Sobre o verdadeiro pecado!

Sobre o verdadeiro pecado!
"O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida." Carl Sagan

terça-feira, 26 de junho de 2007

Espaço de esperança

Espaço de esperança


Vejo que minha vida reside num pequeno espaço entre a realidade bem quista ou desprezada, e entre o que eu imagino, entre o que eu gostaria que ela fosse. Talvez o espaço que meu mundo ocupe entre essas duas existências não seja tão pequeno, eu é que, às vezes, me sinto esmagada pela realidade das circunstâncias, pela "vida como ela é" e as pessoas "como elas são".
É inevitável olhar para o mundo e se sentir um tanto perdido de vez enquanto: Onde esta a harmonia, a sinceridade?Onde foi parar a lealdade, a fidelidade e o respeito mútuo nos relacionamentos amorosos? Para onde foi a probidade dos políticos, quando foi mesmo que a Justiça deu um tapa na cara do Judiciário e fugiu com uma mala de dinheiro para a Suíça?
Em que estrada nas curvas dessa vida o real sentido do amor cedeu lugar à ode a fugacidade, onde ninguém valoriza ninguém ao menos que seja por ele beneficiado? Quando foi que a educação deu lugar à grosseria? Porque a auto-estima saiu com seu carro simplório (mas pago) e deu sua vaga no estacionamento ao "convencimento barato" que ostenta mais valores e auto-valor do que possui?
Todos temos dias em que padecemos do que chamo de "Complexo de Alice" (Cadê as maravilhas neste mundo?), mas ele passa, ou melhor, ele dá uma dormidinha dentro de nós porque se deixarmos ele acordado diariamente nos tornaremos pessoas chatas. Quem reclama demais é chato, quem questiona demais, igualmente. E como, no fundo, abominamos a solidão recolhemos nosso complexo e fazemos ele nanar, se ele não quiser damos um calmantezinho para o coitado repousar em paz na nossa alma inquieta.
Todavia, não tenho medo de ser chata comigo mesma. Não me conformo e nunca me conformarei com muitas coisas. Prefiro gente que reclama do que gente que se conforma, cruza os braços e vai ver novela. Portanto, apesar de não ser a Alice eu cultivo em meu coração um espaço. Parece nome de "nova igreja" (existem tantas hoje em dia, o que comprova a carência humana de algo supra-material, sobre-humano, porque essa vida de gente é muito "defeituosa"), mas não é, este lugarzinho se chama espaço da esperança.
Nele eu guardo a esperança de que, ao menos em minha vida, o que eu puder farei diferente, viverei de forma diferente. Farei o que acho correto, viverei como acho justo. Sem fazer aos outros o que não desejo para mim. Uma vida baseada na sinceridade, na honestidade, na lealdade e na fidelidade. Se o amor disse "tchau", se a paixão, ou o tesão foram embora, é melhor findar a relação.
Sempre: melhor findar do que trair. Não me conformo com a traição em aspecto algum, com a forma "natural" com que as pessoas falam dela, por exemplo, como se o outro não fosse nada, como se não fosse sentir, se magoar e se ferir. Este é apenas um exemplo. Trago no peito a fé no amor, embora a descrença total no casamento como forma de união e caminho para o "pra sempre", que, sempre acaba.
Ou não?Nos espaço de minha esperança o para sempre não finda, mas também não precisa de assinatura, testemunhas, juiz de paz e padre para atestar nada. O amor é vivido cada dia como se fosse o último sem que se precise "oficializar" nada. Este "ofício" gera uma espécie de "segurança negativa" na maioria das pessoas, que, a partir dele "mudam" como se tivessem adquirido o outro (para sempre, diga-se). E isso é uma praga na plantação de um amor que se deseja, dure para sempre.
Enfim, ainda acho que na minha vida o que depender de mim será feito de forma diversa. Talvez eu ainda tenha a inocência de que posso fazer diferente ou a prepotência de que poderei estar imune há algumas mazelas. Talvez, mas eu acho que ainda mantenho um certo romantismo calejado em meu coração. Para todos os efeitos, sobra fé no espaço de minha esperança, que reside num cantinho da minha alma.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 26 de junho de 2007.

Programa televisivo chinelo

Programa televisivo chinelo

Não acho que a vida deva ser levada demasiadamente "a sério", acho que rir, fazer piada dos próprios infortúnios tem a sua utilidade, a sua graça. Quem não brinca, não se descontrai, não relaxa e não fala umas asneiras de vez enquanto esta fadado a adoecer. Brincar, tentar manter o humor apesar das intempéries diárias é um ato de inteligência e coragem (esta, tendo em vista a realidade em que vivemos) que vale a pena ter.
Todavia, acho que quando se trata de assuntos importantes e que requerem seriedade no trato fazer piadas, ou, simplesmente comentários inúteis é de extremo mal gosto. Exemplo disso foi a enquete feita pelo programa Fantástico sobre a conveniência ou não do uso de chinelos após ter noticiado o cancelamento de uma audiência pelo juiz da 3ª Vara do Trabalho de Cascavel no último dia 13 porque o Reclamante estava assim calçado.
Sempre vale o brocardo "cada caso é um caso". Logicamente que é deselegante uma pessoa abonada entrar calçando chinelos em um baile da alta classe, por exemplo. Bem ou mal, existem regras de etiqueta que devem ser observadas, em especial por aqueles cujo status ou vontade de te-lo os deixam à mercê das convenções sociais.
É muito diferente o caso do cidadão de Cascavel dos demonstrados no programa mencionado. A discussão, a enquete em si, se mostrou horrenda, de extremo mal gosto e tola. O caso ocorrido no Paraná demonstra o cúmulo da prepotência de um juiz cuja arrogância e ignorância de espírito o levaram à beira da bestialidade psíquica fazendo com que agisse de forma a ofender aos direitos fundamentais do cidadão e a classe de seus colegas.
Na verdade o agir do juiz federal paranaense é lastimável, e a enquete do Fantástico também. Tudo na vida deve ser analisado dentro da realidade em que ocorre, dentro das circunstâncias reais, portanto. Uma pessoa humilde, simples e sem condições financeiras não pode ter seu direito ao acesso à Justiça cerceado pelos caprichos de um juiz insano que, aparentemente, agiu graças a embriagues causada por sua própria arrogância.
Um caso sério jamais poderia render comentários e correlações tão estúpidas apenas para preencher tempo num programa dominical cuja qualidade decai constantemente. A população brasileira mais culta se ofende (ou deveria se ofender) com tais menções e as pessoas com menos grau de instrução deveriam sentir-se mal porque, aparentemente, estão sendo feitas de boba. Usando o termo popular o Fantástico esta um chinelo de programa: ruim, sem graça, de quinta categoria.
Cada caso é um caso, e, certamente o caso dos programas dominicais, desde os mais divertidos até o que deveria ser mais coerente está sério. Muito sério de tanto faltar seriedade, lógica, inteligência e coerência nas suas realizações. Espero, porém que não seja adequado dizer que "cada povo tem o programa televisivo que merece". Me sinto ofendida em pensar nisso, mas será que não é a verdade?

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 25 de junho de 2007.

Os relacionamentos e as massinhas de modelar

Os relacionamentos e as massinhas de modelar

Os relacionamentos humanos não dependem de encaixe, pelo contrário, dependem da capacidade humana de adaptação, de "modelagem", deve o homem ser como as massinhas de modelar que as crianças usam e não como peças de um quebra-cabeças que fazem (ou melhor, esperam) uma junção perfeita, ou como aqueles joguinhos em que as pecinhas se encaixam perfeitamente para formar determinada imagem.
Quem espera encontrar o homem ou a mulher perfeitos, cujo convívio será sempre harmônico, cheio de humor e alegrias, sem inconveniente algum, sem discordâncias, sem mal entendidos, sem nada de "imperfeito" espera algo que jamais poderá ocorrer. Não existem seres "feitos um para o outro", existem pessoas com personalidades, gênios, formas de pensar e de ver o mundo semelhantes, mas jamais iguais em tudo. Se assim fosse o convívio humano seria mais entediante do que domingo chuvoso na praia, mais insosso do que sopa de hospital feita para hipertenso.
Todavia, muito embora existentes as afinidades o "se relacionar" exige a capacidade de se modelar, de ser complacente, de ceder muitas vezes, de se "adaptar" e entender a si mesmo e ao outro porque cada pessoa tem uma história, uma criação e, lá no fundo, uma maneira pessoal de analisar a vida. Não existem iguais.
O segredo das boas relações esta no uso da maturidade e da inteligência, bem como na capacidade de interação, de diálogo. Um homem maduro é paciente, compreensivo, ciente do que deseja, mas convicto que, nem ele, nem aquele com qual convive é perfeito, muito menos que ambos sejam "perfeitos um para o outro".
Enfim, se são as mãos das crianças que moldam figuras com a massinha é a maturidade e o diálogo que fazem com que as pessoas se adaptem e se compreendam nas relações que estabelecem. Não existe "encaixe" perfeito - o encaixe se cria através do dia a dia, através do trabalho psíquico de compreender, de abdicar, de entender o outro e as diferenças existentes. É um encaixe maleado, criado e não perfeito.
Afinidade, pois é apenas o primeiro passo em qualquer relação, afinal existe a necessidade constante da realização de muitos outros que requerem, sem dúvida, o desvio de mais pedras e a caminhada por terrenos mais tortuosos do que o existente embaixo do primeiro. Se relacionar é mais do que algo prazeroso, é uma necessidade humana - é convivendo, dialogando, interagindo, compreendendo e sendo compreendido que o homem cresce e evolui.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 25 de junho de 2007.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Ausência de amigos

Ausência de amigos

Estava pensando em algumas pessoas que conheço, coincidentemente da mesma família. Pessoas de "poucas amizades", não por serem antipáticas no trato, mas porque, no fundo não gostam de se tornar íntimas, de conversar com os outros sobre assuntos que não sejam a respeito de banalidades. Existem pessoas que estabelecem relações superficiais, que não "gostam" de ter amizades, por vários motivos, alguns, obviamente mais vis que outros.
Meu pai sempre disse que "amigos de verdade não existem", dizia que existem, apenas "boas parcerias", porque há, sempre, uma competição latente, que a inveja permeia as relações humanas de forma que nunca um homem desejará ver seu amigo mais feliz em sua vida afetiva e financeira do que ele.
Esta era a idéia de meu pai pelas experiências que teve. Para ele apenas uma mulher pode amar um homem e querer seu bem, e nossos pais que, muitas vezes nos irritam por desejar para nós um "bem" diverso do que almejamos, mas que, apesar disso, nos amam sempre. Do seu modo, mas amam. Ele tinha razão, mas de forma parcial.
O ser humano não é feito apenas de pele, ossos, músculos, gordura e sangue, é feito de experiências, de idéias e ideais. O homem é o que ele pensa. Mas os seres inteligentes mudam de idéias, mudam de pensamentos, logo, como Raul Seixas, as pessoas que sabem usar sua razão e emoção de forma adequada são "metamorfoses ambulantes". A vida ensina uma nova lição a cada dia, não há como ficar estagnado. Apenas os ignorantes acham que sabem tudo e que não têm nada para mudar.
Bem, e os "amigos" (assunto do texto) onde estão? Para mim na seguinte realidade - como todos seres humanos aqueles que escolhemos para chamar de amigos são imperfeitos, sujeitos à paixões, dias de mau humor, dias de humor "bipolar", estão sujeitos à frustrações no amor, embaraços financeiros, mas, não é por isso que deixam de nos amar, de nos admirar e gostar de nós, aceitando-nos como somos.
Lembro de ter ouvido de um marido apaixonado a confissão de quem em certos dias tinha vontade de "esganar" a mulher. Ele a amava e respeitava, nunca vi relacionamento tão bom. Mas o fato de uma relação ser boa não significa que esteja isenta de discussões, de diferenças, de brigas, de incômodos, não significa, pois que num dia de mau humor um não tenha vontade de atirar o outro pela janela. C´est la vie. A regra na existência humana é a imperfeição, afinal o homem não é perfeito, não é um Deus ou um anjo.
A tarefa é relevar, é ser superior as mazelas, é, mesmo sendo, ser superior as imperfeições: amando e perdoando, superando mágoas, superando a própria ausência de perfeição e a alheia com a consciência de que não é por errar que as pessoas deixam de ter valor e de nos dar valor. Não podemos cobrar do mundo o que não podemos lhe dar: Exemplos de plenas virtudes, afinal podemos ser virtuosos, mas não impassíveis de erros.
Meu filósofo preferido, Nietzsche, disse: "A falta de amigos faz pensar em inveja ou presunção. Há pessoas que devem seus amigos à feliz circunstância de não ter motivo para a inveja." Pois bem, creio que dependa do "grau" da inveja. Uma invejazinha surgida porque o amigo esta melhor financeiramente, porque tem uma esposa linda e carinhosa quando se esta sozinho e frustrado não é uma aberração, logicamente não é belo ou correto - pessoas felizes e de bem consigo não invejam, se aceitam e lutam suas vidas com a cabeça erguida e a auto-estima em alta.
Todavia existem aqueles que vivem se sentindo inferiores mas que não querem transparecer de forma que, logo que iniciam uma amizade, começam a criticar, a realçar os "pontos fracos" do possível amigo, ou, simplesmente, aqueles que se acham superiores, que presumem que suas vidas e atos são mais dignos, justos e corretos do que o dos demais. Ambos são pessoas que não sabem amar, em especial pelo fato de nem a si mesmos amarem.
Ambos os "tipos" estão fadados à solidão, a não terem amigos. São como aquelas pessoas, daquela família em que eu pensava, que se acham mais corretos do que o mundo sem perceberem que a vida bem gozada é a vivida pelos sábios. E estes são aqueles que sabem quão imperfeitos são, logo, vivem cientes de que não podem exigir o que não possuem.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 21 de junho de 2007.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Os nossos espinhos

