejando uma mulher só, mulheres querendo compromisso sério, sexo diário com uma única pessoa. Todos querem todos, ninguém é de ninguém, todos são públicos, são do mundo. Na verdade, o homem deixou de ser seu mesmo para se transformar num fantoche de suas próprias ilusões, e ainda se gaba por isso.
Com dinheiro ou beleza conquista companhia, mas não cativa corações nem amor, não cativa o amor de quem possa não apenas lhe dar o prazer da cama, mas o prazer do companheirismo, da estima, do poder ter em quem confiar, da parceria, da admiração pela sua alma e mente, e não apenas pelo seu status, cartão de crédito, belo corpo, boca ou par de olhos.
Muita coisa me cativa e já me conquistou nesta vida. Todavia, a cada dia que passa percebo que melhor do que sair pelo mundo todas as noites atraindo olhares de vários homens, é poder acordar com o olhar apaixonado de um só, dormir pegando na mão de uma única pessoa e poder contar com ela para situações muito além dos magníficos prazeres físicos.
Não sou imune à estas ilusões, mas elas não criam raízes em minha vida. Tão rápido quanto duram, elas morrem, fazendo nascer o meu desprezo pela fugacidade com que a vida pode me possibilitar viver. A grande maioria das pessoas que conheço, porém vivem iludidas na vida. Acham que serão eternas, que o dinheiro que cativa companhia não terminará,e que as companhias adquiras são sinceras, acham que as festas e sua alegria momentânea tem mais relevância do que bons momentos com amigos de verdade e com um amor sincero.
Romântica? Pode ser. Eu acredito no amor e não vejo como viver muito tempo sem um romance sincero e respeitoso na vida. A cada dia que passa e que vivo usufruindo um pouco do mundo das ilusões eu valorizo mais aquilo que o dinheiro, a elegância física e a beleza não compram: Sentimentos, afeto, preocupação e amor sinceros.
Festa, bebedeira, falsas amizades? Isso um dia cansa, assim como brincar de casinha me enjoava quando eu era criança. Tudo o que é de "faz de conta" cria tédio. Felizes são os que, vivendo com os pés no chão têm alguém para amar e confiar, isso sim tem valor nesta vida, o lamentável é que a maioria troque a possibilidade de felicidade sincera, pelo êxtase de alegrias frívolas e momentâneas, da pseudosolidão regada à ilusões constantes e parcerias banais.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 16 de setembro de 2008.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Acima das críticas dos hipócritas.

Acima das críticas dos hipócritas.

Na vida ou a gente se coloca acima, desprezando, ou, ao lado, se misturando, ou, abaixo, cedendo e dando forças à maldade humana. Ser livre de espírito, ter liberdade suficiente para rir, chorar, errar, se reerguer, se divertir, se entregar a momentos inusitados é algo peculiar, nem todos possuem, mas, via de regra, incomoda a maioria.
A maioria das pessoas é e sempre será hipócrita. Não teme o erro, o despudor, o vexame, não tem receio do hediondo desde que seja tácito, desde que ninguém saiba. A maioria é imoral, mas se coloca em posição de santo em altar.O homem não teme trair, não teme ludibriar amigos, inventar algo sobre o outro, ele teme, apenas que determinada, ou determinadas pessoas, saibam. É a "vergonha sem-vergonha", a vergonha dos hipócritas que domina o mundo adulto.
Todos um dia na vida cometem equívocos.Todos um dia fazem algo de que possam não se orgulhar- sim, porque se arrepender é uma questão de momento, erros a gente deve assimilar, aprender e seguir adiante, - não repeti-los é que é uma questão de nobreza de caráter.
Acima das fofocas, acima das críticas, das palavras de julgamento dos pseudoperfeitos deve estar o homem de alma livre e nobre. Sempre existirão mais pessoas para malbaratar as condutas alheias, para se erigir contra o que eles enchem a boca para dizer que são as "falhas" do outro, porque assim as suas maldades, as suas imoralidades, a sua estupidez, as suas vilezas ficam escondidas em sua consciência.
Eu tenho asco das pessoas que não possuem liberdade para gozarem suas vidas como desejam, que tem pudores e medos de assumirem seus equivocos e erros, sabendo, apenas apontar os alheios. A falsidade junto com a hipocrisia torna as pessoas perigosas, mas, certamente, abaixo dos que sabem bem viver ignorando suas línguas felinas, abaixo, pois dos homens de alma livre.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 16 de setembro de 2008.

