Sobre o verdadeiro pecado!

Sobre o verdadeiro pecado!
"O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida." Carl Sagan

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A importância do sexo nas relações

A importância do sexo nas relações

Há alguns dias o programa dominical Fantástico mostrou um casal que, por idéia da mulher, resolveram fazer sexo todos os dias, durante um ano para salvar o casamento de 10 anos, com filhos. Apesar dos percalços, o plano deu certo e o casal conseguiu seu objetivo quer era criar mais intimidade, mas, seria válido tal meio para consecução de tal propósito? Creio que entre duas pessoas inteligentes, que se amam e sabem do que "carece" sua relação que esta prestes a ruir, qualquer atitude para reconstruí-lá é saudável, é sinal de sabedoria.
Sexo no casamento é fundamental, assim como respeito, cumplicidade, afeto, compreensão, parceria. Tudo funciona no sistema mútuo: O homem para com a mulher, a mulher para com o homem, é por isso que pessoas que querem apenas receber sem dar não conseguem estabelecer uma relação harmônica com ninguém. A regra para os relacionamentos afetivos é e sempre será: Não fazer e não dizer ao outro o que não deseja que o outro faça ou diga.
Sou da teoria que no início da relação entre casais novos - não considero muito 10 anos de casamento para quem ainda acredita que, existindo amor, respeito e parceria uma relação pode durar mais, ou até mesmo para sempre (falei outro dia que não acredito em amor eterno quando um dos parceiros acha que pode desrespeitar o outro, o que é regra neste mundo, mas como toda pessoa pretensiosa no que tange ao bom da vida almejo encontrar, ter e ser a exceção),- sexo corresponde a 80% do relacionamento.
No início as pessoas não se conhecem tão bem, costumam se desentender um pouco mais e o sexo com carinho estabiliza, acalma os ânimos e anima qualquer pessoa a ter um dia bom com um sorriso nos lábios, apesar dos inconvenientes de qualquer profissão. Com o passar dos anos, o diálogo, o afago, o "eu te entendo", o "vamos sair passear", o "fala que eu te escuto", passam a ter 70% de importância, e o sexo - que deve ser sempre bom- diminui bastante em importância.
É preciso compatibilidade não apenas de gênios, mas de alegria de viver, de vontade de fazer o relacionamento dar certo, de ânimo perante a vida, e, obviamente, para o sexo. Nenhum relacionamento pode dar certo sem o término ou sem casos extraconjugais quando um tem mais apetite sexual do que o outro. Mas as pessoas teimam, mais por hipocrisia do que por amor, afinal sua educação sempre frisou que sexo não é tudo, então, para que assumir sua real importância? Acabam aturando o outro, quiçá lhe traindo, mas não o deixam "apenas" por isso.
Mas sexo não é um "apenas", é um muito quando existe afeto, amor e respeito entre um casal. Ninguém agüenta viver com quem esta sempre desanimado, com dor de cabeça, ou qualquer coisa assim, não sem cansar, não sem pensar em trair, sem efetivar uma traição ou, o que é mais correto, sem dizer um belo "tchau". Isso, obviamente para quem não é hipócrita.
Deixo, pois minhas parabenizações a distância ao casal americano Charla e Brad Muller cuja inteligência emocional, sinceridade, despudor, parceria e falta de hipocrisia salvou seu casamento. O livro chamado "365 noites - Memórias de uma intimidade”, de autoria do casal, ainda não foi editado no Brasil, mas creio que sua leitura seja recomendável.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 03 de setembro de 2008.

Crise de novo solteiro.

Crise de novo solteiro.

Depois de algum tempo namorando ou casada a pessoa volta a vida de solteira e se depara com milhares de sustos, apesar da alegria de festas, novas parcerias, eventos, liberdade, novas amizades, quem gosta de ter uma companhia legal do sexo oposto acaba estranhando até mesmo as conversas dos "solteiros costumados", todavia, por ser seguidora do "antes só do que mal acompanhada", às vezes é necessário aproveitar a vida sozinha.
Ademais, com o passar dos tempos, com o aprendizado que todo relacionamento traz a gente se torna cada vez mais seletivo no que tange a novas escolhas. Se quando começamos a relação passada desejávamos esta ou aquela virtude do outro e da união, ao terminar temos uma outra a mais a exigir: Normalmente a que não encontramos no parceiro antigo.
Mas, enfim e a "crise de novo solteiro"? Sim, essa existe, em especial para quem não assimila bem os novos conceitos de relacionamento humano existentes por trás dos verbos: "Ficar", "pegar", "sair". (Seriam "relacionamentos" mesmo?). Tem gente que nasceu mesmo para "casar", não no sentido literal, mas no de ter apenas um alguém, sair passear com esse essa pessoa, conversar, compartilhar bons e maus momentos, fazer uma comidinha que mesmo sendo ruim o outro educadamente vai saborear, tomar um vinho, essas coisas.
Creio que não existam mais pessoas "para namorar" ou para "não namorar", existem, isto sim, pessoas que gostam mais de ficarem solteiras, sozinhas e outras que preferem ter uma companhia.
Existe até uma frase que me apavora: "Solteiro sim, sozinho nunca". Sozinho ninguém é, todos têm algum amigo, família, mãe, um animal de estimação, fé em algum ser extra-matéria, enfim. Solteiro é o estado civil de quem não é casado, e, em sentido amplo, o de quem não tem compromisso com ninguém. Esse "sozinho nunca", quer dizer que a pessoa tem alguma companhia para cama, para sexo, ainda que não tenha para um almoço, para um final de semana legal, nem tenha a liberdade de encostar a cabeça no ombro do outro e desabafar. É sinal de falta de coragem para bem escolher não apenas a quem namorar, mas com quem se deitar.
A moral da história é que ficar solteira me faz ver como é bom namorar e saber que se pode confiar em alguém, na sua lealdade e carinho.A questão é que depois de relações findadas, encontrar uma pessoa madura que tenha as virtudes que passamos a desejar após as frustrações pretéritas não é tão fácil.
Enquanto solteiro e sozinho é preciso se adequar a um dos grupos: O de quem esta solteiro e gosta ou o daqueles que estão, temporariamente, até encontrar alguém legal, afinal, quem procura fugacidade, a atrai, quem procura amor, um dia, também encontra. Como tudo na vida é uma questão de paciência, já me disse um amigo que as melhores maçãs estão no topo da árvore.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 1º de setembro de 2008.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O racionalizador



O racionalizador

Não precisamos ser psicanalistas para percebermos quantas pessoas vivem tentando racionalizar suas condutas e pensamentos. Racionalização é o ato do sujeito que tenta colocar dentro da lógica, da coerência, do que se pode ter como “justo” pensamentos e idéias que são, via de regra, o seu oposto.
O racionalizador é um chato por excelência, afinal fala e crê em absurdos, têm pensamentos e conduta egoísta, idéias tolas e egocêntricas e tenta apregoa-las como racionais e “acima de qualquer critica” não aceitando o pensamento alheio achando que o seu é certo, justo e coerente. Ninguém atura por muito tempo sua companhia.
Ele se torna aquela pessoa sobre a qual as pessoas comentam “não adianta falar nada para ele”, “ele precisa se tratar”. Quem é que agüenta o convívio com uma pessoa que não aceita opiniões diversas das suas sem criar cenas, que acha que seus pensamentos excêntricos, egoístas e presunçosos são corretos e inquestionáveis, que seu agir estúpido e grosseiro não merece defesa? Pessoas assim afastam de suas vidas quem lhes estima e continuam achando que as corretas e injustiçadas são elas.
O racionalizador para se defender, também costuma atribuir a outros forma de ser, pensamentos e sentimentos que não admite ter, possuir e sentir. Ele projeta no outro o que na verdade ele é, além de se valer da racionalização como mecanismo de defesa do ego passa a usar de forma excessiva a projeção.
O outro é o egoísta, o outro que quer se aparecer, o outro que quer ser o foco das atenções, o outro que foi ajudado e mimado em demasia, o outro que teve empreendimentos e vida afetiva fracassada: Ele é o forte, o imbatível, o insuperável, o bem sucedido, o poderoso, quando todos sabem que, na verdade, ele é o coitado que perde amores, amigos e o seu respeito sem perceber.
O racionalizador é aquele de quem as pessoas têm pena, aquele para o qual todos gostariam de dizer verdades duras, mas poucos se habilitam, simplesmente por acharem que não vale a pena perder seu tempo com pessoa intransigente, praticamente irracional que vive justificando com veemência suas mancadas, ainda que tripudiando dos outros e dos seus sentimentos, inventando histórias para se sentir mais forte, para se auto-afirmar.
Ele é fadado a morrer na solidão dizendo que a sorte lhe virou as costas, racionalizando, portanto, a dor de ser quem é, cruzando os braços para as possibilidades de mudança de vida para não dar o braço a torcer e mostrar que tem coração, sentimentos e, por ser humano, é errante como todos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 30 de agosto de 2008.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

As máscaras e o tempo

As máscaras e o tempo
Existe muita gente neste mundo que critica a vida alheia sem analisar as mazelas da sua, que pinta verbalmente a sua história com tinta colorida para omitir os fatos negros de seu passado, os erros, as fraquezas. Quanta gente, pois, por ser fraca fala que é forte, por ser vil fala que é especial, por ser de coração duro, fala que é bom e caridoso.
A gente só conhece as pessoas quando convive com elas, só podemos ter certeza sobre a bondade de alguém convivendo com essa pessoa, vendo sua forma de agir com quem lhe ama, com que esta perto dele, com a família, com as pessoas próximas. É fácil ser caridoso e bondoso com estranhos, ao contrário, é ser nobre com aqueles temos mais contato.
Todas as palavras de um homem, seu alto-enaltecimento, sua forma de, verbalmente se colocar no mundo, são inúteis diante da constatação do que realmente fez na sua vida para ser feliz. Um homem não é o seu presente e afirmações, o ser humano é, também, o seu passado, os seus segredos, as suas omissões.
A vida ensina e as máscaras caem com o passar do tempo. Uma pessoa pode se fazer de bondosa, pode dizer que é forte, mas, apenas com o passar dos dias a sua dureza de coração, a sua fraqueza de espírito ficará evidenciada. O tempo, é sagrado também para mostrar que as palavras não importam nada diante da conduta do homem. Condutas presentes e pretéritas.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 29 de agosto de 2008.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Antes do chega (!)

Antes do chega (!).

O término de um relacionamento dói mais para quem não deu todo amor que podia: A dor se liga a alguma forma de arrependimento. Aquele que, por amar, respeitou, fez o seu melhor para que a relação permanecesse e se mantivesse em harmonia, aquele que sabe quão bom parceiro foi (ou tentou ser), quando desiste da relação sai tranqüilo, ainda que com alguma mágoa.
Todo relacionamento frustrado deixa alguma mágoa, todavia, relacionamento bom é relacionamento presente, tudo o que se pode chamar de “ex” é porque não era bom, não estava à altura de nossos sonhos, ideais, anseios e sentimentos. Não era, pois o que desejávamos para nós.
Quando a gente se entrega à relação e o outro não, quando, de alguma forma ou por algum motivo nos sentimos traídos, quando a decepção surge com palavras mal colocadas, com atitudes tolas, com omissões e ingratidão, o amor, cedo ou tarde, evapora pelo ar.
Aquele que amou de verdade, que sabe o que fez para o bem da relação, ainda que frustrado pelo término se sente mais forte, de bem, ao menos, consigo mesmo. Sofre? Talvez, mas pouco, porque traz na memória a lembrança da falta de entrega, respeito, afeto do outro, ou, enfim, do que fez o amor ruir.
O sofrimento, muitas vezes, se dá antes do término, o fim de tal relação acaba trazendo alivio para o cansaço de um espírito que sofreu antes de ter coragem, antes, enfim, de decidir optar pela solidão.
Quem se entregou, quem se decepcionou com o outro, sofre mais no decorrer da relação, quando a decepção se realiza, de forma que o término do relacionamento se torna a salvação de seu coração, de sua própria alma que teve suas marcas antes do bendito “chega” (com direito a ponto de exclamação no final).