Os nossos espinhos

Todos nós temos nossos recalques, nossos "trauminhas", aquelas lembranças, gestos ou atos de nossa realidade presente ou passada que nos incomoda, nos causa ansiedade, ou uma espécie de brabeza. Não gostamos de ter feito algo, de sermos desta ou daquela forma, nos sentimos inferiores, tristes ou magoados, e, por um motivo não muito lógico não gostamos de "ouvir" o que nos faça lembrar do tal recalque.
Não uso esta palavra com a conotação dada pela psicanálise, mas pelo significado popularmente conhecido dela. Não é anormal ter algum recalque, mas, como tudo que atrapalha nossa paz de espírito e felicidade, é algo que devemos aprender a superar pena de nos melindrarmos injustamente e, ainda, de magoarmos quem não nos quis ou desejou ofender.
Existe uma frase de Aristóteles mais do que perfeita e adequada para a realidade humana, é a seguinte: "Qualquer um pode zangar-se e isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa, não é fácil". E ser sábio, ou seja, ser auto-controlado e paciente não são tarefas fáceis e justamente por isso são tão necessárias para nossa harmonia pessoal e, logicamente, social.
A pessoa que conquista o auto-equilíbrio se torna, sem dúvida uma pessoa mais leve, mais feliz, enfim, mais "fácil" de viver e encarar a vida. Viver não é difícil, conviver também não, sequer superar o outro é difícil, duro mesmo é superar a si mesmo, nossas fraquezas e recalques, aos obstáculos que nós mesmos nos colocamos sem perceber e que barram nossos relacionamentos e nos impedem de estabelecer um convívio harmônico, tranqüilo e prazeroso com as pessoas.
Sempre digo que é possível ver que uma pessoa esta (ainda mais) "fora" de sua racionalidade, ou, enfim de seu equilibrio pessoal, quando precisamos nos conter para dialogar com ela. "Não fale tal coisa na frente do fulano que ele se ofende", "Não dá para falar nisso com ela que muda seu humor". Ninguém nesse mundo atribulado é "obrigado" a viver pensando no que vai ferir ou não o outro se o "assunto" em questão é algo normal e não uma ofensa direcionada.
Obviamente é preciso ter empatia, saber perceber o que magoa e quando as pessoas com quem convivemos estão magoadas, mas dai há existir a premente necessidade de "nunca" tocar em determinado assunto na frente de alguém significa apenas uma coisa: Esta pessoa criou para sua vida um problema que poderia ser inexistente se ela superasse a forma com que encara tal fato ou realidade, que, na verdade, é problemática apenas em sua mente.
É o que disse o sábio Aristóteles, aliás todos precisamos aprender a superar nossos "recalques" para que não nos ofendamos pelo motivo errado (ou, ao menos, tolo), com a pessoa errada, da forma errada e no momento errado. Muitos dos problemas que criamos não vêm de fora para nós, não são espadas que os outros nos cravam, mas apenas espinhos que colocamos em nosso coração e sentimos arranhar quando ouvimos algo que não queremos ou não gostamos.
Todavia, quem os colocou em nosso interior foi nós, e à nós compete a tarefa de retirá-lo posto que a vida requer que retiremos os espinhos e farpas que nós inserimos em nosso coração, afinal não são os outros que nos ferem intencionalmente, ou que nos magoam "sem perceber" é nossa consciência que se retrai e arrasta a farpinha que dói em nosso peito. E este problema, ou melhor, esta "tarefa" é nossa, exclusivamente nossa.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 19 de junho de 2007.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

A dor (da falta) do amor II

A dor (da falta) do amor II

E um amigo, uma pessoa querida, que tive a sorte de conhecer em Porto Alegre por ser pai e esposo de duas queridas colegas de pós-graduação residentes em Florianópolis me indaga: "Onde está o amor? Este do qual há dor? Existe ou existiu? E quando no curso de nossas vidas?". Gostei dos questionamentos, e me disponho a explicar o que é, para mim, "a dor da falta do amor".
Ora, ora, por si só o amor não causa dor. Ele regozija. Camões, em seu Soneto 11, utilizando-se do famoso texto bíblico, descreveu o amor:"Amor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói e não se sente;É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer;É um não querer mais que bem querer (...)É querer estar preso por vontade;É servir a quem vence, o vencedor;É ter com quem nos mata lealdade.Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade,Se tão contrário a si é o mesmo Amor?".
O amor é a força que une os corações humanos. É por amor que a gente abdica de pequenas coisas, é por amor que a gente muda, é por amor que a gente melhora, é por amor que a gente deve (deveríamos) dar a luz a novos seres, é por amor que a gente abre mão do comodismo da solidão, da covardia de não ter que ser complacente, paciente nem arriscar-se a sentir alguma dor, ainda que seja a dor da saudade do amado que partiu rumo à eternidade.
Logicamente, numa relação em que existe amor não é ele a causa dos sofrimentos e das dores. São as fraquezas humanas, o egoísmo, o medo de ceder, o receio de mudar, são as palavras duras, as atitudes impensadas que ferem a ferro um coração enternecido pelo carinho, pela doçura que apenas o amor coloca no coração do homem.
Mais do que amar, é preciso saber se relacionar, é preciso saber que o amor não traz consigo a perfeição. Os homens são imperfeitos, o amor, apenas, os aproxima de Deus, mas não os tornam impassíveis de erros. É por isso que, ao lado do amor, deve estar o respeito aos sentimentos e ao próximo, deve estar a paciência, a ternura, a parceria e o diálogo, do contrário, o amor, ainda que se mantenha na alma do amante, cede lugar a dor, porque às vezes é preferível sentir a falta de alguém do que ser por ele desrespeitado, traído ou magoado.
Não é o amor que causa a dor, são as pessoas e seus gestos inconsequentes. Os seres humanos são errantes. Para algumas dores, obviamente, há perdão. O amor faz com que as pessoas perdoem, desde que, logicamente, a ofensa não tenha sido tal que macule em demasia seu amor próprio. Afinal, acima de qualquer sentimento deve estar o amor do homem por si mesmo, pela sua vida, pelo seu caráter e forma de viver, do contrário, ele poderá sentir "tudo" por outro alguém, menos amor verdadeiro.
Eu sei. Amores acabam mesmo existindo amor. Acabam porque não basta amar, é preciso saber se relacionar, querer ser cúmplice, confiar, dividir, respeitar, dialogar. E isso, muitos que amam não sabem ou, por orgulho não se dispõe a fazer. É preciso ser maduro de coração para se entregar a um amor.Existem tais casos, mas eu prefiro acreditar que, aos poucos, o amor torna o homem mais humilde e o faça evoluir. Eu creio nisso, mas nem sempre é o que ocorre e é por isso que alguns amores acabam em dor, porque mesmo aproximando o homem de Deus, ele não quis ver a sua luz.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 14 de junho de 2007.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A dor (da falta) do amor

A dor (da falta) do amor

Minha tia diz que a dor do amor é a mais terrível das dores, e ela se diz covarde. E é, pois deixou de querer um relacionamento de tanto que sofreu por um certo alguém em seu passado. Sua covardia é indiscutível, mas suas razões são inolvidáveis. A dor do amor rasga a alma, queima o coração e não mata. Seria bom se matasse, assim, quem sabe inventariam uma cura ou um antídoto contra ela.
A dor do amor não se cura com outro amor. Sei disso na prática. Ela toma outra forma, se reveste de outra cor, mas continua a dor, a latejar, de certa forma ainda mais, porque quem ama sente falta do cheiro, do toque, da voz, da forma de falar, das pernas tortas, do nariz torto, do dente quebrado, do cabelo arrepiado, enfim, daquela "série de algos" que seu parceiro tinha, ou melhor, têm, mas, agora, longe de você. Quem ama sente falta até dos defeitos, do emocionalismo da mulher, da ranzinice, do "beicinho", do ciuminho.
É triste sair com amigos, estar no meio de muitas pessoas, ouvir as mesmas conversas, lamúrias e piadas (que se têm acabam aparentando sem graça) e sentir falta apenas de uma pessoa. É deprimente se sentir sozinho em meio a muitas pessoas pela falta de uma só mão, de um só abraço, de uma só presença, de um só cheiro. Já diria Shakespeare, que o sono é o prelúdio da morte - nos faz esquecer de chorar. De pensar. De lembrar. Mas, obviamente, não cura, não cicatriza.
Quem já amou e sobreviveu a dor imensurável da perda sabe que apenas o tempo a ameniza. É preciso estar com o coração cicatrizado para colocar-lhe no "mercado" da busca por novos amores novamente. Agir de forma diferente é ser imaturo e usar outras pessoas como objetos. Objetos que não vão suprir, realmente, a falta daquele que foi ou que mandamos embora por um motivo ou outro (ação e reação, talvez).
A dor do amor é a mais terrível das dores que um ser humano pode sentir. É uma agonia, uma dor no peito, são as lembranças, a saudade, os planos recônditos que sequer foram explicitados, a fé que se tinha que tudo fosse dar certo. É uma dor que só vale a pena ser enfrentada quando, realmente, é impossível ficar com quem se ama, do contrário há masoquismo explícito.
Adultério. Traição de confiança. Humilhação psíquica. Tudo é muito grave, mas se ainda há amor, é possível pensar. Talvez seja possível superar, lutar. Do contrário, quando emerge o asco, o nojo e a decepção é tanta que seria pior estar ao lado de quem se ama do que padecer a dor de sua falta, sendo preferível a agonia praticamente torturante da dor da falta do amor. Mas, de resto, sempre vale a pena lutar por ele. Sempre.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 13 de junho de 2007.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Mulheres e agrados