domingo, 7 de setembro de 2008

Os que eram felizes sem saber.

Os que eram felizes sem saber.

Outro dia minha mãe passou comigo por uma localidade onde ela lecionou há anos atrás, me contou sobre tal época e afirmou várias vezes que ela "era feliz e não sabia". Tal afirmação me dá agonia, me entristece, me faz sentir dó.
Sou o tipo de pessoa que é feliz e sabe que é, sempre gozei meus momentos com intensidade sendo alegre, sentindo a felicidade, gozando e valorizando os momentos que a vida me proporcionou com as companhias que escolhi, sem desejar perde-los, e sem pensar que sem eles eu os valorizaria. Sou feliz e sei disso no hoje como sabia que o era no ontem.
Mas, dizem, que as pessoas só valorizam quando perdem algo, quando perdem alguém, quando perdem um amor, uma amizade, quando deixam o tempo passar sem sentir seus momentos, sem aproveitar com alegria o bom da vida. O tempo passou, a felicidade sentida e não valorizada, portanto, gera a constatação triste da minha mãe.
Sinto pelas pessoas que não valorizam o bom da vida, o amor, o afeto, a atenção, a mão quente, o toque doce, a voz suave, a compreensão, as amizades, a cumplicidade, a saúde, a força, a fé, o conforto e precisam perder algo para aprender a dar valor.
Essas pessoas são masoquistas sem saber, afinal tudo pode ser tão fácil e simples na vida se usarem sua inteligência e boa vontade para serem felizes no hoje e, assim, vivendo com mente e corpo no presente sentirão sua energia sem pensar que amanha será melhor ou que o passado não agradou. Quem pensa no ontem e sonha demais com o amanha desperdiça o hoje e os sentimentos que pode viver no único momento real que têm: O presente.
Gostaria que ninguém mais nesse mundo afirmasse que era feliz e não sabia. Eu lamento por quem constata isso, porque o faz tarde demais. Sou a favor de se viver com intensidade o presente, sem receios, falsos medos, travas, sem pensar que a vida é eterna, que o amor do outro nunca terminará, que o bem estar será vitalício e poderá ser reconhecido mais tarde. A vida é uma caixa de surpresas, e o momento para ser feliz- com consciência da própria felicidade- é o hoje, amanha pode ser tarde demais para tudo, inclusive para viver.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 07 de setembro de 2008.