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 26 de agosto de 2008.

Não existe amor eterno (?).

Não existe amor eterno (?).

O tipo de amor que passa mais perto da possibilidade de durar para sempre diante de injustiças é o amor de mãe e por time. As mães perdoam as falhas dos filhos, até mesmo a sua ingratidão e brutalidade, de time a pessoa não muda mesmo tendo decepções, o respeito por ele permanece por toda a vida do homem.
Todavia, o amor entre duas pessoas que escolhem uma a outra para compartilhar seus dias, sua cama, sua mesa, sua vida não é eterno, via de regra, porque juntamente com a paciência, o amor tem limites ditados pelo amor próprio, pela auto-estima e auto-respeito.
Existem pessoas que querem o melhor do amor, o melhor da vida a dois sem colocarem seu coração na relação. Querem demais, e dão pouco, quase nada. O amor precisa de investimento de ambos os parceiros, na verdade ele precisa é que ambos se vejam como iguais sem que um queira se sobrepor ao outro, mostrar que é mais forte ou superior.
O que mata o amor é o orgulho, o egoísmo, é a desconsideração, a falta de respeito, de união, de cumplicidade, a falta de valorização do outro como ser humano que é.
Tem gente que não quer ser ofendido, desconsiderado ou ultrajado, mas se sente forte ao fazê-lo, e enquanto seu ego infla o amor do outro morre: Em busca da bijuteria do auto-enaltecimento ele despreza a jóia do amor e admiração alheios. Eterno mesmo diante de desrespeitos e ingratidões é amor de mãe, amor entre duas pessoas que querem viver junto depende muito mais de respeito mútuo, afeto e cumplicidade do que da vontade de ser feito eterno.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 25 de agosto de 2008.

sábado, 23 de agosto de 2008

Vontade de amar

Vontade de amar

Para manter um casamento, uma união entre um casal é preciso vontade de ficar junto, vontade de ficar ao lado do outro, além de amor é preciso força de vontade e boa vontade para viver o amor. Obviamente que o amor por uma pessoa faz com que mudemos, com que passemos a ceder mais, a compreender, a se colocar no lugar do outro, o grande problema é a banalização dessa palavra: Tem muita gente por ai que não ama nem a própria vida, nem a si mesmo, mas esta sempre disposto a dizer "eu te amo".
Li numa revista feminina uma entrevista com a atriz Cláudia Raia que esta casada há 15 anos com o colega Edson Celulari. Um casamento feliz entre duas pessoas que, além de se amarem e se respeitarem desejam ficar juntas, esta foi a resposta dela para explicar o "segredo" da união feliz. Hoje em dia, nos tempos em que as pessoas acham sexo e companhia em qualquer esquina nem todos cultivam essa vontade, as pessoas vivem a ilusão do "excesso de corpos", quando, na verdade, nesta grande confusão, há a ausência de alma, de essência, de sentimentos.
"Nem todos", é verdade, mas a maturidade trás sapiência e o homem sapiente sabe que sexo, companhia para grandes festas e porres não enchem a alma, e, assim, o homem que realmente, por se estimar é capaz de amar verdadeiramente alguém, lhe respeitando e admirando, não deseja apenas uma relação em que diante dos impasses e diferenças seja findada com um "não quer, vai embora, ache outra". Vivemos, lamentavelmente na era dos amores substituíveis.
A pessoa madura para se relacionar luta para manter o relacionamento, conversa, dialoga, expõe seus pensamentos respeitando os sentimentos do outro, e, junto com ele acha a melhor solução para os problemas, para as dificuldades inerentes a vida e a qualquer união, afinal, nunca existirão pares perfeitos, é preciso força de vontade, também, para o amor, para manter a união em clima de paz, de carinho e cumplicidade.
Ora, mas existem tantas separações? Sim, existem e sempre existirão porque a maioria dos seres é imatura, egoísta, e, principalmente, gozando as ilusões do mundo das facilidades, fugacidades e egocentrismo, lhes falta amor próprio, apreço pela própria vida, de forma que, para viver um grande amor em que o egoísmo é colocado de lado, em que a revolta cede lugar a paciência, respeito e compreensão, essa maioria é inapta.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de agosto de 2008.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A justiça da vida


A justiça da vida.

Pobre do homem que acha que sua ingratidão, soberba, egoísmo e crueldade com os sentimentos alheios passarão sem retorno nesta vida. Quer queiramos ver, quer não, a vida é justa e cobra do homem, pouco a pouco, hoje ou amanha, cedo ou tarde, o preço de seus erros e, principalmente de suas injustiças. É fácil para o homem ser juiz da vida alheia, apontar as feridas e as ações erradas do outro, difícil é sopesar na balança de seu julgamento os atos injustos que ele mesmo comete.
Injusto não é apenas o homicida, o sonegador de impostos, injustas não são apenas as decisões judiciais que nos contrariam ou todo aquele agir do outro que nos fere. Nós costumamos ser injustos, e muito. Somos injustos quando agimos com rispidez com nossos pais, nosso irmão ou com nosso companheiro sem que eles tenham nos feito algo para nos magoar, quando somos secos com que nada noz fez, quando xingamos o parente, o marido, o amigo ou o funcionário por pouca coisa ou nada, apenas porque estamos descontentes com algo que, talvez, eles nem saibam o que seja.
Tendemos a justificar: "Desculpa, mas estou indignado com tal coisa". Afinal, adoramos justificar a nossa crueldade, séria mesmo é a do outro, a nossa é sempre explicável. Somos como juizes algozes com o julgamento de nosso semelhante e como mães ternas e amorosas ao explicar nossas atitudes independente de serem cruéis e pérfidas.
Todavia, chega um dia em que a Justiça chega à nossa porta sem oficial de justiça, sem marcar hora nem local para nos mostrar que nossas atitudes injustas estão sendo cobradas. E é ai que nossa estupidez, nossa raiva mal descontada, nosso egoísmo, nossas traições da confiança alheia, nossa ingratidão com quem nos ama e auxilia e nossa soberba ao analisar o mundo ao nosso redor são purgados.
Tenho pena daquele que acha que pode tudo, daquele que crê que não será cobrado pelas suas más-ações. Cedo ou tarde a vida cobra o homem. Alguns chamam de Justiça Divina, de "pagamento de pecados", eu chamo de perfeição concretizada. No judiciário da vida ninguém sai devendo, ainda que pague em parcelas, seus erros são cobrados. É a vida, pois, demonstrando que ainda que o homem seja injusto, ela não é, e todo mal feito, toda ignorância, crueldade, todo pisar nos sentimentos alheios não passam em branco nela.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 20 de agosto de 2008.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pais e Filhos

Pais e Filhos
Levei quase 15 anos para entender o que o Renato Russo queria dizer na música Pais e Filhos: "Você culpa seus pais por tudo, e isso é um absurdo, são crianças como você". Muitas pessoas atribuem aos pais várias espécies de culpas: Não foram tão afetuosos, não dialogaram como deveriam, não ouviram quando precisava, não fizeram isso ou aquilo, exageraram aqui ou acolá. Não param para pensar que os pais fizeram o que sabiam, como podiam, tentaram fazer o seu melhor. Hoje somos filhos, amanha seremos pais, e será que seremos perfeitos? Será, pois que podemos criticar os nossos pais sem sequer sabemos como nós seremos quando tivermos os nossos filhos?A maternidade, a paternidade, não faz com que nos tornemos santos, com que passemos a saber todas as verdades do mundo, a melhor forma de agir com as pessoas. É isso que significa que nossos pais são crianças como nós, psíquica e espiritualmente são o que eram antes de se tornar pais, são, também aprendizes na escola da vida.Fato é que os pais amam seus filhos, fazem o que sabem visando sempre o seu bem estar, a sua alegria. Erram? Sim, bastante, mas sem desejar. Fazem algumas maldades? Sim, como todo ser humano, mas os erros, as mancadas, as surras, as palmadas, os gritos inapropriados, o exagero, nada afasta a existência do amor, do anseio por sua felicidade.As mães rezam pela felicidade dos filhos, querem o bem deles, muitas vezes, é verdade, querem o bem dentro do que elas consideram bom e correto, olvidando do desejo do filho, mas, ainda assim, para que critica-lá? Seu desejo é puro, é bondoso. Falta aos filhos a abdicação de egoísmo que todo pai tem. É por abdicar do egoísmo que um pai que, mesmo sem ter sido demasiado carinhoso na infância do filho, constrói um bom patrimônio para lhe deixar bem, lhe paga estudo, faculdade, lhe ajuda a montar um negócio. Ele poderia gastar consigo, mas prefere construir um patrimônio para deixar para o filho que, muitas vezes, não dá valor algum ao esforço do pai.Compreender que não se pode esperar dos pais a perfeição que não temos enquanto filhos é fundamental. Compreender que nossos pais foram criados em outra época e que o que fizeram condiz com o pouco que sabiam é uma atitude nobre. Culpar, criticar, malbaratar as atitudes dos pais é atitude do mais indigno, maldoso, tolo e egoísta dos filhos, que apesar disso é perdoado pelo pai. Os pais não se tornam santos após a paternidade, mas, certamente, se tornam pessoas mais nobres na medida em que, de seu modo, amam seus filhos.
Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 19 de agosto de 2008.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Superação

Superação

Há mais de 10 anos meu pai tentou me ensinar a dirigir, até que um belo dia, em Uruguaiana, fui estacionar, mas acelerei e quase atropelei uma família. Pior do que isso foi o que ouvi dele, terminei criando um bloqueio, um grande medo de dirigir.
Aos 18 anos já no segundo semestre da faculdade, arrumei pretextos e não fiz auto-escola, aos 22, formada após passar no exame da OAB, resolvi fazer. Passei na prova teórica e das 15 aulas práticas pagas fiz sete e desisti usando como pretexto a excessiva simpatia do instrutor. Aos 25 resolvi procurar uma psicóloga para me ajudar, na quinta consulta já me sentia apta para guiar, mais corajosa, me inscrevi na auto escola onde paguei a segunda habilitação da minha vida, pois a primeira prescreveu.
Há menos de 30 dias meu marido me deu sua camionete para guiar no interior. Vim guiando rumo à cidade, quando percebi que o trânsito não me assustava, estava super confiante em meu poder de guiar. “O carro é uma extensão do teu corpo”, dizia minha psicóloga, e assim, com a confiança de quem guia seu próprio corpo passei a guiar.
Muitos devem estar se perguntando: “Sim, o que eu tenho haver com isso?”. Com minha dificuldade para dirigir, nada, mas com a existência de um obstáculo a ser superado na vida, tudo. Todo ser humano possui alguma dificuldade, ainda que emocional, a ser superada. Sim, porque toda dificuldade existe para ser superada, toda pedra em nosso caminho esta ali para ser ultrapassada, ou, ao menos, pisada. Nenhum percalço existe para nos fazer parar.
Quando deixamos nossas dificuldades, nossos bloqueios nos parar estamos lhes deixando grandes e nos tornando pequenos diante deles. Cabe unicamente a nós tarefa de ultrapassar barreiras e vencer nossas dificuldades. Precisamos nos conhecer e achar uma forma de superá-los, ela sempre existe.
Temos em nós a força, a razão e a sensibilidade necessárias para compreender a nós mesmos e, assim, superar nossas dificuldades, com paciência, obviamente, porque nenhuma construção grandiosa se faz da noite para o dia, assim como nenhuma mudança importante ocorre rapidamente. O tempo, a boa vontade e a paciência conspiram sempre a favor de quem deseja evoluir.

Marau, 18 de agosto de 2008.

Cláudia de Marchi

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ilusões a dois.