Mulheres e agrados

Um bouquet de flores tem o seu valor, ontem à noite vi um amigo com um em mãos para dar cedinho para a namorada e me comovi. O romantismo, a doçura são de imensurável valor numa relação. Jantar a luz de velas, champagne, bombons, uma surpresinha, não existe mulher que não se encante com isso. Dizem os homens de mentalidade mais retrógrada e machista que é difícil agradar uma mulher. Bem, não conheço todas, eu me sinto agradada com respeito, educação e demonstração de carinho, e a maioria das mulheres também.
Na verdade toda mulher quer se sentir valorizada, nem todas, é verdade, são legais, parceiras, humoradas e divertidas, nem todas são compreensivas e pacientes. Ou, até mesmo as que são possuem um dia que o "saco" esta cheio, ou que os hormônios estão falando mais alto do que a razão. Um bom homem, um homem atento a mulher que ama sabe reconhecer estes dias e sabe compreender.
O problema, na verdade, é que a fugacidade de algumas relações, as baladas em excesso, a conquista de "sexo fácil" esta tirando da "raça masculina" esta capacidade de agradar e valorizar as mulheres delicadas, apesar de fortes, batalhadoras, que estudam, trabalham, cuidam da casa, dos filhos, que pensam em construir um futuro próspero, mas, nem por isso, perderam a meiguice e a vontade de serem acarinhadas, beijadas, mimadas.
Na verdade certas mulheres, as mais servis, com menos estima própria, estragaram o bom de certos homens. Homens são educados por mulheres e quando passam a se relacionar afetivamente com uma, continuam a ser por elas instruídos. Logo, mulheres que não souberam expor sua sensibilidade, seus desejos, seus anseios tendo sido demasiado servis (por um motivo ou outro) acabam por "mal acostumando" seus homens que irão, certamente, desaprender ou não-aprender o que deveriam saber a respeito do lado bom da "raça feminina".
Bons homens são aqueles que trabalham, que se dedicam a suas causas e objetivos, são aqueles que valorizam a esposa, parceira ou namorada que possuem. São aqueles que amam do fundo do coração e são sinceros no sentir, no falar e no agir. Da mesma forma assim são as boas mulheres - aquelas que não deixam seus amados carentes. Bons homens e boas mulheres são os que "dão assistência para não abrir concorrência."
Todos deveriam saber que no dia dos namorados ou em qualquer outro dia é preciso abraçar, cuidar da mulher que amam, se realmente sentem tal (raro) sentimento, do contrário, para que ter uma companhia? Boas mulheres são como diamantes - merecem ser valorizadas. Aliás, boas mulheres e bons homens estão em extinção hoje em dia. Mas existem, ainda.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 12 de junho de 2007.

O amor e o dia dos namorados

O amor e o dia dos namorados

Dia dos namorados é uma data especial, uma data de reflexão tanto para os enamorados quanto para aqueles cujo amor esta dando um tempo, ou, simplesmente fez uma viagem só de ida para algum lugar distante e esta esquecendo de voltar. Na verdade esta data só tem graça para os enamorados, ou seja, para aqueles que estão com o coração aquecido pelas boas vibrações do amor, pelo encantamento e por toda a magia que uma boa parceria tem em si.
Esta data me faz pensar, porém, na lei da ação e reação, afinal, não basta pensar na pseudo-perfeição que os românticos imaginam que exista numa relação baseada no amor. Amar, manter um relacionamento, é muito mais uma questão de bom uso da racionalidade e da sensibilidade do que simplesmente o gozo de um sentimento magnífico como o amor. É uma questão de bom-senso e emoção.
É preciso que o namorado ou a namorada compreendam que seus atos irão gerar no outro uma reação, via de regra, proporcional ao ato. Gestos brutos, grosseiros e ríspidos irão magoar, ferir e, conseqüentemente fazer com que o outro tome uma atitude semelhante ou, quiçá, graças ao orgulho ferido, aja de forma mais dura, como numa troca de ofensa e humilhações mútuas em que um tenta ser mais "cruel" que o outro. Ora, mas qual o sentido disso? Nenhum, é apenas um sinal da imperfeição humana, algo infeliz mas extremamente normal, em especial quando a mulher esta com TPM e o homem com problemas financeiros ou profissionais.
Aprender a superar tais circunstâncias é uma dádiva, mas, deixar de causar problemas assim é, isto sim, uma prova de respeito e valorização ao outro. Porque ofender? Porque ser grosseiro com quem se ama? Se é nos braços de seu amado que você encontra atenção, respeito, admiração, olhar terno que, certamente, o mundo não lhe dá, e os amigos também não - neste mundo esta cada um por si, apenas no amor hetero ou homossexual não existe inveja ou competição, pelo contrário, existe conforto e apoio.
Só quem amou e soube se entregar a uma relação legal sabe disso. Conhece o valor de um amor bem vivido, bem curtido, bem gozado. Ação e reação: Ame, dê carinho, dê respeito, dê atenção, dê paciência, calma, compreensão, doçura, dialogue, que do outro lado repercutirá os mesmos gestos, as mesmas palavras ternas. Pelo contrário, falar palavras duras, ainda que sejam sinceras pode ferir e magoar o coração alheio.
Se relacionar afetivamente com alguém implica em saber o seguinte: Existem verdades que não precisam ser ditas. Existem reclamações e sensações cuja abertura se torna desnecessária porque podem ferir, podem machucar. Antes de ser sincero é preciso ser sensível, ter compaixão, parar para se colocar no lugar do outro e perceber, sentir se, no lugar dele, tal afirmativa não iria lhe macular a paz e a alegria.
Não existem muitos mistérios para um bom relacionamento, é preciso apenas, deixar o amor invadir a alma e se desprender dos medos, dos receios, das pré-concepções sexistas (machistas ou feministas), deixar a sensibilidade fluir, parar para pensar nas próprias ações e na repercussão das mesmas bem como, ter certeza de que o amor de quem te ama não se encontra em qualquer esquina, não é dado por nenhuma amiga, cão, gato, papagaio ou parceiro de festa.
Só quem te ama te admira pelo que é, sem invejar, sem recear o teu sucesso. O mundo não se importa muito com você, mas quem te ama sim, então valorize, respeite, pense antes de falar e agir, pena de ficares só no mundo e ter que esperar o amor voltar de um lugar distante. E esta espera é tão árdua quanto difícil, não se encontra em qualquer esquina quem ame você, tampouco você não vai amar qualquer pessoa. Quem conheceu o amor verdadeiro e teve paz nos braços de alguém não se contenta mais com qualquer pseudoamor.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 12 de junho de 2007.

domingo, 10 de junho de 2007

Amor além da vida

Amor além da vida

Outro dia assisti a um filme chamado “Amor Além da Vida”. Chorei do início ao fim do filme. Muito pela sensibilidade aguçada pelos hormônios na fase da TPM, mas, um pouco pela beleza e realidade do amor retratado na trama.
Falo realidade, porque apesar do filme ser fictício, o casal teve celeumas, passou por dificuldades, confessaram terem tido brigas grandiosas, mas o sentimento, a paz existente entre eles constatada em seus olhares e toques fez com que superassem as dificuldades, as agruras, desentendimentos e vários outros acontecimentos infelizes.
Chorei pensando em mim mesma, em como, mesmo tendo visto decepções alheias e tido algumas, não perco a fé na existência deste tipo de sentimento. Intenso, que supera problemas, neste sentimento que acontece entre aqueles que valorizam o outro e suas idéias, que respeitam seus defeitos, e vêem suas boas intenções antes de erguer-lhes pedras para criticá-los (e machuca-los), antes de ignorar seus sentimentos e ferir-lhes.
Quem não quer um amor de verdade? Não falo de sentimento que vem com o tempo: Apenas o apego surge com o tempo, como o hábito e o costume. O amor surge brando, mas arrebata. Faz com que quem ama tenha atitudes que jamais pensava ter. O amor verdadeiro traz a humildade para os orgulhosos, a compaixão para os egoístas e a alegria para os mal humorados. O amor aquece o coração, alenta a alma.
Quem ama sabe que existem coisas substituíveis, mas não pessoas. Ninguém neste mundo tem as qualidades de quem você ama, e é por isso que, enquanto o amor pulsa no coração não se deve desistir dele. Tentar olvidar de sua força é como cavar a própria cova a ser preenchida pela terra escura da amargura e da solidão - ainda que se coloque um outro corpo dormir em sua cama.
Nada é por acaso. Ninguém ama alguém por acaso, e nem deve dele desistir ou tentar substituir por paixões frívolas que, bem ou mal, acabam da mesma forma com que chegaram. Apesar de todas as dores, de todas as frustrações e pesares eu acredito em amores além da vida, além desta existência carnal.
Não se trata de amores de relacionamentos perfeitos, afinal, nada é perfeito e linear nesta vida e é isso que faz com que as pessoas cresçam. Trata-se, isto sim, de amores que superaram as mazelas e os defeitos de seus amantes para se manter e crescer, além do corpo físico. Como sempre, continuo crendo no amor, no amor além das palavras, além da matéria, além das frivolidades e banalidades da existência terrena.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 10 de junho de 2007.

Paciência e diálogo: os temperos da felicidade.

Paciência e diálogo: os temperos da felicidade

Não existem segredos para a felicidade. A felicidade é um “prato feito”, elaborado com a vontade de cada pessoa, todavia ela exige alguns temperos que são imprescindíveis para a realização do tal prato principal desejado por todos.
A gente começa a ser feliz quando decide: “Hoje, apesar de todos os problemas financeiros, apesar das diferenças entre eu e meu companheiro eu serei feliz e irei superar os percalços sem pisar em quem não causou os inconvenientes que lastimo.” Depois desta decisão e de um belo sorriso a vida passa a fluir de forma mais prazerosa.
Por outro lado, não basta a tomada de tal decisão se não há o exercício constante da paciência e do diálogo. A paciência é um antídoto contra pequenas brigas e guerras sentimentais iniciadas por gestos e afirmativas carregadas de ira e desamor, e o diálogo porque é apenas com seu exercício que o ser humano se entende sem brigar e sem ter que jogar na face alheia um excesso de fel.
Não há dificuldades, nem mistérios para se viver um relacionamento feliz desde que a pessoa se desprenda das amarras do orgulho e do medo (inclusive de amar) para ser livre na vivência de um relacionamento bom e pacífico. O diálogo é a chave mestra para a felicidade amorosa e afetiva, sem ele ocorrem brigas e discussões desnecessárias.
Quem ama dá o primeiro passo na direção da evolução pessoal, porque quem sente, verdadeiramente, o amor pulsar no coração não quer perder a companhia e o respeito do outro e, por isso, tende a ceder, a dialogar, do contrário estará dando um passo rumo a infelicidade pessoal. Amar, compreender, transigir, saber ouvir, e, principalmente, ser paciente e dialogar são o segredo para a superação de qualquer crise afetiva.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 10 de junho de 2007.

sábado, 9 de junho de 2007

A intenção recôndita

A intenção recôndita

Tem gente que espera demais dos outros. Espera que deles venha a compreensão pelos seus atos brutos e intolerantes, espera que os outros compreendam seu desejo de liberdade e de gozo da própria vida, porém quando deles se espera paciência e compreensão se encontra um local vazio.
Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, é sempre necessária a complacência, a paciência e a análise dos sentimentos por trás das atitudes alheias. Muitas vezes uma pessoa pode agir de forma a nos desagradar pelo fato de estar impulsionada por um sentimento bom, e, mais ainda, com intenções recônditas, porém salutares.
Enfim, conviver é ceder. Amar é compartilhar uma vida atribulada, cheias de altos e baixos com alguém que, sabemos, irá nos compreender e apoiar, pelo simples fato de nos amar e valorizar. Parar para pensar, pois, no que o outro sente e verificar suas boas intenções é um passo importante no relacionamento e implica na cultivação do respeito mútuo.
Respeitar é compreender, é entender o outro com suas intenções saudáveis, ainda que por baixo de atos “atrapalhados”. Todavia, quem requer apenas dos outros a compreensão sem, sequer, parar para pensar em seus sentimentos e intenções salutares, acaba por magoar e ferir o coração alheio.
Um relacionamento forte se constrói no dia a dia, na rotina, nas conversas e desabafos sobre as dificuldades encontradas no ambiente de trabalho ou familiar. É fácil amar em finais de semana quando tudo é tranqüilo e o cansaço psíquico mais leve, bom mesmo é o exercício do amor após um dia cheio e cansativo, afinal quem ama vê no ombro alheio um lugar calmo para se encostar e desabafar sobre medos, entraves e problemas.
Amar é simples, se relacionar também desde que a pessoa saiba da necessidade da paciência e do diálogo, porque, a partir do momento em que uma boa conversa é trocada por atos ríspidos e afirmativas ofensivas, - ainda que verídicas (nem tudo o que se pensa deve ser exposto para o bem da relação) -, a relação começa a se tornar fatigante e o coração se aborrece com a dor da decepção.


Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 09 de junho de 2007.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Transigência excessiva

Transigência excessiva

“Viver é transigir”, já disse isso em algum de meus textos. Viver é transigir porque para viver necessitamos conviver e este é o exercício mais eficaz para nosso aperfeiçoamento e crescimento pessoal.
Ademais, é apenas convivendo com pessoas que nos são queridas que nos tornamos capazes, realmente, de nos sentirmos felizes e termos alegria de viver. Nenhuma pessoa é plenamente feliz na solidão, sem ter com quem compartilhar vivências, experiências e, em especial, sentimentos e carinho. O solitário vegeta em si mesmo.
Pois bem, é essa arte de transigir que no decorrer de relacionamentos, em especial os amorosos, faz com que abramos mão de algumas coisas, desejos e vontades. Ainda que, no momento, nos sintamos mal por ceder em determinado aspecto, sabemos que estamos agindo certo posto que em prol da harmonia da relação, e, consequentemente, de nossa felicidade.
Eis que, como em tudo na vida, há de existir explicitamente o meio termo. Se ceder e transigir é salutar em relação a pequenas atitudes, como abrir mão de vontades e ações comuns, é extremamente negativo quando se refere à abdicação de sonhos e metas que dizem respeito a nossa individualidade e auto-realização.
Sonhos, planos e metas são pessoais, fazem parte do psiquismo individual, são grandiosos ainda que não concretizados. Quem abre mão de amizades, de um sonho profissional ou da própria carreira em prol do outro, esta fadando sua própria vida ao tédio e, consequentemente, levando o relacionamento à bancarrota futura. Obviamente tal não ocorre se o individuo abre mão de algo por si mesmo.
Enfim, há de se usar a racionalidade para não ser egoísta em relação a atos corriqueiros, nem tolo abrindo mão de sonhos e metas futuras e relevantes, afinal, aquele que larga sua vida para viver a sombra do outro se torna um nada no mundo, porque sombras não impõe respeito, não vivem, não sentem, não agradam, elas estão sem existirem no mundo, e, um dia ou outro acabam amargando a solidão.
Ninguém quer ter a seu lado alguém sem personalidade, sem vida própria, que nada criou, nada construiu ou inventou na vida. É por isso que aquele que acaba abrindo mão de suas metas para agradar ao outro desconhece que, no futuro, além de ser infeliz consigo mesmo, será um desagrado para seu parceiro, afinal, pior do que um ser sem vida própria é aquele que é frustrado com a ausência dela, e esta frustração um dia chega.

Cláudia de Marchi

Concórdia, 08 de junho de 2007.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Ser uma estrela.

Ser uma estrela.

Não tenha medo dos dias ruins, não pense que o mundo é um mar de injustiças simplesmente por veres boiar a seu lado vítimas do descaso das autoridades e outras tantas vítimas do desamor, da infidelidade, por seres, você mesmo, vítima da má-fé alheia, do homem e sua deslealdade, do homem e sua ambição e ganância pérfidas.
A vida, meu amigo, te reserva aquilo que buscar, te dá aquilo que você lhe oferece. A vida, realmente, não é grata, ela retribui ao homem de acordo com critérios que ele desconhece porque não lhe foi dada a possibilidade de tudo saber, todavia, feliz aquele que pensa com grandiosidade e vai atrás de seus objetivos. Somente os perseverantes vencem e realizam seus sonhos, e perseverar é superar as frustrações do meio do caminho.
E é por isso que ela não se compadece com quem se sente vítima e, no fundo, pensa negativamente. A vida é amiga dos que se sentem fortes e grandiosos, dos que pensam grande mesmo em meio a pequenes de oportunidades e pensamentos. Pensamentos alheios: dos invejosos, dos mal amados e infelizes que vivem de espectadores da vida alheia, torcendo pelo fracasso dos que se mostram mais fortes e hábeis perante as tarefas vivenciais.
Não pense em desistir, não perca a vontade de criar, de seguir adiante. Erga a cabeça, respire fundo e batalhe, lute ainda que estejas ferido, mas páre para repousar, entre em sua caverna interior para refletir sobre suas táticas. Um bom vivente, é como um bom guerreiro: Sabe o momento de mudar de tática, de guardar a espada e optar por outro caminho.
Sofra. Chore. Desabafe. Se sentir dor, reclame. Sinta a saudade, goze o sofrimento para dele tirar o melhor que lhe for possivel aprender. Não tente mascarar com falsos sorrisos, com alcool ou qualquer outra forma de entorpecer seus sentimentos a dor que lhe faz sangrar a alma.
Saiba, porém, que é preciso sentir com coragem todas as dores, mas saber a hora de curtir o amor, a sabedoria e a força que aquela, em meio a espinhos, lhe trouxe. Após as calamidades o homem se torna mais maduro, mais hábil para encarar e viver grandes sentimentos.
Disse Nietzsche em “Assim falou Zaratustra”: “É preciso ter o caos dentro de si para dar origem a uma estrela bailarina”. E é por isso que não é preciso temer a dor, se entregar para a amargura, para o arrependimento, para a saudade, para a sensação de que o mundo esta fora de esquadro.
O mundo, as pessoas e suas atitudes podem ser equivocados, você não pode assentir com o equivoco nem entregar sua alegria às frustrações que costumam lhe assolar. Passe a ve-las como simples ocorrências que foram diversas de seus planos e, quiçá, das ilusões que criou durante sua trajetória.
As frustações são o reflexo da maior lição que a vida pode lhe dar: A de que a maioria dos fatos costumam ser ou ocorrer da forma diversa do imaginado, esperado ou planejado. Poucas coisas na vida surgem ou ocorrem da forma como o homem deseja. E esta verdade é uma provação a sua força interior e, em especial, a sua capacidade de usar o humor para aprender e sorrir mesmo que esteja sentindo-se desapontado ou em meio a adversidades.
Enfim, enfrente o caos dentro de sua alma, pense, reflita e use toda sua ansiedade, somada a um pouco da eventual amargura que cutuca seu coração, e mais um pouco da sensação de “estou perdido” para, aos poucos, se tornar uma estrela dançante. Uma estrela que ultrapassou as fases ruins e se tornou linda, iluminada e alegre.
Uma estrela que reflete o brilho da vida, que sai da inquietude e do caos para brilhar através da auto-superação e da superação dos obstáculos, do caos, e que, mesmo diante de novas frustrações não irá perder o brilho, pelo contrário, vai bailar lindamente e acabar sorrindo porque o aprendizado é o que lhe apraz, e ele é obtido mesmo diante das piores ocorrências.

Cláudia de Marchi

Concórdia, 04 de junho de 2007.

Mulheres: as que querem casar e as que querer ser (e são) felizes.

Mulheres: as que querem casar e as que querem ser (e são) felizes

Não é de hoje que existem dois tipos de mulheres. “Tipos” classificados de tal forma pelos anseios que possuem: as que querem casar e as que querem ser felizes. As diferenças são notórias, muito embora até mesmo alguns homens façam questão de se iludir (afinal, ninguém quer ser considerado como uma sombra do ideal alheio).
Todos os anseios aos quais as pessoas se arraigam em demasia tentem a se tornar algo ideal, ou melhor, algo que habita o imaginário do individuo como um ideal de perfeição, se tornando, pois uma ilusão. E, como tal, entorpece a racionalidade e a inteligência do homem.
Aquelas mulheres que, quer pela educação que tiveram, quer por “objetivos específicos” (como, por exemplo, ter um “bom partido” para lhe ceder, além do sobrenome, status e vida boa, já que não almejaram seu sucesso profissional e financeiro conquistado com independência) cultivam ou cultivaram o sonho do casamento acabam sendo, pela ilusão que criaram, entorpecidas a ponto de colocarem a perder boas relações e fazerem de outras que já nasceram falidas um objetivo de vida.
As que querem casar são aquelas que tudo aceitam enquanto namoradas, aquelas que não se impõem, que não exigem respeito, porque, na verdade, sequer se respeitam, pois colocam sua cara e vida a tapa de tão embriagadas que estão pelo seu ideal: o casamento.
O homem, seu namorado, enfim, é (mas não sabe) apenas uma sombra diante do ideal de sua namorada. Ela o perdoa, agrada, releva seus erros porque deseja se casar, não com ele pelas virtudes que possui, mas com qualquer homem que, obviamente, não seja pouco abastado financeiramente (ao menos, deve ganhar mais do que ela) - isso faz parte do ideal dessas mulheres que chamo de “casamenteiras”.
Pode o namorado sair com os amigos e esquece-la em casa, pode ele lhe xingar, gritas e esbravejar, pode não lhe dar carinho nem assistência emocional, pode faze-la passar vergonha diante de outros. A mulher que quer casar não se importa, ou melhor, se num dia chora e reclama, no outro vai bater a porta do pseudo-amado ou aceitar suas desculpas esfarrapadas. Tudo pela realização de seu ideal.
“Quero me casar, portanto aceito”. Esta é a verdade latente, muito embora a casamenteira tenha em seu lábios a mentira óbvia: “Eu o amo por isso aceito”. Ora, não ama ninguém quem não se ama, quem não se respeita e quem aceita uma relação notoriamente fajuta porque, no fundo, deseja sair da casa dos pais, parar de trabalhar, ficar em casa como uma mulher submissa, uma perfeita “esposa” a moda antiga, ou, simplesmente, poder afirmar para as amigas: Eu me casei.
Por outro lado, as mulheres que desejam ser felizes fazem de tudo para sê-lo no presente. Não abrem mão de sua auto-estima pensando num casamento, batalham, buscam suas realizações profissionais e desejam um companheiro que as satisfaçam sexual, intelectual e emocionalmente. Se estiverem com alguém é porque o amam e não porque querem algo, porque querem se casar, enfim.
O casamento pode, para estas mulheres, ser a conseqüência de uma relação imersa em cumplicidade, parceria, troca de experiências, apoio e respeito mútuos, bom humor, alegrias, onde ocorrer a superação de ciúmes, inseguranças e outras diferenças que, no inicio se mostraram perniciosas.
Enfim, para as mulheres que desejam a felicidade o casamento pode, apenas, ser um fruto simples de um relacionamento calcado no amor, afinal, casar para estas mulheres de inteligência e auto-estima elevadas é apenas um detalhe no quadro de sua felicidade. E esta é preexistente aquele que pode nem ocorrer nos ditames da sociedade antiga, pois, como diria minha mãe “casado é aquela que bem vive” e vive bem quem é feliz intrinsecamente sem precisar criar um ideal ilusório.

Cláudia de Marchi

Concórdia, 04 de junho de 2007.

A perfeita vida virtual

A perfeita vida virtual

Ando assustada com algumas coisas nesse mundo. Além da violência crescente, da criminalidade que aumenta de forma aberrante, da impunidade que começa grande nas classes altas e diminui em grau quando os possíveis “apenados” são pobres (mas que existe e não deveria existir em dimensão alguma) é a vontade humana de se mostrar e exibir-se que me assusta.
Na era de blogs, orkut, e outras formas de auto-exposição sem ser atitudes averiguadas no mundo real, no tèt a tèt comum, fica evidenciada a vontade que algumas pessoas possuem de apregoar para o mundo que são extremamente felizes, bem amadas e realizadas, que seu viver, enfim, é um imenso quadro cor de rosas.
A vida me ensinou, dentre tantas lições, a desconfiar do exagero. Das declarações de amor públicas, das frases afirmativas de realização, de vida perfeita e amores perfeitos, onde não existe a necessidade de complacência porque ambos são “idênticos”, onde não existem briguinhas, desentendimentos, nem lembranças incomodativas. Perfeito: Amores perfeitos, pessoas perfeitas, sábias, inteligentes e realizadas, será verdade tanta “perfeição”, ou melhor, toda esta aparência dela?
Declarações de amor puras são as ditas no silêncio dos olhares, a dois, sem que ninguém precise ver ou ouvir. Demonstração de amor verdadeira é a demonstrada nas atitudes, no respeito, na fidelidade até mesmo psíquica. Quem deseja demonstrar demais algo evidencia que tem, em si, latente algum recalque e/ou a vontade implícita de que o que aparenta fosse verdadeiro em seu âmago e real na sua “vida real” e não em sua existência virtual ou narrada.
E não é, se fosse o individuo viveria, enfrentaria seus problemas diariamente, e, entre risos, lágrimas, euforia e tédio, passaria sua vida com normalidade sem desejar fazer dela uma imensa “tela” onde pinta - para os outros verem, - de cores vivas e vibrantes o que é, na verdade, cinza e negro, ou, simplesmente, “normal” sem nada de muito extraordinário e perfeito, porque a vida e a graça dela esta na imperfeição. (Tudo o que é muito ajustado, correto, certo ou perfeito morre e/ou mata de tédio quem lhe tem. Se é que existe algo tão perfeito assim.)

