Sobre o verdadeiro pecado!

Sobre o verdadeiro pecado!
"O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida." Carl Sagan

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Gestora do Universo

Em determinados períodos da vida da gente uma vontade incrível de estar no lugar do Regente do Universo nos acomete. Vontade de ser Deus. Afinal, certas ocorrências da vida nos desagradam, porque não somos nós que estamos guiando. A perda de um amigo nessa semana me feriu e me fez pensar em como seria bom poder comandar com minhas rédeas a existência humana.
Todavia, se eu fosse Deus minhas diretrizes iriam magoar muitas pessoas, afinal não se pode agradar à todos. Da mesma forma se você fosse Deus. Mas, se eu estivesse em seu lugar não teria levado meu amigo que estava na flor da idade, se estabilizando financeiramente, com uma namorada amável e linda, cheio de sonhos para o futuro.
Eu também não teria levado a menina Isabela que provavelmente foi assassinada pela madrasta problemática e pelo pai truculento. Eu levaria os covardes, os viciados em qualquer substância entorpecente, porque não conseguem ver graça na vida, porque são infelizes. Na verdade, eu levaria todos os que tendo saúde, força e trabalho, vivem desgostosos da vida.
Levaria os que são amados e não conseguem amar à vida, à si mesmos e tampouco outra pessoa.Levaria as sementes mal plantadas que já nascem com cara de abordadas, as pessoas que tem alma pequena, e vivem remoendo pequenos problemas, os que vêem a luz sem deixa-lá iluminar suas minicertezas, os que vivem querendo o que não tem, como disse Cazuza. Carregaria para outra dimensão os infelizes. Eu não seria um Deus mau- eu daria aos homens o que eles querem. Vida para quem quer e morte para quem deseja fugir e não consegue seu intento.
Infelizes porque não se ajudam, porque não aprenderam a valorizar o que tem e vivem lamentando o que ainda não possuem. Os que tem bons amigos, os que são amados por alguém e não vêem nada, sequer o amor que recebem. Eu deixaria gozar um pouco a vida na companhia de quem lhes ama os que são contentes nesse mundo, que apesar de não serem ricos, lindos e famosos tem o coração pulsando pela vida, cheio de alegria e ânimo.
No meu reinado como gestora do Universo pessoas lamentosas e infelizes não teriam vez. Eu anteciparia seu fim. Não acha graça na vida, meu filho? Esta procurando a morte com vícios, entorpecentes, promiscuidade, direção perigosa? Esta lamentando a vida que tem? Então, diga "tchau". A vida é para ser bem vivida, é feita para os bon vivants.
Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 17 de abril de 2008.
Os cidadãos que residem na cidade em que moro, Marau/RS, podem ler este texto adaptado para publicação (com cortes, menor) no Jornal Folha Marauense na edição que circulou no dia 24/04/08. Sou cronista com participação quinzenal nas publicações do periódico.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Parque de diversões