Ilusões a dois.

Analisando a série de relacionamentos frustrados que conheço fico me perguntando: Afinal, quem se ilude? Quem ilude quem? Sempre acreditei que o ser humano cria as próprias ilusões no silêncio de sua alma, que não precisa do outro para se enganar.
O ser humano adora uma ilusão, espera da vida sempre mais do que a realidade lhe propicia. Não quer apenas fidelidade, companheirismo, união, quer milhares de “eu te amo”, quer o parceiro hiper-mega-super-ultra-romântico, mas que, obviamente seja um Don Juan de uma só.
O homem espera “a mulher”: Corpo definido, rosto bonito, olhar sensual, inteligência sensacional, dona de casa de primeira, mas independente financeiramente e, obviamente, quer uma amante que faça qualquer meretriz se contorcer de inveja.
Todavia, apesar dessa tendência humana de esperar e desejar o magnífico, de criar expectativas grandiosas nos mais variados aspectos de sua vida, creio que num relacionamento sério as ilusões criadas são regadas pelo outro. Logo, ele tem responsabilidade pelos planos frustrados do parceiro porque, ainda que através da omissão de seus pensamentos, deixou o outro sonhar.
“Amor quando eu me aposentar vamos viajar”, “quando a filha se formar vamos passear nos finais de semana”, e o outro concordando, ou, ao menos silenciando e fazendo gesto afirmativo com a cabeça, mas, ora vejam só: Antes disso tudo acontecer o “amor”, o “bem”, o “querido” deixa a esposa com mais de quarenta anos para se aventurar na vida, ou, enfim, para namorar a moça mais jovem.
A esposa se iludiu? Pode ser. Criou expectativas? Obviamente, mas não fez sozinha, afinal o pressuposto é o amor numa relação amorosa, é o amanha ao lado do companheiro. Nenhum desses anseios são devaneosos ou absurdos, em especial quando o parceiro não expõe seu anseio pelo fim.
Por ver esses e outros exemplos aprendi que todos os sonhos e ilusões criadas numa relação firme podem surgir na mente de um, mas são direta ou indiretamente cultivadas pelo outro. Todavia, o que fazer com as frustrações? Lamentar sem se entregar para a dor e esperar o tempo passar, ele apaga os ferimentos, apesar de não curar as cicatrizes, mas matar elas não matam.

Cláudia de Marchi

Marau, 15 de agosto de 2008.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O homem e as traições na vida

O homem e as traições na vida


Ninguém passa pela vida sem sofrer alguma espécie de traição. Pode ser um par de chifres da pessoa outrora (espero que em todos os casos se use essa referência temporal) amada, pode ser a falta de consideração do "amigo" demonstrando que inexiste amizade verdadeira e sim algo que se assemelha mais a alguma espécie de interesse do que, propriamente, de sentimento e afinidade. E, em outros casos, pode ser a constatação de que aquele em quem confiamos nos inveja e não deseja o nosso bem.
Natural que as traições ocorram neste mundo em que a grande maioria das pessoas se rende a futilidade, em que parcerias de anos são ignoradas em prol de bebedeiras com amigos e "esticadinha" em locais em que é proibido levar aquele que dorme ao lado na cama, em que confraternização com pessoas amigas e leais são trocadas por uma saidinha com a "bonitinha" da vez, por uma festinha diferente ou por uma transa banal. Natural em um mundo que valoriza mais a quantidade do que a qualidade das relações, em que o homem passa a ser bem julgado pelo dinheiro que tem, pela barriga dura, pelo glúteo definido, pelo que aparenta ser, enfim, do que pelos sentimentos e forma de pensar que possui.
Natural que a confiança alheia e o sentimento do outro sejam banalizados numa época em que grande parte das pessoas deseja respeito de todos, amor e atenção do mundo, mas é emocionalmente incapaz de amar e respeitar a ponto de não conseguir se colocar no lugar do outro vez que sua mente se atrofiou em relação ao sentido das palavras compaixão e respeito. Respeito tem aquele que se dá, respeito merece aquele que também sabe respeitar, obviamente que o homem de bem respeita à todos, nem sempre por apreço, mas muitas vezes por piedade.
Mas, "homens de bem" seriam maioria neste mundo? Depende do ponto de vista, mas a vida me ensinou que o homem é capaz de vilezas que não admite nem para ele mesmo, então, em benefício da dúvida, é preferível não esperar muito de todos, assim a queda frente a eventual frustração se torna um pouco menos desastrosa. É amenizada pelo colchão do realismo. Ser realista, não é ser pessimista, é analisar o mundo e a vida como são frente as experiências tidas e observadas também (pessoas inteligentes conseguem aprender vendo, ouvindo e se colocando no lugar alheio, captando de forma emocional e racional a dor do outro). Um povo que é traído diariamente pelos governantes que ele mesmo elegeu ("cada povo tem o governo que merece" é tema que rende outros escritos, não convém se alongar) não deve esperar demais do próprio vizinho.
A gente pode ser traído por quem elege para compartilhar uma vida, para compartilhar nossos momentos, para dar nossa confiança, nosso carinho, nossa atenção, nosso prezar. Mas, se somos honestos, se somos felizes por sermos bons e por (ainda) conseguirmos confiar em alguém não devemos esmorecer.
Num mundo de maioria vil e traiçoeira, de maioria fugaz rumo a "mentecaptação", a minoria proba, honesta, sincera, leal e respeitosa se destaca e atrai a atenção, ainda que seja dos seus semelhantes, mas algum homem bom quer ao seu lado um "traíra", uma pessoa fútil que banaliza os sentimentos alheios e a sua própria vida? Creio que não. Logo, é melhor continuar tendo fé na bondade e ignorar as maldades alheias. Coitados são os que perdem o apreço de boas pessoas.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo 25 de julho de 2008.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

As necessidades desnecessárias

As necessidades desnecessárias

Viajar com o pensamento é bom, mas às vezes os pontos turísticos desta viagem nos assustam, nos causam terror. Certo é que o ser humano sempre inventa necessidades novas, necessidades banais. As básicas? São e sempre serão as mesmas: Comida para viver, amor, carinho, respeito, saúde, dignidade e um pouco de lazer. Dinheiro? Sim, mas sem que para conquistá-lo seja preciso vilipendiar o conceito de honestidade e brio.
Mas e essas outras necessidades, as inventadas? Essas mudam muito e, o que é pior, nem sempre para melhor. Algumas gerações se assustavam com a bandeira “sexo, drogas e rock´n roll”. Assustavam-se com a liberdade feminina pós-anticoncepcionais. O susto era a criação em forma de afirmativa dessas necessidades aparentemente desnecessárias.
Hoje em dia o “rock” cedeu lugar à música eletrônica e suas batidas intermitentes, a maconha e a cocaína (esta em casos mais graves de vício) estão sendo superadas por substâncias em comprimidos, crack, drogas mais pesadas que levam o individuo mais rápido ao êxtase procurado. Êxtase que chamo de fuga. Fuga dos infelizes, dos covardes, dos que não tem apreço por si mesmos e pela vida. Fuga dos coitados (Coitados com “c” maísculo).
Sexo? Cada vez mais banal, cada vez mais sem sentimento. Promiscuidade em alta, amor em baixa. Sexo grupal, homens, mulheres, todos juntos, ilustres desconhecidos compartilhando o melhor da intimidade humana sem conversa, sem sentimento, sem carinho e, muitas vezes, com pouco ou nenhum beijo na boca. Só corpo, só prazer físico, via de regra tão fugaz quando o êxtase dos drogados. Não basta a esposa bonita é preciso amantes, é preciso desrespeitar o outro para se auto-enaltecer.
E os corpos atraentes, a vaidade? Outrora mulheres curvilíneas eram as atraentes e tomavam um chopinho com seus parceiros. Hoje é preciso mais, é preciso ser sarada, quase perfeita, sem celulite, barriga reta, coxa dura e peito grande. Não basta malhar, fazer exercícios, é preciso massagens, e em certos casos a paranóia é tanta que tem mulher que come e regurgita para evitar quilinhos a mais. Chopinho ou um vinho com o namorado? Depende, é preciso contar calorias, deixar de jantar. Batata frita? Heresia, leva à fogueira do inferno. É a geração das plásticas, das lipos, a geração das bocas infladas, do silicone. Felizes estão os cirurgiões plásticos, os traficantes, os donos de motéis e os governantes.
O trio sexo, drogas e rock´n roll vai ser lembrado com saudade. Não por ser uma bela propagação, mas porque a realidade do presente é mais abjeta, mais infeliz, mais vazia. Antes, nos assustávamos ouvindo a bandeira dos modernos (da época, é claro), hoje os jovens das raves não erguem bandeiras. Esta tudo liberado e fácil demais para usarem seu tempo formando frases chocantes, e é isso que me assusta. Até quando as necessidades desnecessárias arruinarão vidas com o codinome de diversão, de vaidade e de prazer?

Cláudia de Marchi
Marau, 23 de julho de 2008
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O homem e a racionalidade

O homem e a racionalidade

O ser humano é um animal racional. Parece frase de livro de Biologia, mas tem sido uma afirmação que repito para mim na intenção de voltar a crer nela. Com o passar dos anos passei a pensar que existe um longo abismo entre a teoria e a prática da "realidade" desta frase.
Será que é racional um ser que mata sem motivo? Que não cuida do próprio meio ambiente em que esta inserido? Que trai a confiança do outro sem se colocar em seu lugar para obter algum lucro ou, simplesmente, ter um orgasmo? Será que é racional um homem que, eleito pelo povo, rouba pensando em engordar seu saldo bancário enquanto leva o País a uma anorexia (não nervosa) econômica?
E, mais ainda, onde esta a racionalidade de um povo que perdeu a capacidade de indignação, que diante de "CPIs" sem resultado se contenta em ver a secretária, amante ou ex-amante de algum corrupto aparecer pelada em revista masculina? Onde foram parar os que pensam, os que se revoltam e, dentro do possível, manifestam seu pensamento? A ditadura se foi, a censura também, mas parece que com elas terminou as manifestações populares, o ânimo popular, a capacidade de se erigir contra o que incomoda. Ou será que nada mais esta incomodando neste Brasil?
O "imposto do cheque" poderia voltar. Nada de mobilização contrária. O povo brasileiro assumiu seu comodismo, escândalos políticos, assassinatos, morte nas estradas, más condições das estradas, nada, enfim, parece mexer com o brio das pessoas. Creio, pois, que a racionalidade parece ser um substantivo existente, mas mal usado, e tudo o que é usado negativamente quando deveria funcionar de forma inversa fica legado à inocuidade, ou melhor, à inexistência.
O homem se aproxima da perfeição na medida em que consegue pensar, refletir, constatar os seus próprios erros e, também, se indignar com as mazelas mundanas (inclusive com as que ele causa). Aliás, tal ato demonstra a verdadeira racionalidade humana.
Ter compaixão é uma forma de demonstrar o uso da razão, se colocar no lugar do outro e pautar a sua atitude vendo na outra pessoa um ser que também sente e sofre. Portanto, todos os seres são, em tese, racionais, mas poucos gozam da racionalidade na prática. Muitas vezes até os animais são mais sensíveis do que o homem, e é na sensibilidade que esta a beleza e a candura da razão.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de julho de 2008.