Cláudia de Marchi

Concórdia, 04 de junho de 2007.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Remédios amargos

Remédios amargos

Se é verdade que quase todo remédio ou xarope não possuem gosto agradável, é fato que as maiores lições que aprendemos na vida são tiradas de experiências um pouco dolorosas, sejam elas oriundas de fatos ou, enfim, sejam aquelas que são apreendidas quando ouvimos palavras que a priori nos ferem.
A gente costuma crescer muito mais através das experiências duras e da assimilação de argumentos verdadeiros e que nos maculam o orgulho do que através de acontecimentos alegres e palavras doces que, muitas vezes, podem ser falsas. É amargo o remédio para nossa ignorância psíquica.
“A verdade dói”, afirmam alguns. Na realidade a verdade não dói na alma, ela faz o nosso orgulho se contorcer de dor. Todavia, o orgulho é o defeito que mais afasta o ser humano da evolução e do crescimento pessoal, é mais que um indício - é prova de nossa ignorância mental. Logo, bom mesmo é ouvir aquilo que o fere, e depois parar, analisar, assimilar para ver o lado útil daquilo que, inicialmente nos fez sofrer.
(A mentira, por outro lado, fere nossa alma. É por isso que prefiro ouvir verdades a saber que algumas pessoas crêem em fatos mentirosos a meu respeito, ou, enfim, me dizem inverdades.)
Pois bem, o cerne desta crônica é a constatação de que por mais amargas que podem ser algumas palavras se baixarmos a guarda tosca de nosso orgulho, certamente, poderemos erguer uma bandeira mais suave onde se poderá ler: Aqui tem alguém que ouviu o que não quis e fez bom uso disso.
Dificilmente queremos ouvir o que nos desagrada, mas a vida costuma nos desagradar mais do que agradar. Vamos pisar mais em espinhos e pedras, ultrapassar esgotos fétidos do que andar sobre pétalas de rosas cheirosas. E esta é sua graça.
Enfim, a vida e as experiências que ela nos traz são de valores imensuráveis. É justamente por ser mais dura do que fácil que ela tem uma graciosidade imensa, e as coisas mais singelas e simples apresentam grande beleza e encanto, como por exemplo, os sentimentos mais nobres que podemos sentir.
Nada como saber que somos amados, que temos uma família que nos quer bem, pessoas que torcem pela nossa felicidade, que temos quem pense em nós com carinho e estima. Nada como ter a quem amar, com o que sonhar, nada como acordar de manha e saber que mesmo com muitos problemas a nossa espera temos um trabalho, uma ocupação que ainda que nos traga preocupações nos dá a possibilidade de ter um lar para voltar à noite e onde podemos dormir aquecidos e com o estômago farto.
Enfim, nas adversidades conhecemos nossa força, e através delas nos tornamos mais fortes. O dinheiro os ladrões podem levar, a beleza o tempo pode diminuir, mas a sapiência adquirida na vida é patrimônio eterno em nossa alma ainda que seja adquirida e constatada depois de algumas lágrimas.

Concórdia, 23 de maio de 2007.

Cláudia de Marchi

O terror da realidade

O terror da realidade

Não é mais preciso que Hollywood invista na realização de filmes de terror. A realidade social esta, cada dia mais, atemorizante, assustadora. Basta que liguemos a televisão para assistir um telejornal, ou que abramos um jornal para verificarmos que existe algo de muito errado pelo mundo - a violência e o desamor crescendo de forma assustadora.
Crianças morrendo pelas mãos de outras crianças, balas perdidas levando vidas cheias de futuro e corações imersos em esperança e sonhos. Assistindo a um telejornal hoje pela manha vi algo muito mais aterrorizador do quem um filme de terror.
Mais assustador, mas muito, muito mais triste e lamentável justamente por ser o retrato da realidade. Onde esta a justiça neste mundo? Onde esta o amor e a compaixão na vida humana? Eu não sei, mas me alegro por saber que não corrompi o meu pensar nem perdi a capacidade de me indignar, tampouco consigo aceitar o inaceitável.
Burocracia nas atitudes e impiedade na alma eis um dos empecilhos para a mudança. As pessoas, em especial os juristas tergiversam a respeito da punibilidade de menores de idade dizendo que em nada mudaria na diminuição da violência. Ora, como saber se nenhuma atitude se toma, se nada se faz?
Talvez estes juristas de mente hipócrita e demais cidadãos de pouco raciocínio mudassem seus pensamentos se tivessem o filho, pai ou esposa com a vida findada pelas mãos de um menor de idade. Pena é castigo, retribuição leve ou pesada conforme o agir de alguém. Se todos, quando crianças recebem reprimendas, porque não reprimir o menor de idade assassino?
Se não forem tomadas atitudes sérias em matéria de repressão penal, se presídios não estiverem na lista de empreendimentos de governos ao lado de hospitais e escolas essa situação constante de impunidade não irá mudar. E é a certeza de impunidade que cria nos cidadãos mal intencionados a idéia de liberdade para agir. Agir em detrimento da liberdade, vida e direitos alheios.
Espero um dia poder ligar a televisão pela manha e não ter a sensação de desilusão que me faz afirmar com lamento: “Este mundo esta no fim.” Afinal, o mundo não vai acabar. O que esta no fim é a paciência de alguns, a esperança de outros e a certeza de punição dos bandidos da nação, quer eles usem ternos importados ou roupas sujas.

Cláudia de Marchi

Concórdia, 23 de maio de 2007.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Das vestes do herói às ilusões humanas

Das vestes do herói às ilusões humanas

Muito interessante o filme “Homem Aranha 3” Conflitos interiores dentre outros assuntos interessantes são abordados no filme que toca, que “chega” ao íntimo das pessoas por falar de coisas humanas: de defeitos humanos, de enganos, de mancadas, de problemas raros e corriqueiros. De frustração, por exemplo.
Ainda que conte a história de um super herói, o filme trata do lado humano, e não supra-humano do personagem principal e dos demais, logicamente. Heróis ou não, com super-poderes ou sem eles, todos são mostrados como indivíduos passiveis de erros, mesmo na busca pelo acerto, como é o caso do homem que se torna areia. Este eu apelidei de “Homem Areia”, e, confesso, simpatizei com ele.
“Ele” é o ladrão que acabou cometendo homicídio por medo, pavor e vergonha. Por estar num lugar que não desejava, fazendo o que jamais sonhara- roubando- para salvar a filha doente. Gostei mesmo do “Homem Areia”.
O até então jovem e simplório “aranha” descobre uma nova roupa feita de um material que lhe faz sentir mais poderoso. Que, de uma forma simbiótica se alimenta de seu orgulho e presunção, alimentando nele as ilusões de tais sentimentos. Como uma provação à força interior do herói o material daquela roupa lhe perseguiu e, num momento de fraqueza, se apoderou de seu corpo lhe dando o calor do auto-engano.
A roupa faz do Homem Aranha já um pouco “convencido” por se sentir uma “estrela” nova-iorquina um cidadão insuportável, demasiado orgulhoso por seus poderes. Um homem banal, tolo de tão auto-suficiente e egoísta.
Pois bem, ainda que não sejamos super-heróis americanos, praticamente invencíveis e imortais, esta máscara, ou melhor, as “vestes” do orgulho e da presunção estão ai, correndo atrás de nós para que as vistamos e vivamos uma vida cheia de arrogância e presunções, mas solitária, vazia, sem amor, sem carinho, sem estima alheia, sem auto-estima.
Uma vida calcada na ilusão de que somos superiores aos outros, logo uma vida sem sentido algum. O filme, porém, mostra que mesmo que estejamos imersos na crença de que somos mais poderosos, mais belos, mais ricos, mais fortes, mais competentes que os outros, palpita em nós uma semente do bem.
A semente da humildade que nos possibilita a auto-análise e a constatação de que estamos vivendo uma vida real baseada em idéias surreais. E, é através dessa semente, fertilizada no solo de nossa consciência, que podemos, sempre, mudar.
Basta, pois que queiramos deixar para trás nosso orgulho e todas as idéias ilusórias que nos levam, apenas, para o caminho da dor e da solidão. Ninguém agüenta pessoas egoístas e arrogantes. Nem elas mesmas, basta que dêem um pouco de espaço para sua consciência lhes falar.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 16 de maio de 2007.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Reclamações vazias

Reclamações vazias

A gente chora com a barriga cheia porque não sabe o que é te-la vazia. A barriga, os mais atentos sabem, é apenas uma forma de expressão. A gente chora mesmo tendo boa saúde e força, mesmo tendo um amor, uma família que, mesmo imperfeita, nos ama da sua forma, ainda que nem sempre esta maneira nos agrade, mas eles nos amam. A família é o berço de nossa imperfeição e fonte geradora de muitas mágoas, mas é um lugar onde o amor sentido pelos imperfeitos costuma vicejar.
Viver é conviver com o desagrado sem esmorecer, desistir ou se abater. Todavia, deveríamos assumir uma postura mais respeitosa perante a vida e as dores que estamos sujeitos a ter e que outros, muitas vezes, estão enfrentando. Esta postura implica em analisar a realidade dos que sofrem por motivos realmente graves e calar nossa boca acostumada a reclamar em demasia e a agradecer pouco às benesses que a vida nos deu.
Esta semana fiquei sabendo da morte de duas pessoas conhecidas. A de uma bela jovem de 26 anos e a de uma mulher, igualmente lindíssima e inteligente com mais de 50 anos. Ambas, pela mesma causa. Da mesma maneira fiquei agoniada ao saber que uma prima mais do que querida pode ter o mal que levou as duas mulheres conhecidas.
Enfim, em meio a tantas misérias realmente graves, - num mundo onde basta olharmos para o lado para vermos pessoas perdendo quem amam, mães enterrando filhos vítimas da violência, filhos enterrando pais adoecidos que desejariam ver seus netos crescerem, para vermos seres que não tem o básico para bem viver, que dormem ao relento, que mechem em lixos buscando comida- a gente ousa reclamar.
Como temos coragem para reclamar, do alto de nossa boa saúde, embaixo de nossos cobertores quentinhos onde dormimos cientes de que quem amamos dorme no quarto ao lado, ou ao nosso lado? É preciso ter uma infeliz coragem para reclamar da vida quando se tem apenas probleminhas contornáveis, enquanto outros não têm para comer o resto do que guardamos para nossos cães ou deixamos estragar na geladeira.
Se olharmos para os lados com o coração aberto veremos que existem aqueles que não tem carro, aqueles que não tem motocicleta ou uma bicicleta para andar. Existem, também os que não possuem dinheiro para comprar passagem de ônibus. Mas, também há aqueles que não podem andar. Enfim, sempre existirá alguém numa posição mais pesarosa, mas que, às vezes não deixou de perder a fé e o humor nesta vida.
Precisamos aprender a olhar para os lados e a agradecer todos os dias pela saúde que temos, pelas pessoas que Deus colocou em nossa vida, por aqueles que nos estimam e amam. Quem não acredita em “Deus” que mostre sua gratidão através de sorrisos, e de demonstração de afeto perante a vida. Nós estamos bem, muito bem. Sempre existirá quem esteja melhor, mas, uma grande maioria, que esta em situação muito, muito inferior a nossa. Então vamos nos calar, se não tivermos nada de bom para falar.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 15 de maio de 2007.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Aceitação