Parque de diversões

"Assim eu não brinco mais". Duvido adulto que, quando criança não tenha dito essa frase ou, ao menos não tenha ouvido de alguma. Quando a brincadeira não esta mais agradando, ou melhor, quando por um motivo ou outro a criança se sente prejudicada na brincadeira, porque ela não esta "andando" como ela quer ela faz seu protesto. Da mesma "família" de frases infantis-protesto é "se tu fizer isso não serei mais seu amigo".
Todavia nós crescemos, e criamos uma noção bem errada do que é ser mimado. Como filha única sempre me tacharam de "mimada". De fato, sempre tive o que eu desejava, porém meus pais sempre me colocaram a par do mundo dos adultos, de forma que, com 14 anos os papos adolescentes me davam náusea enquanto o das minhas tias balzaquianas me davam calor tamanha a empolgação e meu interesse neles.
E, graças as minhas experiências, mudança de cidade, escolas, cursos, aprendizado aferido da observação de experiências alheias (dos mais velhos, inclusive), aprendi que grande parte dos acontecimentos na vida da gente independem de nossa vontade consciente, e, obviamente, nem tudo acontece como desejamos, sendo que, via de regra, quem espera demais, acaba por se frustrar na mesma intensidade. Assim, deixei de introjetar o "mimada" e não me sinto mais de tal forma. No mundo dos adultos, não existe o "não brinco mais". As casinhas não são de bonecas, a comida não é de "faz de conta", as panelas não são de plástico, nem as paredes de lona construídas embaixo de galhos de árvore.
Os relacionamentos são sérios. A gente assume compromisso com os sentimentos próprios e com os alheios, não existe "assim não brinco mais com você", tampouco "assim não sou mais seu amigo". No mundo dos adultos a falsidade existe, a deslealdade, a infidelidade. Conquistamos amigos eternos, fizemos inimigos mesmo sem saber que os temos, despertamos os mais diversos sentimentos sem termos ciência de quem os sente. Na vida adulta as circunstâncias, os relacionamentos, os empreendimentos, não são desmanchados com atitudes birrentas, com um beicinho ou com um "mamãe olha o que ele me fez".
Aqui, meus caros, nós temos responsabilidade não apenas pelo que escrevemos, mas pelas palavras ditas, pelas atitudes tomadas, pelos sentimentos que despertamos, pela confiança que nos impõem, pelas expectativas que temos e, também, pelas que criamos em que nos preza. Infelizmente, porém, existem pessoas que se ferem por não ter algum retorno do que espera ou, simplesmente, porque a vida não esta andando da forma esperada e desejada, assim, emburrados e feridos, acabam criando uma aura de descontentamento que, ao invés de findar, acaba atraindo mais situações de desagrado como um círculo vicioso lamentável e de lástimas.
Não adianta não querer mais brincar nesse imenso parque de diversões que é a vida adulta. A gente tem que aproveita-lo, rir do que é engraçado, rir também quando sentimos frio na barriga, chorar quando nos sentimos amedrontados ou pequenos diante das surpresas, afinal, nesse parque nossa vontade é muito, mas não é tudo. O interessante é curti-lo sabendo que nem sempre sentiremos prazer, nem sempre as coisas darão certo, nem sempre seremos vitoriosos em nossos empreendimentos, mas que, a coragem é fundamental porque desse parque ninguém pode fugir pela sua própria vontade, ao menos que seja, isto sim, mimado e covarde demais para desistir porque não conseguiu perceber que, nesse parque a roda gigante chamada trajetória humana não anda da velocidade, tampouco da forma que podemos desejar.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 09 de janeiro de 2008.