Do Rock ao Sertanejo

Do Rock ao Sertanejo

Fui à um show de uma banda cover da saudosa Legião Urbana neste final de semana. A Legião é e sempre será, para mim, a melhor banda de rock nacional. Letras de uma qualidade magnífica, profundas, verdadeiras, que faziam e sempre farão as pessoas inteligentes pensarem.Tinha muitos fãs, mas não era pop como as que vieram depois dela. A Legião cantava frases complexas, não tinha refrões populares e vagos, suas músicas embalaram minha adolescência semi-solitária.
Eu sempre tive amigos mas adorava curtir uma certa solidão. Ouvir Legião e Cazuza no meu quarto, onde sonhos e pensamentos fortes cheios de convicções adolescentes me faziam companhia, era algo bom para mim. No show que assisti acho que eu era uma das poucas pessoas que sabia todas as letras, afinal tenho todos os cds. Um de meus sonhos era fazer o Renato Russo virar heterossexual, sua forma de pensar me surpreendia, me inspirava.
A geração Coca-Cola não era a minha, mas eu fui criada dentre seus membros, que, porém não eram burgueses sem religião e tampouco foram o futuro da nação, ao menos não o bom futuro da nação, porque este continua sendo uma esperança e não uma realidade.
Filha única e um pouco mimada de caminhoneiro que estudava em bons colégios, essa foi boa parte da minha vida. Me recordo das viagens de caminhão com meu pai quando ele ouvia músicas sertanejas: Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Chororó, Zezé di Camargo e Luciano, e outros dos quais não me recordo o nome, com exceção de uns tais Tonico e Tinoco e Milionário e José Rico, além de Sérgio Reis. Me lembro que eu fazia cara de nojo ao ouvir suas músicas, e logo pedia para colocar minhas fitas da Legião, Capital Inicial e Paralamas.
Pois é, a vida muda. Creio que depois do primeiro amor e da inserção real no mundo adulto a vida da gente se transforma. Na minha época rock em que a variação musical mais inusitada que eu fazia era U2, The Doors, Blondie e Guns´n Roses eu amava apenas a vida (sim, essa sempre foi minha paixão), meus pais e minhas amigas. Não tinha namoradinho nem nenhum romance findado.
Antes do primeiro romance o estilo musical mais romântico que eu ouvia era o Renato e a Zizi Possi cantando em italiano além do magnífico Andrea Bocelli, e, também Eros Ramazzotti. Mas, depois entrou Bruno e Marrone, Zezé di Camargo e Luciano. Brega? Anti-pop? Meu marido que me desculpe, mas adoro ouvir e assistir um dvd deles quando ele não esta perto, afinal critica o meu gosto.
(Confesso que dizer em público que músicas sertanejas me inspiram é como fazer topless, afinal a minha cultura e meu meio propagam o "pop", o clássico, a música da minoria e não da massa, do povo.)
Curto Amy Winehouse, Ana Carolina, Luisa Possi, Cássia Eller, Duncan, Calcanhoto, continuo fã da Legião, Paralamas, Capital Inicial, Biquini, Nenhum de Nós, U2, Guns, da boa e velha MPB, Caetano, Gil, Elis, Jobim, Milton Nascimento, gosto de boas músicas e, principalmente de boas letras, e talvez por isso tenha me tornado fã dos dois filhos de Francisco, por exemplo. Letras românticas? Dor de corno? Até onde sei nunca fui traída, mas letras musicais que falam de amor, amor reconquistado, perdido, amor que deu certo ou errado me acalmam. Não sou nenhuma romântica a moda antiga, não gosto de romance platônico, mas o amor em si me interessa e é por isso que tenho aos 26 anos um gosto musical diverso do que tinha há 10 anos atrás.
O Renato era fenomenal, o Cazuza também, mas ambos tiveram uma existência de extremos. Pessoas de inteligência rara, não tiveram uma vida que me desperte admiração, morreram cedo graças à seus excessos: Álcool, drogas, promiscuidade. Muitos roqueiros não vivem assim e suas músicas são sucesso, todavia não são letras tão chocantes e boas quanto as que eles escreviam e ouvir música moderninha de letra com 15 linhas não me agrada tanto. Esse também é um dos motivos que me faz admirar os cantores que, como diz meu parceiro, "vieram do meio do interior do fim do mundo".
A vida da gente tem fases, inclusive verificada no nosso gosto musical. Depois de conhecer o bom e o ruim do amor, da união, do companheirismo, depois de ver que meus heróis morreram de overdose, aids e outros males causados pelo seu excesso e falta de verdadeiro amor pela vida (quem ama cuida, quem se ama, se cuida) aprendi a respeitar as músicas sertanejas e, mais do que isso, me tornei uma fã delas.
Ideologia, como diria o Cazuza, eu quero uma para viver, mas a vida nos faz mudar de ideologias. Eu tive a ideologia da revolta, "o governo é uma porcaria, o Brasil uma comédia". Creio que tudo continue assim, mas a minha ideologia no momento é viver bem e fazer o que posso pelo mundo e por quem eu tenho apreço.
Podem me criticar, podem me tripudiar, apesar de continuar eclética, escuto bastante música sertaneja. E que venham Vitor e Léo, Bruno e Marrone, César Menotti e Fabiano e cia. Eu gosto, e se quiser que meus filhos sigam algum exemplo em relação a cantores famosos, prefiro que seja o dos que vieram do nada e estão vivos com mais de 40 anos do que o do cara inteligente e classe média que criticava com maestria a vida, mas não teve pela sua própria o respeito que ela merecia, e, por isso procurou e achou cedo a morte.
Certa vez achava que existiam pessoas que morriam cedo porque eram especiais, hoje eu acho que é especial aquele que vive bem durante o tempo que sua vida dura fazendo dela o melhor que ela pode ser.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 27 de julho de 2008.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Alegria de viver

Alegria de viver.

Felicidade. É um ideal, todos desejam, alguns possuem, outros divagam e muitos estão, neste momento, filosofando em mesa de bar a respeito dela: “Se constitui de alguns momentos”, “se baseia no contentamento”. Enfim, não faltam idéias a respeito da felicidade.
Todavia, quero falar é da tal alegria. Alegria de viver. Aquela empolgação por saber que se esta vivo, que o mundo esta andando numa justa sincronia e que temos a liberdade para buscar nossas realizações nele. (Estamos vivos, somos abençoados).
Enquanto a maioria reclama do seio pequeno, da bunda grande demais, das pernas finas, do nariz “estranho”, da boca fininha, da esposa ranzinza ou da falta de um amor para chamar de “seu”, das contas, do cheque especial estourado, alguns vêem o outro lado de si mesmo e da própria vida.
O outro lado é a percepção do “apesar”. Apesar da falta de seios, apesar da bunda grande, apesar da solidão, apesar das contas: Existe algo, existem virtudes, existem sentimentos, existe inteligência, existe amor, existem amigos, existe a família, existem outros atributos físicos atraentes, enfim.
Quem vê apesar daquilo que se pode lamentar tem alegria de viver, não se cobra demais, não se autocritica em excesso: Respeita seus limites e segue acordando animadamente durante as manhãs por perceber que a vida é especial na medida em que assim somos com ela.
Quem não vê na própria existência a graça de estar vivo constrói uma vida frustrada. O lamentável é que são pouquíssimas as pessoas que tem alegria de viver, a maioria prefere viver em “busca de algo”, reclamando demais, olvidando do fato de que sua própria existência é uma dádiva.

Cláudia de Marchi

Marau, 04 de julho de 2008
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pensar antes de falar.

Pensar antes de falar.

Existem dias em que a gente esta mentalmente cansado e de humor irritável. Dias em que a gente crê que o que nos passa pela cabeça são verdades inexoráveis e tem vontade de despeja-las para o mundo, para que quem nos cerca fique ciente de nossos pensamentos a respeito de suas atitudes e afirmativas.
A vida me ensinou que nesses dias o que realmente temos que fazer é o oposto da nossa vontade: Ficar de boca fechada. Falar o que se pensa pode causar danos imensuráveis, em especial porque, além de estarmos nos sujeitando a ouvir o que não desejamos, podemos nos arrepender. Não apenas nos arrepender de ter falado, mas, pior: De ter pensando.
Podemos mudar nossa opinião e ver que o que estávamos pensando tinha um certo grau de equívoco. Não à toda os pais instruem seus filhos a pensar antes de falar. A maturidade nos mostra que não são apenas minutos que devem ser despendidos para essa tarefa, muitas vezes são necessários dias, meses para confirmarmos se nosso pensamento esta correto e se vale a pena ser expressado verbalmente.
Uma vez expressada a palavra não volta atrás. Desculpas, perdão? Sim, são válidos e o homem maduro e de alma nobre sempre o concede por saber que também é passível de erros, de "pecar pela boca", todavia, convém analisar: Vale a pena magoar, ofender (mesmo sem ser essa a intenção deliberada), criar um clima pesado para tentar redimir tudo com um "me desculpa"? Não é melhor esfriar a cabeça, deixar o tempo passar e guardar o pensamento para que o amanha mostre sua exatidão ou engano?
Viver é sensacional, conviver, porém é uma arte que requer o uso constante da razão. Emoções são ótimas de serem gozadas: Amor, paixão, desejo, e até mesmo uma dose comedida de ira (ela nos faz sentir vivos), mas é a razão que deve nortear a vida humana para que o homem não siga seu instinto e termine malbaratando o sentimento alheio arriscando o bom convívio e seus relacionamentos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 02 de julho de 2008.

sábado, 21 de junho de 2008

Os chatos depres

Os chatos depres
Existem muitos tipos de chatos neste mundo, tem aqueles que vivem reclamando de tudo, aqueles que adoram criticar e falar mal da vida alheia, outros que acham que são profetas ou sábios e falam sem dar espaço para o outro cientes de que suas idéias são preciosas. Enfim, vários tipos, mas um dos mais irritantes é o “chato depre”.
Nada contra pessoas portadoras da doença chamada Depressão. Mas o deprimido chato é aquele que esta cultivando uma grande pena de si mesmo, se sentindo o pior dos seres humanos, um joguete mal jogado pelo destino, e em hipótese alguma fala algo positivo ou analisa as circunstancias de ponto de vista menos infeliz e mais entusiástico. Enfim, não se ajuda.
O chato depressivo aluga os outros com suas lamúrias, enche os olhos de lágrimas e desperta piedade e uma dose bastante elevada de raiva em seus interlocutores- “Poxa, será que ele pensa que é o único com problemas no mundo?”.
Tem a mulher recém separada, o homem que foi traído, o cidadão com dificuldade financeira, a mocinha que acabou o namoro, a moça mimada que não conseguiu comprar a bolsinha Victor Hugo, e a outra que não se conforma com a pouca quantidade de seios que tem.
Há também a pessoa mal amada que reclama da desatenção do namorado sem perceber que sem amor-próprio é impossível cativar o amor verdadeiro de alguém. Existem muitos que culpam ao outro pela sua depressão olvidando que são os únicos responsáveis pela sua felicidade ou frustração. Talvez esses seres e todos os demais que de tanto cultivar pena de si mesmos se tornam insuportáveis devessem dar uma passeadinha.
Não me refiro a um passeio na praça, na sorveteria ou na cafeteria chique, não me refiro a uma saída na night, nem a uma viagem para um local legal. Esses são entretenimentos que o chato depre logo esquece, se é que irá conseguir tirar o foco de seu umbigo murcho.
Os chatos depres deveriam passear pela CTI de um Hospital, deveriam visitar os doentes internados pelo SUS, ou aquele milionário que mesmo sendo abastado não consegue recuperar a saúde.
Deveriam sentar seus firmes ou rechonchudos traseiros numa poltrona velha de Hospital Público para ver que quem esta deitado na cama em sua frente padecendo de dor, deitado há dias, com o cheiro de doença impregnado nas narinas, ou com a própria fixada em seu corpo, via de regra não esta lamuriando nem sentindo pena de si mesmo, pois, se assim agir, se entrega à morte que lhe ronda.
(Problema, dizem, “é falta de saúde”, todavia, muitas vezes os homens sábios mesmo diante da doença não se entregam, não reclamam, não se colocam em posição de coitados, para, assim terem maior qualidade de vida.)
Os chatos depressivos que se sentem inferiores no mundo deveriam buscar ajuda psicológica, e passar a ver que ainda que sua situação seja desconfortável existem pessoas em posição muito pior. Olhar para os lados e para trás é uma boa forma de analisar a vida e, aos poucos, buscar o desprendimento do egoísmo, ponto forte dos seres inconvenientes que lastimam demais.
Cláudia de Marchi
Marau, 21 de maio de 2008.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ode ao casamento II