Dura na queda

Dura na queda

"- Claudinha, o que você sentiu fazendo isso?
- Nada.
- Nossa! Você é dura na queda!"
Transcrevo trecho de um diálogo onde ouvi o melhor elogio dos últimos anos na minha vida. Uma verdade a meu respeito, mas ao ouvi-lá parei para pensar nas minhas virtudes, nos meus defeitos, bem como no de todas as pessoas que conheço e pensei que ser duro, na queda, é uma grande virtude. A gente tem que ser maleável na vida, sensível no sentimento e duro nos baques.
Tem muita gente neste mundo que não tem essa maleabilidade: Que é duro nos sentimentos, frágil nas quedas, e insensíveis na própria existência. Nas quedas, quem é fraco não aprende. Sim, porque até nas frustrações, nas dificuldades a dureza mantém a alma pacífica para captar o aprendizado, usar a razão a favor de nossas crenças nos impedindo de mudar de meta ou plano. Afinal, diante de uma queda temos que reconstruir planos, buscar outras estradas, ficar no chão lastimando é típico dos fracos.
Pelas quedas, pelas frustrações a gente passa, infeliz é quem passa por elas fraquejando, ou, enfim, quem passa por elas sem delas nada aferir em matéria de aprendizado. Realmente eu sou dura na queda, posso cair de onde for que não me estraçalho em pedaços. Pelo contrário, me fortaleço e fico mais convicta do que quero, na verdade a dureza é um sinal de que já se tem convicção do que se deseja, ou, ao menos, do que não se deseja mais.
A gente cai de ideais, a gente cai de sonhos, a gente cai ao desamar alguém e mandar para o ralo do esquecimento sentimentos e sonhos que nutrimos, a gente cai ao deixar uma relação, uma profissão, um trabalho, a gente cai ao se decepcionar com um amigo, com um parente, a gente cai por qualquer forma de traição ou ofensa. Cai, do sentimento para um pior, cai do sonho para outro, cai de um sentimento para outro, mas, jamais devemos cair para o nada, para o vazio, para a depressão. Cair, se frustrar, enfim?Sim, claro, é humano, mas com altivez, com brio, com dureza, fazendo do azedo dos limões uma adocicada limonada, ou, para quem não pretende dirigir, uma saborosa caipirinha.
Fazer das dificuldades aprendizado, dos inconvenientes maturidade e força, decair de sonhos com dureza porque já erigindo novas metas e anseios é uma virtude que gosto de ter. Na verdade ser intensa em tudo é uma característica minha, só não sou intensa na dor. Amo intensamente, vivo intensamente, sou alegre, contente e feliz com intensidade, sou intensa na bondade, mas também consigo ser melhor ainda na maldade, na dureza, na indiferença, ao menos, obviamente, para quem julgo merece-lá. Perfeita? Não, nenhum pouco. Maldosa? Sim, às vezes. Justa? Sempre, aos bons minha bondade, minha pureza, aos maus, no mínimo, minha indiferença, meu desprezo.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 04 de setembro de 2008.

sábado, 6 de setembro de 2008

Época de pensar

Época de pensar.

Qual o critério das pessoas para escolherem seus candidatos? Depende do eleitor, mas confesso que muita coisa me assusta quanto o assunto é política no Brasil: Tem gente que escolhe o candidato pensando nos benefícios pessoais que irá obter, "não importa se alguns serão desamparados, voto nele porque pode me ajudar", vigora uma forma implícita de compra de votos, graças a imoralidade de alguns eleitores.
E tem aqueles e aquelas que olham para o candidato e votam no mais bonitinho, ou na mais bonitinha. Este é o votos dos fúteis, dos completos imbecis. Os que votam visando interesses pessoais são os "metidos a espertos", os que votam pela beleza do candidato assinam atestado de que são mentecaptos, porque, certamente não irão "faturar" o corpo do político eleito.
Cada povo tem o governo que merece, e não é por menos que nossa Câmara de Vereadores, Prefeitura, Assembléia Legislativa, Senado, enfim, são o que são, onde, muitas vezes assistir as suas sessões televisionadas é melhor do que assistir a um filme de comédia para um humorado cidadão, um filme de terror para os sarcásticos ou uma novela dramática para os mais desanimados (pouco aconselhável, vai que o suicídio lhe passe pela cabeça e a coragem chegue às mãos?).
Talvez, quem escolhe candidato pela beleza esteja pensando em vê-lo bem na televisão. Ora, eis uma possibilidade (!). Todas as citadas porém, são lamentáveis e esdrúxulas. Político a gente tem que escolher pelo caráter, pela vontade de fazer o bem em prol da coletividade, pela fama de honesto (porque certeza é um tanto difícil), a gente tem que escolher bem, com afinco, porque depois não adianta reclamar. É impossível tirar uma puta da zona e contar com sua eterna fidelidade e respeito, com políticos a mesma coisa.
As pessoas não buscam se interar sobre fatos óbvios e é por isso que nosso quadro político fica parecendo uma tragédia, e, seguidamente os eleitores são considerados, por seus eleitos, um bando de néscios. Votou como tolo, agora agüenta cidadão. Esta é a época de pensar, afinal perder a esperança não adianta.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 06 de setembro de 2008.