Aceitação

Todo homem tem dificuldade para aceitar a não aceitação alheia de sua personalidade, dele enfim. Todavia é uma realidade nessa vida: É impossível ser querido, bem quisto ou admirado por todos.
Sempre vão existir aqueles que, por um motivo ou outro, ou, simplesmente, sem motivo algum vão nos criticar e, quiçá, desdenhar. Todavia, as pessoas têm a importância que nós damos a elas.
Ninguém é importante, ou especial, ao menos que nós lhes dê importância, ao julgando relevantes suas idéias ou opiniões. Logo, depende de nós nos deixarmos abalar ou não com a opinião de certos indivíduos à nosso respeito.
Nem Cristo foi acreditado e querido por todos, não existe como nós desejarmos que as pessoas nos aceitem, ao menos que estejamos muito longe da sanidade, da realidade do mundo, portanto. Mas, é, sem dúvida, difícil aceitar nossa não aceitação alheia quando não vemos motivo para ela.
Viver, porém, é uma escola na qual estamos em constante aprendizado, e aprender a não dar importância para o que pensam aqueles que não nos querem bem é uma lição que devemos ter se quisermos ter harmonia psíquica e espiritual em nossa existência.
Vamos valorizar quem nos dá valor e as opiniões de quem nos quer bem, porque apenas estes devem ter importância em nossa vida. Para aqueles que nos criticam, tendo ou não justificativa para tanto, o melhor a fazer é ignorar.
As pessoas deixam de existir, e, consequentemente de ter importância e nos macular a paz quando passamos a ignorá-las. Deixar de lado, ignorar, enfim, é uma forma que temos de deletar, de “matar” de nossa vida quem não nos gosta e, consequentemente, não merece nossa estima. A vida é curta para perdermos tempo com tais pessoas.
Vamos estimar, valorizar, acarinhar, amar e dizer o que sentimos (enquanto temos tempo) para quem nos admira e nos aceita como somos. Viver bem é saber a quem devemos dar importância e estes são, sempre, aqueles que nos estimam. Os outros, já que respiram e existem, devem, ao menos ser excluídos de nossa mente.

Cláudia de Marchi

Concórdia, 09 de maio de 2007.


segunda-feira, 7 de maio de 2007

Desconfortos existenciais

Desconfortos existenciais

Existem momentos em nossas vidas em que paramos pára pensar, ou porque algo nos descontenta, ou, simplesmente, pensamos em algo e nos sentimos descontentes. Mas, de fato, a ordem das ocorrências não altera seu produto- uma imensa sensação de que, como peças em um jogo, fomos colocados no lugar errado, fazendo funções que não seriam as nossas.
Todavia, (ora, ora) por algum motivo estamos aqui: Nesta vida, fazendo o que escolhemos, independente das contingências que influenciaram nossas opções, afinal, em algum momento tivemos plena convicção do que desejávamos e do caminho que queríamos trilhar. E, então, porque agora nos sentimos perdidos? Simplesmente porque o baile não esta como desejamos.
Independente da educação, do sofrimento e do aprendizado que o homem teve em sua vida todos te m em comum uma característica - em menor ou maior "grau" todos são contentes quando "tudo" esta bem. Percalços, dificuldades, e enfim, outras "cositas" que diminuem sua sensação de prazer (ou a esperança de tê-lo), bem como seu orgulho, o torna vulnerável a sensação de desconforto, enfim, ao descontentamento com sua vida, seja ela profissional ou afetiva.
O homem tem uma grande frustração- o fato de ser humano. De ser errante, de não ser Deus, e, portanto, de não poder lograr êxito em todas as suas pretensões, de não ter podido, no passado prever o presente, e no hoje saber como será seu amanha. Esta sensação causa ansiedade que, por sua vez, como uma pequena pulguinha na roupa de uma pessoa grande, começa a causar um imensurável desconforto. Um desconforto desproporcional em relação a força que, mesmo sendo errante, o homem possui e precisa para, nos momentos de dúvida e incerteza, resgatar a alegria de ser quem é, fazer o que faz e viver como optou por viver.
Portanto, para viver bem e ser feliz na maior parte de seus momentos o homem tem que aprender a reviver: A reviver sensações e esperanças, a pensar hoje naquela motivação que teve para colocar-se onde se colocou, e, assim, imergir-se em fé para continuar buscando, lutando e vivendo, da forma mais contente possível consigo mesmo e com as decisões que outrora tomou. Desistir, jamais, mas, adaptar-se é uma questão de sobrevivência. E um fator de inteligência para quem não quer ter uma vida frustrada.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 07 de maio de 2007.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Os interessados na vida alheia

Os interessados na vida alheia

É incrível como algumas pessoas possuem interesse na vida alheia. O interesse é tanto que às vezes me parece que estão mais preocupadas com a forma de viver, sentir e pensar dos outros do que com o seu próprio. E é, infelizmente é verdade tal fato.
São pessoas frustradas, covardes e invejosas que não possuem vontade de olhar para si mesmas, não possuem sequer coragem para encarar seu íntimo que, como o de todos e mais ainda do que o dos que criticam, é imperfeito e errante.
Graças a este tipo de ser que o mundo não evolui, afinal uma forma de cada ser humano contribuir para a melhora do mundo é melhorando-se a si próprio. Ora, mas quem vive para apontar os defeitos alheios, para criticar a vida alheia, possui alguma utilidade? Infelizmente não. Neste conceito de auto-aprimoramento em prol da melhora “geral” não.
A vida não é exatamente uma peça de teatro por faltar-lhe previsibilidade, mas, sempre existem alguns expectadores que passam metade de sua existência olhando, analisando, criticando e julgando a vida dos outros. Como se observar o mundo alheio fosse uma “profissão” acabam esquecendo de construir sua própria história e curtir sua vida.
Os outros são os errados. Os outros são os imorais. Os outros são os hipócritas. Os outros são os tolos. Os outros, na verdade, são os que vivem. Os que são astros em suas próprias vidas, e não meros expectadores e críticos do viver alheio.
Viver intensamente implica em muitos acertos, algumas mancadas e outros errinhos. Mas, é a vida, e, como diria Gonzaguinha, “é bonita e é bonita”. Feio é criticar à quem não se conhece, é julgar as atitudes alheias e a vida de quem esta vivendo. Bem, ou mal, esta vivendo a sua vida.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 04 de maio de 2007.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Indecentes

Indecentes

É incrível, mas indecência hoje em dia não é apenas sinônimo de cenas de amor picantes, de beijos indecorosos ou sexo despudorado. Indecente mesmo é a moral de algumas pessoas.
Indecentes são ministros venderem liminares, indecente é o agir de advogados ao se apropriarem do dinheiro de clientes, indecente é o roubo cometido por quem conhece a lei. Ética não se aprende na faculdade, ou se têm ou não. Vem de berço.
Indecoroso, imoral, indecente, inaceitável é um jovem de 17 anos que iniciou um roubo acabar matando duas pessoas e dizer que sabe que “menor não fica preso” (em presídio comum nem pelo tempo previsto para crimes cometidos por maiores de idade).
Indecente é alguns juristas acharem que a menoridade penal não deva ser diminuída num País em que crimes bárbaros são cometidos por menores de idade que possuem a crença de que sua penalidade é mínima. É, além de uma lei jurídica um preceito divino: “dar a cada um o que é seu”.
Ao bandido, jovem ou não, deve ser dada punição. Ao criminoso - ministro, ladrão de galinha ou colarinho branco - todas as penalidades necessárias para retribuir o mal que causaram à sociedade. Mas com justiça e coerência de forma que, aqueles que sabem o que fazem e o fizeram mais por ganância do que necessidade merecem ser punidos com mais rigor.
Nenhuma nação em que apenas os famosos “3 p” (pobres, pretos e prostitutas) vão para a cadeia pode crescer. A Justiça deve ser igualitária, sempre, obviamente, respeitando o trato diverso dentre os desiguais. Justiça? Judiciário? Onde foi parar a credibilidade da nação neste Poder que também se corrompe?
Não se sabe. “Sou brasileiro e não desisto nunca”, eis “a frase”. Acho que é preciso ser fé para ser brasileiro. Apenas por isso que não se desiste de votar, de ter esperança, e, obviamente de se recorrer e confiar no Judiciário. A gente tem fé, a gente tem esperança.
Guardo no meu coração a esperança de que não serei assaltada ao chegar em casa de táxi após voltar de uma outra cidade onde trabalho com esmero e honestidade, guardo a esperança de que o carro de meu namorado não seja furtado após 6 horas na frente de minha casa. Guardo, pois, a esperança de que existirá “justiça” nas decisões judiciais, se não em primeira, em segundas ou terceiras instâncias.
Enfim, enquanto houver fé no coração do brasileiro a gente supera a existência dessas pessoas indecentes, falsas, hipócritas e desonestas que querem fazer da nação uma imensa zona. Algumas vezes eu tenho certeza que o Brasil é um prostíbulo de 3ª classe, mas, em outras a fé no futuro e nas boas pessoas me faz mudar de idéia. E assim é a vida do brasileiro: um dia de descrença, seis de crença para poder dar uma risada no fim de semana e no final de cada dia (destes seis, é claro).

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 03 de maio de 2007.

CAROS LEITORES

AS QUATRO CRÔNICAS ABAIXO FORAM ESCRITAS ENTRE 2005 E 2006 E MOSTRAM UM POUCO DE MINHA INDIGNAÇÃO COM A CRENÇA CATÓLICA, SUAS HIPOCRISIAS E O "ORGULHO" LAMENTÁVEL DE ALGUNS "CRENTES" QUE FALAM NO "BEM" E, NO ENTANTO, FAZEM O MAL ATRAVÉS DE PEQUENOS (OU GRANDES) ATOS EXTREMAMENTE LASTIMÁVEIS.

Factorings e Igrejas

Factorings e Igrejas

Um amigo me disse que esta surpreso com a quantidade de factorings que abriu na cidade, além de financeiras e "afins". Eu, há tempos venho me surpreendendo com a quantidade de "igrejas", templos e, até mesmo, religiões que surgiram, além, obviamente do maior número de fiéis que as procuram.
Sem dúvida o dinheiro é uma necessidade, principalmente nos dias de hoje em que o supérfluo vem se tornando necessário, e as dívidas, conseqüentemente, se avultam de forma que recorrer a empréstimos de dinheiro é um "elixir" para um mal de causas confusas, contudo, óbvias quando se pára para pensar nelas.
Na realidade me preocupo muito menos com o aumento do número de factorings e financeiras do que com o aumento do número de igrejas, religiões e crentes. O que mais me faz lastimar no mundo, na verdade, não é o excesso de fé em alguém (em alguma religião, por exemplo), mas a falta de fé do homem em si mesmo, a falta de inteligência humana, a capacidade vã de acreditar sem questionar, sem refletir "sobre" o que lhe é dito, sobre a antinomia histórica, no agir e nas pregações dos "superiores religiosos" (e na religião em si).
O que mais me aterroriza não é ver o governo roubando, a caterva no senado (que o povo iludido- como sempre- elege). Mas é constatar que a sociedade acredita demais - Acredita nas falácias dos governantes, dos padres, dos pastores, dos "pais-de-santo", daqueles, pois que apregoam saber, conhecer mais, que pregam, que dizem o "agradável" para conquistar sua confiança, sua subordinação, para manter a tendência social-cultural de cultivo a letal "ausência de confiança do homem em si mesmo". Lastimo ir na missa e ver as pessoas com olhar vazio de crentes que acreditam mais no padre ou no papa do que em si mesmos.
Radical? Pode ser que eu seja. Racional?Sim, e muito, graças a Deus. Fé? Muita, em mim e em Deus. Não preciso de mestres, não preciso confessar pecados, eu os conheço e não os denomino como tais. São falhas, erros "demasiado humanos" (usando parte de título de obra de Nietzsche), que acabam por me ensinar algo válido. Vivo como cristã herege. Não rezo "Creio em Deus Pai", porque nele eu acredito, mas duvido muito da "Santa Igreja Católica" (Santa?).
(Ou de qualquer religião ou pessoa que não mostre ao homem quão forte ele é e que não lhe diz: "Antes de crer em algo, creia em você, antes de amar a alguém ou a algum Deus, ame a ti, antes de desejar respeito, respeite, antes de conhecer algo, conheça a ti mesmo e não deixe que ninguém te mande ou doutrine. Ame a si e a vida que estarás sendo grato à Deus, sem cantorias, sem exaltação, ser feliz é a melhor oração, respeitar quem lhe cerca o maior sinal de amor à divindade.)
Se todo o homem acreditasse em si mesmo, estudasse a história, questionasse, fosse livre, mentalmente liberto de dogmas, de ensinamentos inúteis que serviram para domesticar seu cérebro, certamente seria "perigoso". Pensar é um perigo, questionar é uma afronta, ao governo, ao Poder, a Igreja, aos padres, aos pastores e demais "mestres" assim tomados porque o cidadão não vê que a sua mente deveria ser seu melhor guia, e a busca pelo conhecimento, a leitura e o estudo seu mais rico caminho. (E que venha a fogueira: sou perigosa - herege sim, "graças ao Senhor!").


Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 18 de abril de 2006.

Sexo, padres e pecado

Sexo, padres e pecado

Como se não bastasse eu ter assistido uma missa de bodas sexta, sábado à tarde dormia como um anjo em minha agradável caminha para descansar para a formatura de uma prima, quando fui chamada a ir na minha vó paterna, ao lado de minha residência, assistir uma missa particular que meu tio (irmão da minha avó) iria realizar, como não me restou outra opção fui, e para me animar ainda mais, tive que fazer uma leitura que falava sobre a imoralidade dos "fornicadores" que ofendem a Deus. Em seus comentários meu tio disse que "é claro que o sexo no matrimonio é sagrado", mas a falta de pudor, as seduções, são ofensas a nosso corpo que é "divino".
Eu, de acordo com suas explanações, seria uma herege imoral, amoral, indecente, e pecadora, fadada a arder nas chamas quentes do "inferno católico". Oh, caros padres, me sinto elogiada e envaidecida com tais qualificações, porque, para mim, imoral e indecente é o orgulho, a arrogância, a prepotência, a falsidade, a ganância cega (falando nisso, não foi a ganância da Igreja que vendia "indultos" aos pecadores que revoltou Lutero?). Enfim, com tantas coisas ruins no mundo afora, estaria Deus preocupado com o que eu faço entre quatro paredes (ou ao ar livre)? Creio que não, ao menos que se trate de uma "divindade" recalcada e com problemas sexuais, que tem inveja daqueles que possuem um desempenho sexual "informal".
Existem várias pessoas "papa-hóstia" que saem da missa para falar mal da vida alheia, daquelas criaturas alegres que fazem de seus corpos e vida o que bem entendem, mas vivem honesta e dignamente, existem as que vão a missa dar dinheiro para "obras" para serem chamadas de "boas pessoas" enquanto desfilam seus trajes arrumadinhos e, na primeira oportunidade, criticam, falam mal pelas costas enquanto tratam pessoalmente, que são preconceituosas, discriminadores e falsas. Se Deus existe ele não precisa de representação (aliás, como advogada gostaria que o Vaticano e o Papa me mostrassem a procuração do Arquiteto do Universo para que ele o represente), se existe o perdão ele é obtido sem precisar de confissão, mas nunca sem uma pena terrena em contra-partida.
Deus inventou o homem e a mulher e seus sexos, deu ao homem a inteligência e, conseqüentemente, a criatividade, então, a "imoralidade" foi uma conseqüência da criação divina, vez que se liga a mente criativa do ser humano. Detesto a palavra pecado, detesto a palavra "perdão" que os papa-hóstia adoram falar. Existe o erro, existe o perdão, mas existe a lei universal da ação e reação, Deus perdoa, mas faz o homem pagar pelos seus erros, ainda que reze o "terço" 15 mil vezes por dia, e esta é a graça da vida, é ver o orgulhoso e arrogante se humilhar, o rico ficar pobre, a beata solitária, rezando 70 pais-nossos porque pensou em segurar na mão algo que não seja um rosário, orando e visando o perdão para tal fato sem refletir sobre as 30 pessoas que criticou durante o dia como se fosse um ser humano superior.
Amoral e indecente é o orgulho, o egoísmo, é não saber respeitar as diferenças, e, respeitar o outro é amar. Quem critica, quem não tolera pessoas de outras crenças, cores e classes sociais não respeita, não ama, fala de um Deus que desconhece, lê uma bíblia que não compreende, escrita por indivíduos humanos, e, portanto passíveis de erro. Jesus nada escreveu, quem o fez foram indivíduos que puderam deturpar suas palavras conforme seus desejos. Bom é aquele que "não faz para os outros o que não deseja que lhes façam", este é o único e maior mandamento.
Trair é pecado, sexo não.Ignorar as pessoas, criticar os "diferentes", maldizer os semelhantes, é falta de respeito, de amor no coração, fazer sexo anal, oral ou seja o que for não é.Não ter amor próprio é errado, confiar em si mesmo não, afinal, o maior sinal de amor ao criador é o amor a criatura, a nós mesmos, e aos outros, que demonstramos através do respeito.
Então, caro padre, me desculpe, mas não sou eu a "fornicadora pecadora", mas as celibatárias pudicas que trazem o mel na boca e o fel no coração, que comem hóstia e vomitam orgulho e prepotência, que rezam pedindo perdão mas não mudam, não se aprimoram, e ignoram que o inferno é onde estão aqueles que pagam as maldades que pensam e fazem, e que ele não é abaixo da terra, mas aqui mesmo ("senão nesta, numa outra, todos pagam" como diria minha tia), estas sim erram, e se pecado existe, são estes os seres pecadores, os que fazem aos outros o que não gostariam que eles lhes fizessem.


Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 16 de janeiro de 2006.

A fé narcisista

A fé narcisista

Assim como as crianças precisam de "limites", nossos sentimentos, nossos gostos, nossa forma de ser e pensar necessita de moderação sob pena da razão ceder lugar ao exagero cego e tolo, que demonstra quão estúpidos podemos ser. Até mesmo as virtudes dentro de sua nobreza necessitam ser moderadas, posto que tudo o que ultrapassa certo limite torna-se algo problemático. O mesmo ocorre com a fé, com a religiosidade que, em demasia, demonstra a ausência de racionalidade proveniente do pouco auto-conhecimento e estima por si mesmo do individuo.
Em um de seus aforismos Nietzsche diz que é preferível ser muito cético do que muito crédulo. Analisando as condutas dos "crentes" (aqueles que crêem em algo com convicção) percebo que o filósofo não estava errado, pois verifico quão "sem razão" se torna a análise que fazem da vida e suas contingências, a irracionalidade lhes levam a uma visão maniqueísta do mundo, em que, de um lado encontra-se o bem e do outro o mal e que eles, logicamente, encontram-se inseridos no bem, sendo, via de regra, perseguidos pelas maldades alheias. Enfim, passam a crer que todo bem provém de sua "fé" e todo mal é oriundo de outrem, de magias, de existências sobrenaturais, enfim, eles nunca são ruins, os crentes crêem-se perfeitos, ou quase perfeitos, porque são "humildes em sua fé", resignados como um rebanho de ovelhas.
A palavra "religião" significa "re-ligar", re-ligar o homem a Deus, ocorre que a fé irracional, demasiada, exagerada acaba afastando os homens que fazem de sua crença motivo de discussão, pois precisam da concordância de quem lhes cerca, o que demonstra que nada existe de humilde na obstinação religiosa que precisa da concordância e de aplausos alheios. O homem mais sábio que já encarnou nesse mundo- Jesus Cristo, pregava a importância da união, do amor e respeito entre as pessoas não lhes obrigando a crer naquilo que dizia, não impunha sua fé, era brando, pacifico e não irracional e narcisista como certos crentes.
A fé narcisista quando se depara com o espelho conclui: "não existe crença melhor que a minha,fé maior e mais bela, religião mais correta". Eis o orgulho do crente, que tentando se religar a um ente invisível afasta-se de si mesmo, afasta-se de quem lhes cerca imerso em obstinação. A racionalidade esta na auto-análise, na sapiência demonstrada com a consciência de que se alguém é culpado por algo somos nós mesmos, com nossas fraquezas, com nossos pensamentos negativos, que são unicamente nossos, e não provenientes de influências exteriores que, ainda que existam, não iriam nos abater se nós não fossemos defeituosos e fracos.
Humildade é conhecer a si mesmo, humildade é saber de seus defeitos. Coragem é esforçar-se para mudar, sem culpar aos outros, pois corajoso é aquele que se confessa consigo mesmo, que consegue se analisar da mesma forma que analisa aos outros. Auto-questionamento e duvidas, é sinal de racionalidade. Quem em tudo acredita, demonstra que não reflete e como os bois do filme "Abril Despedaçado", terminam repetindo o que lhes foi ordenado e ensinado (porém, pelo que sei, boi não pensa).
Não se encontra na crença o que não se possui no coração, não é sendo devota que uma pessoa se torna melhor, é se auto-analisando que se evolui, não é rezando terços nem se confessando que se é perdoado, não é dando oferendas que se colhe louros ou que se protege contra algo. Basta que saibamos que a força esta dentro de nós, e que, se quisermos cresceremos e seremos mais felizes, desde que saibamos respeitar a nós mesmos e aos outros. Um elo pequeno separa a fé do fanatismo, a humildade do orgulho, o amor próprio do egocentrismo, a loucura da sanidade, e esse elo se chama razão, sem ela até o amor se mostra ensandecido, e a descrença vazia se mostra menos nociva do que a crença dos obstinados que a ela se dedicam para fugirem de si mesmos.


Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 17 de outubro de 2005.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Descobrindo-se

Descobrindo-se

Descobrir “porquês” não é difícil, o duro mesmo nessa vida é superar as barreiras, os problemas que aqueles causam. E ir adiante, encarar, enfrentar e deixar para trás os óbices que nos atravancam a vida é fundamental. E isso depende exclusivamente de nós e de nossa força de espírito, e de vontade, é claro.
A gente leva um tempo, mas “descobre” o “por que” somos o que somos, agimos desta ou daquela forma. Querendo, podemos até custar, mas um dia, enfim, nos encontramos: enfrentamos-nos, e conseguimos nos ver sem hipocrisia ou máscara alguma.
E, assim, percebemos quão errantes somos. Vemos como podemos ser orgulhosos, egoístas e astuciosos. Como diria meu poeta preferido, Fernando Pessoa, percebemos nosso lado vil “no sentido mesquinho e infame da vileza”. Todavia, constatar defeitos e falhas de caráter e criação (todos as temos) implica no surgimento de uma vontade. Da vontade de mudar, de se aprimorar.
É orgulhoso o homem que diante de si mesmo e dos defeitos que possui não deseja supera-los e, assim, superar-se. Aceitar-se é salutar, mas acomodar-se em relação àqueles que nos impedem de ser pessoas melhores é sinal de covardia, egoísmo e orgulho. É, pois, algo típico do ignorante de espírito.
Eis que, o caminho para a mudança envolve a superação de obstáculos, de mágoas, de pensamentos e “frases feitas”, de idéias encalacradas em nossa mente por nossa educação, e, enfim, envolve a evolução pessoal manifestada na diminuição e superação dos tais “defeitos”.
Se relacionar, deixar-se envolver pelo outro, analisar suas opiniões com a mente e coração abertos é uma excelente forma de constatarmos onde estão nossos erros. Da mesma forma, é se relacionando e exercitando constantemente o amor à vida e a paciência que conseguiremos deixar para trás todos os obstáculos que desejamos superar.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 02 de maio de 2007.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Recriar-se

Recriar-se

Se até uma certa idade, enfim, até uma certa “fase” de nossas vidas somos criados, educados por nossos pais, a partir do momento em que somos capazes de nos auto-avaliar adquirimos a capacidade de nos auto-recriar.

Nossos pais pecam, muitas vezes pela falta de atenção, de carinho, de amor, e outras pelo excesso de mimos e proteção. Como filha única fui “vítima” da segunda forma de agir na educação que acabou criando, para mim, vários problemas para enfrentar a vida.