Ode ao casamento II

Véspera de dia dos namorados volto a fazer ode a união quotidiana dos casais: Ao casamento, à união estável, sinônimos na prática, mas diferentes em detalhes ínfimos, porém assustadores e não compreendidos por todos - algumas pessoas mudam ao assinar um "papel" achando que estão adquirindo o outro como "legítimos proprietários".
Bem, namorar é ótimo. Sempre fui a favor do namoro, nunca soube bem o que significa "ficar". Para mim era dar uns beijinhos e não assumir nada sério, para outros - a maioria hodiernamente- é ir para a cama, usufruir bem da boa sacanagem sem ter compromisso afetivo algum. Para mim, é algo nauseante, para muitos se tornou estilo de vida.
Enfim, o bom namoro é aquele em que há parceria, cumplicidade, jantares legais, saídas, passeios, paixão, sexo atrás da porta do quarto na casa dos pais, na sala depois da família dormir, apertado na cama de solteiro da namorada, amor ou ilusão de amor, mas onde cada um, via de regra, dorme e acorda em camas separadas. É legal, mas depois de conhecer a tranqüilidade da vida a dois não acho o namoro algo tão interessante.
Quando a gente namora fica chateado por não passar um feriado inteiro com o amado, fica resmungando baixinho por não poder ficar junto numa noite em que o namorado tem uma janta com os amigos, ou quando, por algum motivo não estará conosco jantando num restaurante chique e indo a um Motel de primeira na noite do dia 12 de junho. Mas, quando a gente é maduro, possui uma boa cabeça, auto-estima e auto-confiança e vive junto com o amado, as coisas são mais simples.
Dia dos namorados para quem dorme e acorda junto é todos os dias. Os presentes diários são a paciência, o conter a raiva quando a vontade é enxovalhar, fazer um programa chato porque o outro marcou (ainda que sem ter nos ligado para pedir nossa opinião), é comer, sem reclamar, a comida muito salgada que a companheira fez às pressas, é ver o amado cortando o melhor pedaço de carne para nos dar, é apontar a falha alheia sem perder o respeito.
O outro tem janta com os amigos? Festividade em pleno feriado? Compromisso na noite do dia dos namorados? Não faz mal, porque a gente também tem amigas, tem o livro pra ler, a comida especial que o outro não gosta para fazer e saborear sozinha, tem a mãe, a prima, as amigas, os amigos. A prática do casamento ensina que ele é mais gostoso na medida em que podemos nos sentir livres socialmente, sem deixar de sermos leais ou fiéis.
Mas, a vida também ensina que só é feliz no casamento quem tem maturidade, quem não encana por pouca coisa, quem respeita a si mesmo, ao outro e a liberdade que ambos precisam. É preciso, sempre, inteligência emocional, e é por isso que a grande maioria dos casamentos finda. Pessoas emocionalmente inteligentes são raríssimas nesse mundo de muita vaidade, plásticas, roupas de grife, ensinamentos de como "enlouquecer o outro na cama" e pouco equilíbrio interior, amor próprio e auto-conhecimento para viver bem com o outro, também, fora da cama.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 11 de maio de 2008.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O julgamento dos sentimentos alheios.

O julgamento dos sentimentos alheios.

As pessoas, muitas vezes, interpretam nossas atitudes e palavras de forma equivocada. Equivocada porque distante do que foi a base delas: Nossa forma de sentir. Fico chateada por saber que muitas das pessoas que passaram por minha vida julgaram mal meus sentimentos porque não compreenderam minhas atitudes.
Nada muito sério, mas quem não gosta de ser compreendido, de saber que esta falando a verdade e o outro esta captando, realmente, o que sentimos, desejamos e, assim, percebendo quem realmente somos? Todos gostam da verdade, ainda que muitos se socorram na mentira.
Se a verdade é admirada até pelo maior dos larápios, é fato que todos querem ser julgados de forma adequada, ou seja, que as pessoas compreendam seu agir e interpretem suas palavras de acordo com os sentimentos verdadeiros por trás delas.
A namorada dizia que amava e terminou o relacionamento? “Mentirosa, sacana, descarada”. Será? E se ela amava realmente quando afirmava seu sentir, mas cansou da relação por outros motivos. (Quem viver, verá: O amor é o maior dos sentimentos, mas não vence tudo.)
A amiga querida não deu atenção para seu problema? “Egoísta, tola, invejosa”. Talvez ela esteja, apenas com maiores problemas, com tpm, com alguma dor, inclusive na alma, desejando o silêncio como companhia e, por prezar a amizade, tenta lhe escutar e dar atenção.
Enfim, o ser humano é um mistério ambulante e costuma julgar o outro e seus sentimentos de acordo com o que pensa e sente, e, inclusive, de acordo com o que lhe convêm: Tem gente que adora se colocar na posição de vítima e, para tanto critica e julga mal ao outro.

Cláudia de Marchi

Marau, 09 de maio de 2008.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

As boconas

As boconas

A vaidade humana esta perdendo os limites. Cada vez mais a beleza passou a ser o foco da atenção das pessoas a ponto de mulheres jovens realizarem preenchimento nos lábios para ter uma boca carnuda. Muito carnuda. Carnudissíma.
Silicone, lipoaspiração, plástica na barriga, no nariz, silicone nos glúteos, tudo aceitável, mas colocar substância na boca, local que deve chamar a atenção pelas palavras que profere, é um risco. Ou seja, a mulherada esta arriscando ficar feia com o anseio de ter um bocão estilo Angelina Jolie, afinal seguidamente ocorrem problemas neste tipo de procedimento.
Li em um exemplar da primeira semana de maio da revista Veja que a procura por preenchimento aumentou 30% entre mulheres de 20 à 30 anos, sendo, após os tratamentos anti-rugas, a intervenção estética mais procurada nos consultórios de dermatologistas. Confesso que me assustei.
As mulheres não estão tentando melhorar intelectual ou psicologicamente com ajuda profissional para se tornarem mais cheias de auto-estima e mais autoconfiantes, para serem melhores mães, profissionais ou parceiras.
Não investem no aprimoramento de seu intelecto, na gestão de suas emoções, na busca pela maturidade e beleza interior que é aquela que resplandece em simpatia, autoconfiança, charme, sendo um dos maiores atrativos no mundo dos peitões, bundas empinadas, rostos lisos, bocas grandes, cabelos longos e, infelizmente, idéias curtas (cabelos e cílios longos, porque até mesmo permanente de cílios existe. Fiquei sabendo outro dia quando fui me maquiar para um evento e me perguntaram se eu havia feito. Me assustei, até isso inventaram?)
O que me preocupa é o futuro do mundo. Será que adiantará termos misses beiçudas andando por ai, parecendo vasos sanitários de porcelana, com o diferencial que das boquinhas (perdão, das boconas) sai o que nestes entra? Não seria melhor um mundo de mulheres naturais, porém cheias de conteúdo, educando filhos afetiva e mentalmente saudáveis, sendo companheiras e amigas de bem com a vida e humoradas?
Nada contra a vaidade humana, mas o excesso é o que me apavora: A vontade de ser como a outra, como a atriz, a dona dos lábios lindos, do corpo perfeito que conserva assim porque precisa dele para sobreviver, se torna um problema posto que o desejar a beleza alheia se tornou um foco, um objetivo, e o se tornar melhor diante do que se é e do que se pode tornar foi legado a segundo plano, ou, infelizmente, a nenhum plano.
Os valores estão sendo invertidos e o que deveria ser um detalhe esta se tornando um aditivo principal: A beleza exterior é o objetivo, enquanto o bem viver consigo mesmo, a beleza interior, enfim, esta sendo legada ao julgamento de afirmativa piegas dos poucos que pensam e enxergam além do que os olhos podem ver e as mãos podem tocar.

Cláudia de Marchi

Marau, 29 de maio de 2008.

Ode ao casamento

Ode ao casamento

As pessoas adoram falar mal de situações que elas mesmo criam, gostam de criticar ao outro e de se apegar aos obstáculos e olvidar do prazer que existe na realização de seus intentos. Resolvi escrever uma ode ao casamento. Não ao casamento de pompas, festa, juiz e padre, entre pessoas, muitas vezes, de pouca experiência e maturidade. Nada contra formalidades, mas levanto a bandeira pró-casamento entre pessoas emocionalmente inteligentes que se respeitam e que não teriam motivo algum para dividir suas vidas e ceder sua liberdade abdicando das benesses da solteirice para ficar com alguém, se não o amor e admiração mútuos, logo o formalismo se torna desnecessário.
Casar é bom, viver junto com quem se ama, é ótimo. Ter um companheiro para te ouvir, pegar na mão, conversar, dividir a cama, a mesa e o banho, dar boas risadas, e, porque não dizer, ter bons momentos de prazer com quem, não à toa, resolvemos escolher para ser nossa companhia, também na horizontal, todas as noites. Mas o convívio entre duas pessoas de sexos opostos só pode dar certo quando ambos estão emocionalmente bem e aptos. Mulher que quer homem que ouça seus lamentos e lhe "compreenda" sempre sem nada comentar, que deseja um homem servil e apoio verbal em todos os momentos, na verdade, deveria desistir da posição de heterossexual e procurar uma namorada, uma companheira. Homem é homem, não é psicóloga, nem tem alma feminina.
A alma feminina é cheia de virtudes, mas, quem disse que a masculina também não é? Homens e mulheres são diferentes na forma de ser e pensar. Faço um parêntese para dizer que creio que homem interessante, homem bom com "b" maiúsculo é aquele bem diferente da mulher, aquele que expira testosterona. Homem doce, meigo, "todo ouvidos", tem alguma coisa errada e a mim não agrada.
Homem é homem. Mulheres são mulheres e o sucesso da união de ambos depende da paciência do casal e, porque não dizer, da compreensão da mulher de que o companheiro apesar de lhe despertar paixão e encanto é bem diferente dela na forma de ser, do cérebro à (graças ao Criador!) ao físico. Se os pressionarem para deles extrair o lado feminino irão transformar a relação num inferno arriscando uma traição. Dai, lamento, mas não adiantam lamúrias.
Os homens, obviamente também devem compreender as diferenças, a maior sensibilidade das mulheres, por exemplo, todavia não tem homem que agüente mulher de sensibilidade extremada, que reclama de suas atitudes, lhe repreende ou critica. As atitudes dos homens em ficar quietos, introspectos, são interpretadas como grossura pela mulher, cujas atitudes extremadas beiram mais a chatice e criancice.
Antes de casar as pessoas deveriam procurar uma psicóloga, ler livros sobre relacionamentos e diferenças entre os sexos ou, simplesmente, viver mais, do contrário irão arruinar o relacionamento por incapacidade de compreender as diferenças e, portanto, ter um relacionamento legal e cheio de parceria, e, diga-se com um bom parceiro ou parceira.
Antes de jogar pedra no outro toda pessoa que vive com alguém deve analisar com mais afinco as suas próprias atitudes porque num relacionamento o ato de um costuma ser uma espécie de eco ao agir do outro. Maturidade, experiência de vida e de convívio humano, humildade de espírito e, principalmente, vontade de ficar com o outro são imprescindíveis. Afirmo, pois que casar é muito bom, mas não é para todos.
Algumas pessoas jamais deveriam morar com alguém: Aqueles que não amam compreendendo a importância da liberdade num relacionamento, e, em especial aqueles que, apesar de amarem, não estão dispostos a ceder, compreender e, principalmente, respeitar o outro diante das diferenças inerentes. Não esta disposto a aceitar as distinções entre os sexos?Não esta disposto a viver com um ser extremamente diferente? Fique só ou mude de opção sexual. Homens e mulheres, entre si, se relacionam com mais facilidade, assim como gente problemática com um bom psicólogo.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 29 de maio de 2008.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Reclamações de frustrado.