Amor bandido

Amor bandido

Todo mundo já teve ou então vai ter um amor bandido na vida. Ah, você não? Namora há 10 anos, esta casado há 20 e não vai ter? Tudo bem, cada um sabe de si, mas amores bandidos ensinam muito. Mas, o que é amor bandido? É o amor das ex-namoradas do Fernandinho Beira-Mar? Pode ser, mas amor bandido não é necessariamente o amor por um marginal.
É aquele amor cheio dos "poréns", é aquele que faz bem e que faz mal ao mesmo tempo, que dá calor e logo rouba a paz, pode ser aquele entre pessoas de gênios diferentes, por pessoa complicada, que não se ajuda a ser feliz e faz cena a todo instante, é aquele que as pessoas terminam e voltam como se fossem viciadas uma na outra, aquele cheio de ciúme, insegurança e brigas tolas.
O amor bandido é amor de letra de música sertaneja (os que a desprezam que me desculpem, mas no fundo em algum lugar ou situação, todos já ouviram tal gênero), começa com o ânimo inocente de "É o amor", se torna "Amor Selvagem", "Entre tapas e beijos" chega a ser "Cara de Pau", e não termina cedo, afinal "Cada Volta é um Recomeço". Mas um dia alguém diz "Pare", e sai fora.
É aquele amor de vício, de pele e não de razão, de ponderação, e calmaria. É o amor de fogo, de paixão, de ânimo, que o tempo e o convívio, podem apagar ou torná-lo menos bandido, na mais remota das possibilidades.
As pessoas sabem que o amor bandido é difícil de dar certo, pelas diferenças, pela excessiva complicação da personalidade do outro, que, muitas vezes, pode estar em constante crise existencial, depressão ou algo assemelhado. Todo amor bandido impõe desafios e quem o encara e o faz por gostar do perigo excitante a ele inerente, perigo este que o o faz achar que pode fazer o sertão virar mar e o mar virar sertão.
Viver um amor bandido é uma burrada, casar com o amor bandido já é uma mancada das grandes. Mas se aprende, ninguém vive para sempre com um amor bandido. O amor de verdade se sustenta na similitude, opostos se atraem mas não permanecem, esta é a verdade. Se um amor é bandido porque o amado é problemático, complicado ou down, e o amante é alto astral e simples, um dia este desanima, do contrário, se amado e amante são complicados e "deprimidos", há relação entre semelhantes.
Amor bom pra se viver tem que ser calmo e paciente, tem que ser por pessoa com personalidade semelhante a nossa. Pessoa alto astral, descomplicada, que quer ter uma família, união legal, parceria forte, cama quente, carinho, respeito, não fica com amor bandido, termina dando um tiro na sua raiz e se desvencilhando, indo buscar um amor paciente, um amor honesto no sentir e no viver, um amor em que nenhum escora nem precisa de escoro, em que as mãos se unem e os amantes andam lado a lado, confiando, compreendendo e respeitando um ao outro.
Mas, é bom um amor bandido? Tudo o que a gente mantém por algum tempo é bom enquanto dura. A questão é a maturidade. Pessoas maduras superam amores bandidos, pessoas imaturas precisam sofrer o dobro para aprender, mas, um dia aprendem, ou não, (como diriam nossos "poetas compositores" baianos). Todavia, existe uma bela coincidência: depois de amores bandidos, com os pecados purgados, as boas pessoas terminam encontrando um belo amor honesto.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 06 de setembro de 2008.