Mas o tempo passa e a vida coloca em nossos caminhos pessoas que nos alertam, nos coloca diante de dificuldades e ansiedade interior que nos obriga a parar pára nos auto-analisar e perceber que, infelizmente, durante muito tempo estávamos vendo nossas virtudes e valor com uma lupa de alto grau.

A vida ensina. O tempo é sempre o melhor remédio para os males de nossa alma, não pelo fato dele passar, mas porque nosso viver esta em constante mutação e, quando nos rendemos à ele, percebemos as oportunidades de mudar que nos são colocadas à frente.

Essa é a maravilha da vida em sociedade: Todos têm o que aprender uns com os outros. Absolutamente todos. Não existe ser humano que não tenha lições a aprender com o outro, bem como algumas para ensinar. Conviver, interagir, escutar e, principalmente, ser paciente são as melhores formas de crescer como pessoa nesta vida.

Somos criados, educados por pessoas imperfeitas. Imperfeitas como nós. Nossos pais não são deuses. E assim, todos possuem algo de “má-criação” ante a mencionada ausência de perfeição de quem os educa. É por isso que, após um tempo somos obrigados a nos recriar, a nos auto-avaliar para buscarmos a mudança, para mudar, enfim. A “culpa” não é de nossos pais. Não é de ninguém, pode ser, apenas, nossa.

A partir do momento em que percebemos quão prejudiciais são os defeitos que possuímos devemos buscar um outro caminho, buscar nossa mudança, ainda que para isso precisemos da ajuda alheia. Recriar-se é dever do homem corajoso e humilde de espírito. Errar é humano, ser e estar errado também, mas manter-se no erro ciente dele é prova de ignorância e indício de arrogância.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 27 de abril de 2007.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Momentos da vida

Momentos da vida

A vida é composta de vários momentos. Momentos bons, ruins, agradáveis, tristes. Dias ruins, dias de confusão mental, de tristeza. Momentos em que nos sentimos sós no mundo, momentos em que nos sentimos tão plenos de felicidade que não cabemos em nós mesmos.
Essa é a vida. Cheia de surpresas, de altos e baixos como um as ondas de um eletrocardiograma, afinal nosso coração varia em suas vibrações, tal qual nossa existência. Tudo se torna linear quando nada mais existe a conquistar. Quando morremos.
Muitos dizem que certas circunstancias aconteceram em suas vidas no momento errado. A balzaquiana no auge da carreira diz que conheceu o amor de sua vida numa fase que não estava interessada em nada sério, como casamento e filhos. Agora, sente que deixou passar “o momento”.
Talvez. Talvez ela tenha deixado passar a pessoa que lhe faria feliz porque esperava um momento em que tudo estivesse adequado - conta bancária, sucesso e amor. A felicidade não tem receita e também não requer nenhuma “adequação perfeita”. Aliás, o imperfeito é a regra na nossa existência.
Momento ideal? Se ele existe é o presente. O passado deixou lembranças, trouxe aprendizado, crescimento pessoal, o futuro depende de nossa atitude, e, em especial de nosso agir e bem viver presencial. Ele é um mistério, o hoje é realidade, e o momento ideal, portanto especial, é o real.
Se a vida profissional esta confusa e a afetiva não, tente curtir bons momentos ao lado de quem ama. Se a vida afetiva esta tão vazia que dá para sentir um vácuo no peito, tente dar mais atenção à carreira, mas nunca esqueça que não existe felicidade compartimentada. As realizações podem ser cindidas, a felicidade requer um conjunto.
O hoje é o melhor momento para desabafar, para dizer o que sentes a quem lhe cerca, para dizer o que gostas ou não. Para dialogar, para colocar a casa de nossos pensamentos em ordem, para esclarecermos nosso sonhos e medos. Nada como um dia de cada vez. Mas dias bem resolvidos. Bem vividos. Dias e momentos intensos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 26 de abril de 2007.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

A curtição

A curtição

Gente desprevenida no domingo à noite sem um livro bom em mãos, um calmante para dormir ou um bom filme para assistir se entrete com o Fantástico e suas "pérolas". Fernanda Lima, linda, simpática, elegantíssima apresentou, ontem, um quadro falando do comportamento dos jovens na noite. E que comportamento, para ser mais estúpido só faltava que nossos "jovens" (pessoas com 25, 28 anos não são tão "jovens" assim no meu ponto de vista) andassem de quatro.
E não andam, infelizmente, se andassem estariam, ao menos mostrando a irracionalidade de forma mais notória. Homens, mulheres que saem para "curtir" a noite. Curtir significa beijar, fazer sexo ao "primeiro" encanto, enfim, no primeiro encontro. As mulheres, segundo eles, são as "predadoras", segundo elas são as mais "decididas".
Para mim são todos seres distantes da coerência, estão distantes da auto-estima madura, da lógica que deve viver um individuo que se valoriza. Beijar, beijar e beijar. Eu, pessoalmente, não lembro de ter achado meus fartos lábios no lixo. Tampouco o corpo para vilipendia-lo após uma bebedeira, ou não. Aliás, nunca bebi quando saia à noite, ao menos nunca para ficar tonta.
Saia para dançar, ver gente, elevar a auto-estima vendo a grande maioria das mulheres se comportar de forma ridícula.Não sou hipócrita, portanto afirmo: Observar o comportamento tolo das moças que pouco se valorizam me causava um enaltecimento pessoal, pois me via como exceção, após, me dava pena, muita pena.
Não muito diferente era meu pensamento em relação aos homens. Sempre gostei de homens reservados, daqueles que ficam sozinhos, observando à tudo e à todos, homens seletivos que jamais ficam com as "faceirinhas" das festas, aqueles que saem para se divertir, espairecer e que, por isso, não habitam boates como pudins em mesa de família no domingo.
A linda Fernanda perguntou com seu agradável sotaque gaúcho: "Será que a juventude se perdeu?". Sinceramente, espero que não. Não por completo, porque a base que são os valores e a estima pessoal perderam-se em alguma curva e não foram mais encontradas. Ser solteiro virou sinônimo de beijar todo mundo, de fazer sexo com quem se quer.
Ora, mas, segundo a reportagem uma pesquisa indicou que as jovens até 25 anos não tiveram mais do que 4 parceiros e que os mesmos foram namorados. Pesquisas que envolvem perguntas e respostas são falhas. Mulher nenhuma admite que transou de primeira, que teve 14 parceiros e não 4. Basta observar atentamente o agir feminino nas festas para se constatar que tal pesquisa não demonstra resultado coerente.
A verdade é que sexo não é mais tabu, a liberdade virou libertinagem, as mulheres expõe orgulhosas seus corpos como se fossem o melhor pedaço de picanha para o açougueiro mostrar dependurado em seu estabelecimento. Foi-se os tempos do pudor, da beleza elegante, das roupas chiques. Eis o momento da barriga de fora, em que as saias parecem blusinhas mais longas.
A elegância cedeu lugar à vulgaridade, o galanteio dos homens cedeu lugar à porres homéricos. Os homens deixaram de valorizar as mulheres que, para eles, se tornaram "coisas substituíveis" e nesse hábito de mal julgar as boas mulheres vão se irritando, porque mulher decente merece e quer ser estimada, apreciada, valorizada. É díficil ser exceção nesse mundo de maiorias.
Não existem mais gentleman mas seres embriagados olhando suas presas sem ter, sequer, a capacidade de estabelecer um diálogo porque a embriagues os impede. Por trás de tudo esta a falta de amor. Falta de amor próprio, carência: falta de ter a quem amar. Assim as mulheres caem em qualquer trova, e os homens se jogam em qualquer cama, com qualquer uma.
Preservativo? Nem sempre. E a Aids continua, filhos indesejados nascem sem culpa alguma da irresponsabilidade de seus pais, e a vida vai seguindo este rumo tragicômico para seus atores principais- serial kissers e afins. Deveria existir uma "camisinha" mental, que funcionasse como um aditivo de razão ao cérebro do homem que, de racional, às vezes só tem a caracterização teórica. Na prática, o homem vem agindo como animal.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de abril de 2007.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Quem "gosta da gente"?

Quem “gosta da gente”?

Quem nunca parou para pensar se aquele colega simpático não “gosta da gente”, se a moça da empresa não “gosta da gente”, que alguém, enfim “gosta da gente”. Mas, não aquele “gostar” assim, sem graça, como quem gosta de maionese com pizza e queijo com polenta.
A maior, mas a mais pura, a mais compreensível, a mais intrínseca das “ambições” que o homem carrega em seu coração é a de ser amado. É a de ser “gostado” como se fosse o único ser a despertar tal sentimento em alguém de forma a se tornar inesquecível em sua existência.
Ensandecedor, no entanto é quando a gente não “sabe” se a pessoa que esta a nosso lado, realmente nos ama ou corresponde. Por outro lado, como é enaltecedor, como é bom saber, sentir, perceber que somos amados. Basta que reparemos a alegria de um filho quando o pai o abraça, consola e beija. Os olhos brilham, as pernas balançam, a alegria comove.
O homem nasceu para ser amado. Foi criado para o amor, mas ele mesmo se desvirtuou. Por privilegiar o trabalho, esqueceu da família, por privilegiar o descanso após a exaustão, esqueceu de dizer e demonstrar o quanto ama quem lhe esperava na volta da jornada laborativa.
A mulher deixou de lado seu aspecto maternal para “pegar junto” com o homem, e assim criaram-se pessoas carentes. E, principalmente, carentes da capacidade de dar o que não receberam - amor. Mas é inerente, esta implícito na alma humana, até mesmo o mais algoz dos bandidos se enternece com um abraço materno, com um ato de demonstração de afeto.
Existe uma longa distância entre o sentir e o demonstrar. E entre a correspondência de sentimento e sua certeza. Se algum enamorado esta falecendo nesse momento, em alguma parte do mundo, ele não esta se arrependendo de ter amado, mas de não ter dito o quanto amava sua esposa, por exemplo.
Se alguém, no momento chora num banheiro porque viu o ex-namorado com outra, não se arrepende do amor que sentiu, mas do carinho que não deu e das palavras ternas que não disse. Por medo? Medo de se expor? Por dureza de coração? Por receio, falta de hábito? Excesso de auto-confiança, egoísmo, orgulho?
Não importa a justificativa, quem sente tal arrependimento vislumbra algo semelhando ao do acidentado que vê “o filme” de sua vida passar em sua frente no momento terrível - não importam os motivos, as causas, mas as ações ou omissões que teve na vida.
Sei da história de um homem admirável que morava em cima de seu local de trabalho. Ele era mecânico. Desceu para consertar um veículo que acabou caindo sobre seu corpo e o matando, ali mesmo, embaixo de sua residência. Lá, em sua casa, ficaram 4 filhas lindas, uma dedicada esposa, e um filho que costumava brincar em seu meio e idolatrava o afetuoso pai.
Quando me contaram a história eu apenas pensei: “Será que ele disse o quanto amava à todos?”. Não sei porque, mas, na época era isso que me dava um frio na espinha. Jamais perguntei nada a respeito, mas se não disse, deve ter sofrido um pouco por isso. Porque ele os amava mais do que tudo no mundo, mais do que o patrimônio que fez, mais do que as possibilidades que poderia ter tido.
Se ele soubesse que aquilo iria acontecer, talvez, tivesse “subido” mais cedo para almoçar, e ficasse mais tempo brincando com os filhos, talvez elogiasse o bife que a esposa fez e lhe desse um grande beijo. Talvez. Provavelmente.
Essa história tocou meu coração de uma forma indelével. Se eu sempre fui carinhosa, ao ouvi-la aprendi quão importante é valorizar quem a gente tem na vida, e não o que a gente possui. Amar, amar, e mais amar quem nos ama, e não aquilo que temos e podemos até gostar, mas que os ladrões podem nos levar.
Todos daquela família dispensariam a riqueza, para ter aquele homem ao seu lado. É no amor que a gente vive, são nos atos amorosos que a gente se eterniza e não naquilo que deixamos. Vamos ver quem “gosta da gente”, pelos atos, gestos e palavras que eles nos demonstram. Se gostarem, certamente terão lugar especial em nosso coração, serão eternos para nós, e nós para eles, basta que amemos intensa e sinceramente.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 21 de abril de 2007.