Reclamações de frustrado.

Poucas afirmativas femininas me indignam tanto quanto as que pretendem taxar os homens como animais irracionais, infiéis e, pois, iguais entre si. Da mesma forma me irrita o papinho típico de machinho com ego ferido quando afirmativas depreciativas se direcionam as mulheres.
Cada um julga de acordo com as experiências que teve: Não são os homens os desleais, nem as mulheres, as quais as pessoas magoadas tentam criticar. Infeliz e desleal com o mundo é a atitude de quem teve experiências lamentáveis e não consegue verificar que nele existem muitas pessoas virtuosas e bondosas.
Não convém analisar os motivos pelos quais algumas pessoas entram em relacionamentos “fraudes”. Na época da popularização da “lei da atração” muitos podem dizer que as pessoas atraem tais relações, que, enfim, “semelhante atrai semelhante”. Explicações, justificativas, existem várias.
Ruim é ter o ouvido confundido com pinico quando uma pessoa frustrada começa a despejar lamentações e generalizações sexistas em cima dele. Mulheres: Os homens prestam sim, têm o tempo deles para amadurecer, as fases, mas são pessoas objetivas, fáceis de compreender e que se apaixonam de verdade por aquelas que acham que lhes merecem. São vaidosos, mas têm coração e podem ser bem sinceros.
Homens: Nem todas as mulheres são interesseiras, falsas ou complicadas. Muitas gostam mesmo de homem, não de dinheiro, muitas são parceiras boas de cama, de cozinha, de acampamento, bebedeira e festa.
Humanos, enfim: Toda generalização é burra. O mundo é muito grande para ser habitado por pessoas iguais em defeitos. Respeitar, perdoar e compreender o outro, à si mesmo e suas escolhas (inclusive as mal feitas) é fundamental.
Da mesma forma é essencial compreender que nem todos são fadados às mesmas decepções, logo, meus caros, não aluguem os ouvidos alheios com reclamações que generalizam os defeitos do sexo oposto, quando, na verdade, o frustrado é você.

Cláudia de Marchi

Marau, 28 de maio de 2008.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sem enfeites verbais.

Sem enfeites verbais.

Em tempos de amizades virtuais, em que nos comunicamos mais por e-mail, “scraps” e afins do que pessoalmente algumas palavras se tornam “chavão” para criar uma pseudointimidade, é o tal de “amiga”, “querida”. Acho assustador ser chamada de amiga por uma vendedora, por uma desconhecida encontrada num banheiro de bar, por exemplo.
Em tempos de liberdade sexual e relacionamentos mais fugazes e sem sentimento do que um esbarrão num desconhecido em liquidação de loja popular, outras palavras tentam criar profundidade para o que foi é e sempre terá o mesmo significado: O sexo, enfeitado pelo tal “fazer amor”.
Nem minha melhor amiga me chama de “amiga”. Não faço amor com meu marido. Faço sexo mesmo, amor a gente sente, sexo a gente curte, devassa, extravasa entre quatro paredes. Sexo com amor? Ah, isso é incomparável, felizes os que podem tê-lo diariamente. Mas, “fazer amor”? Com licença, muito piegas, extremamente brega uma expressão que tenta dizer que a boa e velha sacanagem é a realização de um sentimento.
A gente não faz amor nem com que a gente ama. Sexo é realidade, pele, sacanagem, tesão, fogo, química perfeita, conjunção de lábios, braços, pele, suspiros, gemidos e aquele “que” pessoal que cada um tem na hora do prazer, coisas que não se falam por ai, sexo bom é o indiscreto, o bem feito a dois. Amor é sentimento, é dádiva divina, é um tudo neste mundo em que as relações entre sexos opostos (e entre os iguais também) estão se tornando “nadas” com nomes variados: “Eu fiquei”, “eu sai”, “eu peguei”.
Não precisa enfeites para definir o sexo, nem substantivos e adjetivos alheios à relação para buscar proximidade. Cliente é cliente, freguês é freguês, conhecido é conhecido, e amigo é amigo. Não precisa “querido”, “meu caro”, “amado”, “amigo” para tentar uma intimidade inexistente. Sem hipocrisia, cada um na sua, com respeito, sem palavrinhas de “puxa-saco”.
Adornos demais deixam qualquer coisa cafona, brega, tira a graça da roupa mais cara, mais bela, mais chique. O que é bonito e sincero não requer outros enfeites. Relações profissionais, superficiais existem e sempre existirão, não há necessidade de inserir palavras para “aproximar”.
Amor entre um casal na cama e fora dela é o ideal, mas, tanto os que se amam quanto os que não se amam, entre quatro paredes fazem o bom e velho sexo. Tentar enfeitar o perfeito gozo carnal com um sentimento que se goza na alma é ridicularizar o que é bom e o que é belo e, portanto, dispensa outras adornos verbais.

Cláudia de Marchi

Marau, 23 de maio de 2008.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Pessoas de alma livre.

Pessoas de alma livre.

Existem pessoas que possuem o coração livre. Elas sentem a liberdade de poder serem quem são e de bem gozar suas vidas, na alma. São pessoas diferentes, que não sentem solidão quando estão em silêncio, quando estão sozinhas na presença apenas de seu corpo e de sua alma.
São pessoas que ouvem seu coração, seus sentimentos sem perceber que não existe movimento ao seu redor. Elas não sentem agonia, desconforto, elas se sentem plenas, como se sua energia preenchesse cada espaço do ambiente em que estão.
São pessoas que gostam da liberdade como os pássaros, mas não precisam voar para se sentirem bem, elas se sentem bem mesmo trancadas num apartamento para garantir sua segurança, sua alma, pois, voa, e lhe traz energia e ânimo. Mas elas também não temem andar pela madrugada, não o fazem por precaução, porém, se um dia quiserem, farão com altivez e consciência do prazer que o perigo, naquele momento, lhes instiga.
As pessoas de alma livre também criam apego, também amam, inclusive de forma intensa, todavia seu sentimento fica mais fraco na medida em que circunstancias tentam oprimir sua liberdade. O amor, para essas pessoas, se perpetua, se fortifica e se mantém enquanto elas conseguem sentir que são livres.
Livres, não traiçoeiras. Livres, não tolas. Livres, mas compromissadas com o que sentem e por quem sentem. Quem possui o coração liberto sabe como poucos compreender o amor. Ama sem dramas, compreende os pesares dos relacionamentos, não se deixa frustrar, não deixa a decepção de um relacionamento malfadado escurecer seu coração que brilha de luz.
Assimila, compreende, sacode a poeira e segue adiante. O coração livre tem muito amor para dar e sabe que tem muito a receber, não se entrega, não se deixa marcar por negativismos. Sorri, resplandece liberdade e, assim, vai armazenando boas lembranças, sentimentos nobres, pulsando livremente e se alimentando de alegria e felicidade.

Cláudia de Marchi

Marau, 21 de maio de 2008.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Justificável, ou não?

Justificável, ou não?

Existem condutas que a gente não consegue justificar, normalmente, são as alheias, mas, por que pretendemos explicar ou "bem assimilar" os atos dos outros? Não devemos nos importar com o agir alheio, nem julga-lo, afinal, quando a conduta é nossa, por mais absurda e tola que seja, conseguimos justificar, via de regra, com maestria.
Estava pensando no agir de muitas pessoas, na omissão de alguns frente a fatos que eu julgo importantes, no abandono de outros, no malbaratamento dos sentimentos e vidas alheias, no agir tosco e egoísta de muitos, na desonestidade de tantos, na falta de amor de alguns, no ato de alguns seres ao legar ao nada a existência de quem foi colocado no mundo, na falta de prevenção das pessoas contra fatos sérios e geradores de grandes responsabilidades que, ainda que ouça justificativas e explicações, meu íntimo se contorce por lhes julgar injustificáveis.
Mas, e dai? Devemos aprender que não precisamos e nem podemos tentar entender completamente as justificativas do agir alheio, portanto, devemos ter a consciência de que só devemos satisfação a nós mesmos, à nossa consciência e não ao outro. As pessoas são diferentes entre si, mas cada uma sabe a dor que tem no coração, as agruras, a agonia que sentiu em determinados momentos, ou mesmo a felicidade magnífica que teve, só quem sente, chora e sorri sabe, enfim, o que lhe motiva.
O que eu justifico e acho justificável por ter uma forma pessoal e íntima de pensar, ser, sentir e agir, outros podem achar, literalmente "sem explicação", mas, o que isso importa? Paz, quem tem que ter é o homem quando a sós consigo. E a tranqüilidade de espírito, a paz da alma só tem o homem que justifica com orgulho o seu agir para a sua própria consciência, porque é e sempre será ela quem irá lhe cobrar satisfação como uma mãe ríspida ao filho, como um juiz frente ao infrator da lei.
E, é por isso que, com nossa vida atribulada, devendo prestar contas de nossos atos apenas à nós mesmos, não precisamos julgar ao outro, concordar com suas justificativas, ou mesmo lhe cobrar mudanças, assim como não devemos exigir o mesmo dele em relação as nossas. Ao outro devemos respeitar, compreender suas limitações e atos, sem muito esforço para aceitar ou não seu pensar: Quem tem que aceitar e justificar seus atos é ele, para ele mesmo, e nós, os nossos para nós mesmos. E nesse balanço fica feliz apenas aquele que age de forma coerente com sua consciência, crenças e sentimentos.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 20 de maio de 2008.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

“Teu passado te condena.”

“Teu passado te condena.”

O passado não volta, todavia ele é uma parte do homem que não pode ser apagada, pois atesta quem um dia ele foi, sendo fundamental para que ele tenha plena certeza de quem se transformou. Do passado o homem sapiente afere aprendizado. Tristes são os que lamentam seu passado, olvidando o bem que dele podem tirar.
O homem é, no presente, o resultado de suas experiências pretéritas. “Teu passado te condena”, diz a frase com fundo de comicidade. Na verdade o passado condena qualquer pessoa que queira, no presente, omitir os erros, mancadas, enganos, tropeços e atos do ontem por deles não se orgulhar.
Porém, de nada adianta ter vergonha do que se fez. Certo ou errado, bonito ou feio, imoral ou não, glorioso ou banal, rico ou pobre, vazio ou cheio, feliz ou infeliz, fugaz ou rígido, leve ou preso, conturbado ou calmo, o passado existe no pensamento de quem viveu. De nada adianta o arrependimento, o que passou tem que servir de aprendizado sobre o que se fazer ou não no amanha e de como melhor se viver o presente.
Fugir das lembranças é a melhor forma de fazer o passado surgir com os mesmos erros, no presente. Quanto mais tenta escapar, mais dele o homem se aproxima, porque só tenta fugir do que se teme, e só o que tem alguma importância para ele pode fazê-lo temer.
Assimilar o ontem, compreender as circunstâncias da vida em tal momento, a própria alma: O “não muito” que sabia e o “melhor” de si que era dado quando não tinha consciência de que, no presente, seria julgado “pouco” é a mais sábia forma de raciocinar sobre as experiências tidas na vida.
Afinal, se hoje sabe mais, pensa diferente e age de forma diversa é porque o ser humano cruzou a estrada do ontem, para pousar no presente e, quem sabe, chegar num rumo ainda mais diverso no amanha.

Cláudia de Marchi

Marau, 20 de maio de 2008.