Recordações


Recordações

Tudo o que é bom, sentimentos, vivências, momentos enfim, se eternizam em nossa memória, assim como nós mesmos nos tornaremos eternos pelo bem que fizemos na vida dos outros. O que é ruim devemos tentar esquecer, ou ao menos, afastar de nossa mente porque as lembranças nos fazem reviver sensações e das más nunca é bom recordar, pelo contrário, em relação as boas lembranças. Como é bom reprisar na memória e sentir no bater do coração e no arrepio na pele as boas sensações que, às vezes, quando vivenciamos o momento agora lembrado, não achávamos que, futuramente, iríamos recordar com tanta ternura e boa inspiração.
Véspera de aniversário sempre me faz recordar. Me lembro dos aniversários passados e, principalmente, do que aconteceu entre um "festejar anos" e outro e me fez ser o que sou hoje. Experiências, mudanças, amores, separações, uniões, rompimentos, risos, lágrimas, expectativas, frustrações. Independente do resultado de cada empreendimento, tanto profissional quanto afetivo, é o caminho entre um fato e outro, entre uma busca e outra, entre um encontrar e outro que me faz sorrir e sentir ternura pelo que fui, pelo que fiz, por quem convivi e estimei, pelas pessoas que hoje ou no passado, foram importantes em minha vida e na minha memória se eternizaram
Outro dia me lembrei de uma manha que tive há alguns anos atrás. Juntamente, ou melhor, após degustar um belo café da manha eu comi um quindim. Lembrar daquele momento, da alegria que sentia, da paz, da tranqüilidade, me fez sentir na boca o gostoso gosto do doce. Menos madura, menos experiente, menos centrada na carreira, mas, sempre, muito entusiasmada, afinal sou o tipo de pessoa que goza a vida com certa intensidade. Não tenho meio termo quando o assunto é lealdade aos meus sentimentos. Não sei meio gostar, meio amar, meio odiar. Amo muito, odeio com a mesma intensidade. Todavia, prefiro esquecer, deletar com convicção do que guardar rancor, mas, se for para desprezar, desprezo com asco com "a" maiúsculo.
Mas, da vida, o bom mesmo é gozar o que é bom. É guardar no coração e na memória as palavras de amor que ouvimos, a mão que nos estendem, o abraço forte na hora em que nos sentimos desamparados, o afago, o carinho, a viagem, as risadas, os jantares com pessoas queridas, as doces sobremesas, o bom "breakfest" com quindim ou sem, mas tranquilo, em paz, dos momentos em que pensávamos "é isso que quero para mim" mesmo que a opinião tenha mudado ao longo do caminho. Naquele momento estávamos bem, sendo leais aos sentimentos que tínhamos que, podem muito bem terem mudado, assim como nós mudamos no decorrer da estrada da vida. O que vale, pois é a trajetória e não o fim do caminho, podemos mudar de rota mas jamais esqueceremos da viagem que fizemos.
E, assim, mais do que nunca eu percebo como é bom viver intensamente os pequenos momentos da vida para, quando dela sairmos, tenhamos na mente eternizados os momentos de alegria, felicidade e amor que vivenciamos. Viver procurando algo, metas grandiosas, pode ser perigoso se nos esquecermos de viver o hoje, os momentos que, ainda que pareçam singelos, poderão ser aqueles que, recordados no amanha, nos farão sorrir de alegria e orgulho por termos sentido sentimentos bons e alegres, por termos, enfim, "bem vivido".

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 09 de abril de 2008
.

Ciclo estúpido

Ciclo estúpido

Estupidez, grosseria, quem gosta? Duvido que alguém de uma afirmativa positiva. Ninguém gosta de ser respondido com estupidez, ninguém gosta de falas grosseiras e bruscas, todavia, mesmo quando todos falam que desejam respeito e que querem ser tratados dignamente não é maioria que respeita, e trata trata os outros com consideração quando esta se sentindo mal consigo ou com algum problema causando preocupações.
E é por isso que a raiva e o mal humor criam ciclos. O marido é grosseiro com a esposa que fica furiosa e descarrega no filho que chega na escola e acaba puxando briga com o coleguinha franzino, que, por sua vez ao sair do colégio descarrega a raiva na irmãzinha que, por ter apenas três anos de idade chora e importuna os pais ate dormir, irritando a mãe que acaba sendo grosseira com o marido lhe negando atenção e reclamando do que não deve. Bem, neste caso o ciclo parou numa discussão de casal, poderia acabar numa briga mais séria que, como estopim, fomenta uma separação, em outros casos o ciclo pode terminar num crime, em algo mais sério, enfim.
Ninguém é saco de pancada de ninguém, ou existe alguém que goste ou queira ser um? Existe alguém no mundo que queira ouvir grosserias, respostas estúpidas ou brutas? Creio que não. O cerne da vida em sociedade é que não se deve fazer ou falar ao outro o que não se deseja para si, e, também, o que não se queira ouvir. Não custa nada aprender a ser realmente racional na hora de agir e pensar que no corpo do outro também existe uma mente cansada, que trabalha, se incomoda, se dedica, se empenha e um coração que não deseja ser mal tratado por coisas que não deu causa e sequer sabe.
Fazer a raiva, a cólera interna proveniente de motivos que, de repente, sequer dizem respeito ao outro, gerar uma briga graças a uma palavra estúpida, literalmente mal dita, é o maior sinal de falta de razão do ser humano, é, pois um ato irracional. Todos tem o direito de sentir raiva, já diria Shakespeare, mas ninguém tem, junto com ele tem o direito de ser cruel com os outros.
Esta irado, furioso? Vá na frente do espelho e fale palavrões para si mesmo. Quer ir falar com quem lhe causou a ira? Ótimo, melhor descarregar a fúria em quem a causou do que naquele não tem nada haver com o problema e que, muitas vezes, deseja apenas o bem. Quer bater em alguém tamanho o ódio que esta sentindo? Bata em si mesmo ou compre um saco de areia para bater. Vá na academia, corra, descarregue as energias. Tome um banho, faça sexo, coma chocolate, beba algo que goste, saia para jantar. Faça qualquer coisa mas não seja injusto com quem não deve, porque, fazendo injustiças, sendo grosseiro ou estúpido com alguém, o outro estará sendo bem justo se um dia cansar de você.
Existem sempre formas mais inteligentes de se desvencilhar de um problema ao invés de criar outro magoando quem tem apreço por você. Roupa suja se lava em casa, dizem alguns. Na verdade roupa suja pode ser lavada na casa de quem a sujou, ou, se a intenção for perder a razão que a roupa seja lavada com a saliva ou lágrimas do outro, desde que este tenha sido quem a fez sujar e não alguém que nada fez e que, muitas vezes, acaba ouvindo grosserias sem saber porque. Direito de sentir raiva, de ter um dia de mau humor, todos temos, o que não podemos é ferir alguém que não tem nada haver com nossa crise interior que, se for realmente grande se resolve pagando um bom psicólogo, psiquiatra ou um grande, redondo e vermelho saco de pancadas.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 09 de abril de 2008.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Viver e deixar viver.