Mania de coitado



Mania de coitado


Certa vez um amigo me disse que tudo o que é demais acaba sobrando. E sobras, excessos nunca são interessantes, afinal, se a escassez traz alguns males não é diferente o que ocorre com o excesso: A medida é o equilíbrio, o nem demais, nem de menos. Existem gostos, hábitos repetidos, manias que se tornam patológicas sem serem percebidas por quem as tem.
Existem pessoas de todos os tipos nesse mundo. E manias para todo o tipo de pessoa, por isso existem os que tem mania de grandeza, mania de perseguição, mania de vaidade e assim vai. Outro dia fui no salão para uma sessão básica de depilação. Estava lendo uma revista enquanto a adorável profissional fazia, em mim, o seu trabalho quando ouvi uma moça na outra sala em que a manicure trabalhava: "Porque da próxima vez eu vou abrir o teto solar do carro, os vidros, farei um escândalos se ele fumar". Chata, muito chata. Ninguém queria saber do teto solar do carro e de seu gênio anti-tabaco num salão onde muitas pessoas poderiam ser fumantes.
Como não consigo conter meu pensamento comentei com a depiladora em voz baixa: "Que mulher chata". E ela concordou, dizendo que a mulher chegou ali dizendo que sua calça caríssima da Fórum estava caindo na cintura. Chata, muito chata. Ninguém queria saber a marca da calça, por exemplo. A chatice esta nos detalhes, isso eu aprendi. E a mania é verificada por ele, no caso, de grandeza e vaidade: A mulher queria aparecer, se mostrar melhor e, como ela, existem muitos seres no mundo.
Mas existe uma mania muito infeliz e que a muitos irrita. É a mania de coitado. O coitado é aquele sujeito que vive se achando vítima, que não assume o que faz, (apenas quando acha que agiu correto, é claro). O coitado, via de regra, não erra. São os outros que erram por ele, que atravancam a vida dele, que atrapalham seu caminho. O coitado não faz negócios ruins, não se logra. Ele é vítima da astúcia alheia. O coitado não se sente capaz de ser amado, quando se vê diante do amor ele se assusta e busca uma forma de voltar à sua posição de coitado-mal-amado-infeliz-depreciado-usurpado-nato.
O coitado só tem tal mania porque não consegue olhar para os lados. Na verdade ele é, isto sim, um egoísta por natureza. Os problemas alheios não lhe interessam, apenas os dele - que ele enxerga com uma bela lente de aumento (aliás, todo o egoísta tem uma lente dessas para ver seu próprio umbigo)-, o sofrimento do outro nunca é grande como o seu, a vida, os percalços, os problemas existenciais alheios, para ele, nada são. Só o que é, de fato, ruim, grandioso, deprimente, entristecedor são as suas mazelas, as ocorrências da sua vida.
Toda pessoa que tem mania de coitado deveria parar para olhar o mundo. Quem esta ao seu lado, atrás de si, e, inclusive, as pessoas que ele faz sofrer enquanto busca argumentos para justificar a sua infeliz "coitadice". Existem muitas pessoas com mais problemas que não encaram eles como sofríveis e, pelo contrário, tentam lhes superar e serem felizes. O coitado é digno de pena porque seu egoísmo lhe cega, apenas por isso. E toda pessoa sentimentalmente cega não tem compaixão, e essa é uma má conseqüência de quem cultiva tal mania, afinal, quem não se compadece com o que vem dos outros é porque esta oco por dentro fazendo, assim, jus ao adjetivo de coitado que tanto busca ter.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 19 de maio de 2008.


terça-feira, 13 de maio de 2008

A dádiva do amor

A dádiva do amor

O amor é o sentimento mais mágico que um ser humano pode sentir. Ele faz milagres. Ele faz a gente sorrir num dia nublado, dar de ombros para um desaforo, faz a gente ter vontade de dormir e não acordar só para ficar nos braços de quem nos faz sentir bem.
O amor não nos garante felicidade constante, não nos garante ausência de brigas e discussões em nossos relacionamentos, ele garante, apenas, a vontade de superar os obstáculos, de relevar as pequenas mancadas, de rir e não criticar ou tripudiar, de ser paciente e indulgente, ele garante a vontade de superar o comodismo da solteirice para adentrarmos na famosa “vida a dois”.
Todavia, a primeira espécie de amor é o nutrido por nós mesmos. Quem não se ama, quem não se respeita, não tem capacidade de fazer-se respeitar e, sem impor respeito, como cativar o coração de alguém?
Ninguém quer um tapete para pisar, uma pessoa com vocação para obedecer ou ser saco de pancada, alguém que aceite erros graves e vá cortejar aquele que chama de “amor”. O ser humano quer amor e não pseudodemonstrações do sentimento que mascaram uma baixa auto-estima. O maior indício de que uma pessoa pode ser amada é o fato dela se amar, se respeitar e se impor.
A pessoa é o amor que ela tem por si mesma é por isso que uma mesma pessoa pode ser diferente no trato com outras, porque cada um recebe o que se dá, inclusive quando o assunto é amor e respeito, primeiro ele tem que ser dado para si mesmo, para depois vir do outro.
Mas, quando duas pessoas afetivamente maduras, com estima própria passam a nutrir amor uma pela outra, tudo se torna mais leve, mais alegre. Amar é uma dádiva, mas saber se relacionar é uma exceção neste mundo. Por isso poucas pessoas conseguem, realmente, viver a dádiva do amor. Ela envolve vários pormenores que não tornam o amor complicado, apenas dificultam a estrada do homem até ele.

Cláudia de Marchi

Marau, 13 de maio de 2008

Ser, apesar de não ter.

Ser, apesar de não ter.

Assistindo a todas as fenomenais gafes vulgares do jogador Ronaldo, que, há muito tempo, deixou de ser um “fenômeno” em campo, comecei a pensar nas agruras dos milionários como ele. Dinheiro é um objetivo de muitas as pessoas, mas em excesso ele pode ser muito perigoso.
O perigo da riqueza ou de qualquer outra forma de gozo do que a grande parte das pessoas considera fortunas materias (a beleza, por exemplo) é que elas não são tão efetivas no que tange a realizar o homem do que “famosas” nesse aspecto.
Espera-se demais delas, mas, na realidade, elas podem mudar o mundo ao redor do homem e não seu âmago, seu interior. E o perigo é a realidade: A vida do homem esta nele e não fora dele, o homem é o que ele sente quando esta a sós consigo e não conferindo o extrato bancário, degustando drinks por ele pagos com um grupo de “alegres companheiros” ou curtindo uma noitada com uma mulher, ou, porque não, com um travesti (vai que vire moda).
Um homem pode ser muito contente, pode ter uma grande alegria de espírito sem ser belo ou rico, pode ter auto-estima e amor próprio sem ter uma conta bancária excelente, um abdômen malhado e um sorriso cativante.
O homem pobre ou classe média que não esbanja o “não muito”, ou, de fato, o pouco que possui pagando festas e agradando “parceiros”, sabe que aqueles que possui são seus amigos de verdade por ele ser como é, por ser quem é e não por possuir o que possui e aparentar o que aparenta.
Mas, e o milionário cujas mulheres que lhe cortejam o fazem pelo poder aquisitivo que possui, que se fosse pobre metade de seus “amigos” não estariam em sua companhia, e a pessoa que sendo bela sente que atrai pessoas sem que elas se interessem em saber quem é o ser por trás do sorriso cândido? O que sentem essas pessoas?
E se perguntarmos para o Ronaldo, ou para qualquer pessoa cuja carreira o fez milionário: “Quem é você e o que você tem sem ser o dinheiro?”, será que a resposta seria alegre ou seria melhor alcançar-lhe um ansiolítico, antidepressivo ou uma porção de cocaína ou heroína?
A pessoa é muito mais do que ela possui. Um ser humano não é, nem mesmo a cultura que tem, ainda que este seja um dos seus melhores atributos, nem a beleza, muito menos o dinheiro. Ele é um conjunto de valores, uma alma que deve ser alegre e feliz, antes, por ser quem é, pensar como pensa, sentir o que sente do que por ter alguma coisa material que possa atrair os outros.
O homem deve ter orgulho de ser e não de possuir algo nesta vida, e para ser não é preciso ter fama, dinheiro ou beleza, é preciso ter uma alma iluminada e alegria de estar no mundo e, portanto, ser contente nele.

Cláudia de Marchi

Marau, 13 de maio de 2008.

sábado, 10 de maio de 2008

Além da capacidade de gerar uma vida.

Além da capacidade de gerar uma vida.

Ser mulher é uma dádiva. Ser esse ser complexo em sentimentos, e simples em sentir, ter por características a persistência, a habilidade aguçada de sentir compaixão, de perceber o que o outro sente com um simples olhar, de ter orgasmos múltiplos, de concentrar várias habilidades e, enfim, de poder gerar uma vida, é gratificante.
Dia das mães é a data na qual podemos homenagear aquela mulher que nos cuidou, guiou, que nos aqueceu quando sentíamos frio, que nos deu alimento, carinho, instrução, fazendo o seu melhor por nós, ainda que, hoje em dia, vistamos nosso orgulho criticando suas ações pretéritas alegando que poderia ter sido “melhor mãe”, fato é que ela fez o seu melhor.
Fez o que sabia e podia para o nosso bem no ontem, hoje talvez ela agisse diferente, talvez não casasse, talvez tivesse fugido com um colega hippie e fosse esperar os 40 para ter um bebê, talvez passasse a vida sem ter filhos, como saber? Só Deus sabe o que se passa na mente da mulher por trás do “manhe”, do “mami”, “mamãe”, ou, simplesmente mãe.
O comércio afere grandes lucros em datas comemorativas como o dia das mães, mas quem deveria lucrar somos nós parando para pensar na responsabilidade por trás da dádiva de gerar uma vida. Nem todas as mulheres têm vocação para a maternidade, e é por isso que existem tantos adultos infelizes, inseguros, problemáticos, cruéis, e egoístas no mundo.
Mulheres que acham que ser mãe é gerar uma vida, amamentar e depois passar o resto dos dias reclamando, ouvindo sem paciência (ou nem mesmo ouvindo) seu filho, não lhe dando atenção, mulheres que engravidam na intenção de manter ou fortalecer um relacionamento ou, pior, na intenção de fazer de seu filho uma “poupança” para que um infeliz pague pensão alimentícia, são criminosas, e não mães.
A dádiva de poder gerar uma vida praticamente todas as mulheres possuem, poucas, infelizmente, são as que têm o dom da maternidade. A capacidade de abdicar do egoísmo em prol do filho sem dele tornar-se escrava, a capacidade de ser amável, amiga e companheira sem se tornar demasiado permissiva, a capacidade de ser ríspida sem ser autoritária, sem humilhar, a capacidade de instruir e comandar uma prole sem ser ditadora e desrespeitosa, poucas possuem.
É em homenagem a estas mulheres admiráveis que escrevo e cumprimento no dia especial para as boas mães, que são as que sabem ser más no momento certo para educar pessoas com limites e não seres impiedosos e egoístas que irão passar a vida achando que o Universo e todos os seres deve ser servis como sua mãe foi, pela simples má vontade de lhe ver chorar por ser contrariado quando mal sabia falar.
Para as mulheres que ainda não se tornaram mães, posso, apenas dizer que antes de qualquer ação a reflexão é necessária. Mais ainda quando a ação é conceber uma vida, porque ser mãe vai muito além deste ato e implica em homéricas e inúmeras responsabilidades. Ser mãe vai muito além da capacidade de gerar uma vida.
Uma boa terapia psicológica e o uso de anticoncepcionais de qualidade fazem bem, em especial antes de tomar a decisão de ser mãe. Ter capacidade financeira para sustentar o filho também, afinal, crianças precisam de pais e não apenas de provedores.
Filhos, nos tempos atuais em que os contraceptivos são de fácil acesso e preço, devem nascer do amor entre duas pessoas e não do desejo egoísta de uma mulher que não tem capacidade emocional sequer para perceber os sentimentos por ela nutridos pelo “possível” pai de seu filho, nem capacidade financeira para lhe dar boas condições de vida.

Cláudia de Marchi

Marau, 10 de maio de 2008.

Prazer

Prazer

Creio que tenha sido o pai da psicanálise, Freud, quem tenha definido com dedicação o Principio do Prazer. Desde criança o ser humano almeja o prazer, não apenas sexual, mas o “sentir-se bem”. Todavia, no mundo adulto muitas são as formas reais e inventadas de sentir prazer, alegria, enfim, de se ter bem estar.
Dinheiro, beleza, saúde, sucesso, amor, sexo, não necessariamente nessa ordem, e, tampouco “isolados”: O homem quer todos esses objetivos e muitos outros agregados. Mas, e “separadamente”, qual tem, de fato, maior valor, qual, realmente propicia um maior sentimento de prazer, entendido aqui como realização do individuo consigo mesmo (aquela sensação boa que o homem sente quando estufa o peito, ergue a cabeça e dá um sorriso de satisfação)?
Olhar no espelho e ver um rosto bonito, uma pele em ordem, dentes saudáveis, boca sensual, olhar penetrante. Uau! Ainda, em frente ao espelho visualizar um corpo firme, formas definidas, “celulite zero”, barriga dura, glúteo arrebitado. Mais uma série de “uau”. Mas, nem todos concordam com Caetano ao cantar “não me amarra dinheiro não, mas formosura, dinheiro não, a pele escura, dinheiro não, a carne dura, dinheiro não!”.
Na verdade, o que satisfaz o ego é a auto-estima. Muitas pessoas não possuem a carne dura, a pele escura, nem muita formosura, mas se vêem belas e por isso são contentes, alegres e transmitem boas energias, cativando quem lhes cerca. Não sou fútil, mas concordo com Caetano, não me amarra dinheiro não, mas elegância, cultura, carne dura, beleza pura, como diz a música.
Dinheiro, eis o objetivo maior do homem hoje em dia. Dizem que o homem feio com dinheiro se torna bonito, que a mulher endinheirada fica atraente, que dinheiro no bolso faz pessoa com “dor de cotovelo” ir sofrer em Paris. Não me importa muito isso, homem tem que ser bom em muitas coisas, em especial na dedicação ao trabalho, na ambição, mas não precisa ter uma conta bancária para realizar anseios femininos.
O dinheiro pode até comprar silicone, plástica, mas não compra aquela beleza que vem da alma, a alegria de viver e ser, neste mundo, quem se é. Quanto a sofrer em Paris ou qualquer lugar do mundo, não há relevância, bom mesmo é não sofrer, é ser capaz de deixar a dor de lado quando alguém que não nos valorizou, por exemplo, nos decepciona. Bom é ter inteligência emocional, e não dinheiro para gastar em demasia por incapacidade de lidar e superar a dor.
É bom sentir o prazer de fazer o que se gosta, conquistar objetivos, ter vitórias na profissão que se escolheu por sentir amor por ela. É bom sentir o prazer de pegar forte na mão de quem se ama, de abraçar, de sentir aquele calor, aquela vontade de ficar junto de alguém por ter por ele admiração e respeito.
Boa é a satisfação de se sentir bem na própria pele, de aprender a gozar a própria liberdade, de se desamarrar de conceitos hipócritas e fazer bem para si mesmo sem prejudicar aos outros, mas, também, sem dar importância ao seu julgamento e, assim, viver bem e incomodar os que não suportam ver uma pessoa alegre, de peito estufado, coração contente e sorriso nos lábios, aqueles que não suportam ver uma pessoa que vive com prazer e satisfação, simplesmente, viver.

Cláudia de Marchi.

Marau, 10 de maio de 2008.

sábado, 3 de maio de 2008

Aborto.

Aborto.

Segundo dados do documento “Aborto e Saúde Pública: 20 anos de Pesquisas no Brasil”, produzido pena UNB (Universidade de Brasília) e UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) 70% das mulheres que optam por aborto vivem em união estável e já possuem filho, 51 a 82% deles são feitos por mulheres com idade entre 20 e 29 anos, apenas 7% a 9% são cometidos por adolescentes.
Aliás, segundo a pesquisa
[1] mais de 50% das mulheres que abortaram na região sul e sudeste do país usavam algum método anticoncepcional, principalmente pílulas. Dados importantes do estudo foram coletados pela Universidade Federal de Pelotas que garantiu o anonimato das entrevistadas.
Pois, apesar da possibilidade e uso de métodos contraceptivos as mulheres cuja idade não poderia ser chamada de tenra, nem as condições de vida de “precárias” fazem uso do aborto, geralmente, usando Cytotec para interromper uma gravidez indesejada. Certo ou não? O fato é real, julgamentos e bandeiras “pró” ou “contra” não são convenientes, ao contrário da reflexão que é uma necessidade.
Por trás de todos assuntos polêmicos em nosso País existem dois lados em constante oposição: o lado real, do que realmente ocorre, e o outro, o do “ilegal”, “imoral”, enfim, o lado dos pregadores da “palavra de Deus” – à sua moda é claro -, e dos moralistas, dos códigos legais influenciados por uma gama de argumentos que são, enfim, notoriamente hipócritas.
Fala-se da asseguração por parte do Estado da vida do nascituro. E, ai esta ele, novamente, cuidando, ordenando o que não deveria, porque o nascituro, o feto, esta dentro do ventre de uma pessoa que precisa de muito mais do que “obediência” à lei para ser uma boa mãe. Ou será que o Estado acha que com o aparato educacional, com as bolsas assistencialistas que oferece, irá suprir a falta de carinho, de esmero na educação da criança cuja vida “assegurou”?
Na verdade a cada dia que passa vem se tornando inócua a criminalização do aborto. Como no caso dos entorpecentes: Não é por ser licito ou não que alguém usará drogas ou abo
rtará. As pessoas usam sua liberdade para o que desejam quando possuem vontade ou motivos para agirem, enfim, mesmo ludibriando a lei buscam realizar seus intentos. Justos, corretos, saudáveis? Julgamentos dessa índole são desnecessários. Eles ocorrem sempre, a maioria dos seres humanos adora jogar pedra nos outros.
A liberdade, pois é o direito que deve ser mais respeitado, embora haja uma vida que a mulher pretende extirpar, existe ela e seus julgamentos, ela e seus problemas financeiros e, principalmente, íntimos, psicológicos. Ela e seu despreparo para, não gerar uma vida, mas para cuidar de uma como uma ela merece e deve ser cuidada. Se uma mulher grávida deseja interromper uma gravidez, não possui tal vontade “por nada”. Ela conhece bem seus motivos, que vão muito além de imaturidade ou dificuldade financeira.
A sociedade deve quedar-se inerte. O Estado também deveria fazê-lo, deixando a hipocrisia de lado, tirando os panos que tapam a realidade e causam problemas de saúde à muitas mulheres que abortam por baixo deles.
O ônus de impedir uma mulher de fazer o que ela deseja dando à luz a uma criança indesejada certamente será pior. Educar filhos, tal qual constituir um casamento requer amor, muito além de dinheiro. E, se com amor nem sempre é fácil, com desprezo e má vontade certamente se torna impossível e carinho, afeto, respeito e amor são as bases para a educação de pessoas saudáveis, porque de criminosos, egoístas, mal amados e psicopatas o mundo não precisa mais.

Cláudia de Marchi

Marau/RS
, 03 de maio de 2008.

[1] Zero Hora, edição de 02 de maio de 2008, página 47.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Chocante

Chocante

Existem notícias e fatos que me chocam, como por exemplo, a violência urbana gerada pelo tráfico de drogas num Estado que não pensa na forma mais racional de impedir que a ilicitude de condutas gere uma cadeia ainda pior de delinqüência e ignora o fato de mulheres morrerem diariamente na tentativa de tirar de seu ventre filho não desejado. Sim, estou insinuando que existe racionalidade na legalização do aborto e das drogas (!).
Tribute a cocaína, a maconha, dentre outras substâncias, e acabe com a grande renda dos traficantes, com um pouco da corrupção política e policial, e outras atividades dos bandidos, patrocinadas pelo dinheiro do tráfico, como seqüestros, contrabando de armas, guerrilhas, afinal, uma coisa é certa: Quem quer consumir vai fazer sendo a venda lícita ou não. Da mesma forma com o que acontece com cigarro e bebidas alcoólicas. É preciso desmistificar muita coisa para que o agir racional e inteligente se torne efetivo.
O Estado gasta milhões na “luta contra o tráfico” e não obtém êxito. Então, porque não mudar a estratégia? Porque não investir mais em aumento de salário dos policiais, em saúde, educação, controle de natalidade, planejamento familiar para que milhares de pessoas inaptas para ter filhos não coloquem pessoas no mundo que, fadadas ao desamor, busquem em entorpecentes, por exemplo, um elixir para a dor de ser um mal colocado afetivamente na vida.
Legalizar aborto? Descriminalizar? Sim. Para aquelas que, sem conseguir evitar o indesejado, não terminarem tendo que criar crianças com futuro abortado: Mal amadas, mal cuidadas, criadas em situação precária, dentre outros problemas. Se eu abortaria? Não, provavelmente, mas tive uma educação diferente e condições de vida diversas das de muitas mulheres, dentre as quais estas cujo destino me arrepia e me faz pensar nessa possibilidade.
Se eu me drogaria? Se sou a favor da maconha, cocaína, dentre outras drogas? Não, sou absolutamente contra. Jamais peguei um cigarro na mão, tampouco levei à boca. Mas, tenho amor, auto-estima, prezo minha vida, tive, enfim, uma educação primorosa. Ainda que me dessem drogas, que elas fossem gratuitas eu não usaria. Logo, não é o fato de serem lícitas ou não que faze com que elas sejam consumidas.
É o usuário quem tem problemas psíquicos e orgânicos, que vicia num mal, e o traficante enriquece as suas custas, então, Estado, porque não legalizar e, assim, minimizar os efeitos do tráfico ilícito de entorpecentes em relação a milhares de pessoas que são, indiretamente, por ele prejudicadas (invasão de polícia em favelas onde a maioria são pessoas honestas, tiroteio onde crianças morrem, inocentes tendo a vida terminada)? Garanto que pouco ou nada mudará na mente dos que pretendem experimentar ou usar drogas se elas forem legalizadas como o álcool e o cigarro que, também, causam males homéricos.
Para governar, criar leis, criminalizar ou não condutas é preciso análises que vão muito além do que é religiosa, psicológica ou moralmente tido como correto. É preciso colocar os dogmas numa lixeira, a análise intima do que é intimamente “certo ou errado” deve ser excluída. É, pois, necessário que se pondere o que irá beneficiar a maioria, o bem comum.
Mas não o “bem comum” dos religiosos preconceituosos, mas o bem de pessoas normais, errantes, comuns que vivem num Estado desigual por excelência, que negligencia a realidade dos menos abastados e faz vista grossa para o agir dos ricos. Mulheres ricas entram em clínicas com um “problema” no ventre e saem de salto alto. As pobres morrem ou ficam inférteis para sempre.
Certo, errado? À mulher compete essa decisão. Será menos prejudicial para a sociedade deixa-la fazer o que deseja com o feto indesejado do que obriga-la a ter um filho que, via de regra, criado mal e em situação de necessidades poderá ser o assaltante de amanha, ou o sociopata que, (mal) educado, sem amor, não consegue respeitar o ser humano, e, quiçá dará despesas aos cofres públicos futuramente, estando no presídio ou recebendo alguma “bolsa” do governo que, ao que se pode ver hoje, mais do que nunca, percebeu que o assistencialismo dá votos, e, obviamente, lucros.
Certo é que lamento muitas coisas nesse País, na conduta dos governantes, na infeliz influencia da Igreja Católica em nosso Estado e no mundo todo. Existem muitas, mas muitas coisas fora da ordem. “Fora da nova ordem mundial”, onde a compaixão e a análise fria e crua das situações deveriam prevalecer. Se são incompatíveis? Não, não são. A compaixão afasta o preconceito por trás da hipocrisia, e a análise fria, afasta os devaneios do pensar católico.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 1° de maio de 2008.