Viver e deixar viver.

Eu queria fazer uma proposta para o mundo erguendo uma bandeira onde estivessem escritas em letras garrafais as palavras liberdade, respeito e sinceridade. Por outro lado queimaria outra com as palavras hipocrisia, moralismo e falsidade. A maioria da sociedade, no fundo, não iria simpatizar com minha atitude vândala, criticaria quem e o que se o moralismo e a falsidade virassem cinzas e a vida alheia fosse respeitada?
As coisas mudam. A sociedade muda. Os moralistas se erigem contra praticamente todas as mudanças radicais da atualidade. Homossexuais vivem em união estável, querem ter direito a se casar, a adotar filhos, novelas retratam nova forma de constituição de família no estilo “Dona Flor”, os tabus, enfim, estão virando piada. A liberdade cresce, a libertinagem também. Mas, e daí?
O que realmente fica lesionado nesse mundo mais liberto em que a hipocrisia, ao menos no que diz respeito a sexo e afeto, vem diminuindo? Quais são os “valores” que estão sendo feridos, na verdade? E, enfim, qual a validade desses valores para o mundo enquanto um local de coexistência de seres diferentes?
Posso responder tudo, ou nada para a primeira pergunta. E uma direta afirmativa para a terceira: Nenhuma. Para as pessoas que se escondem por trás de preconceitos, “princípios” de ordem moralista fajuta, há “todos” respondendo à segunda pergunta. Para os que vêem o mundo como um local em que a verdade e a liberdade devem predominar, sem dúvida não se poderá vislumbrar mácula à nenhum “valor”.
Lealdade. Honestidade. Sinceridade. Verdade. Respeito. Esses são valores. Pudor, conservadorismo? Não, não são valores. O desejar que todos sejam heterossexuais e vivam da forma com que a maioria vive é querer cercear a liberdade dos que – por motivos individuais que não se deve perscrutar aqui - pensam e sentem de forma diferente. É ferir um principio fundamental da vida em sociedade, mais do que isso, um principio cristão: O respeito, o não fazer ao outro o que não se deseja para si.
Sempre digo que a única forma de amar ao próximo é através do respeito. Aceitar as diferenças. Viver e deixar viver deveria ser o lema, o valor básico de toda sociedade politizada. Sexo a um, sexo entre iguais, entre diferentes, sexo a três, amor a quatro, cinco, ou dois é uma questão pessoal. Errado é trair a confiança, os sentimentos alheios.
Errado é cometer fraudes, é lesar ao próximo, é ser desleal. Cada um vive como quer e deve deixar os outros exercerem seu direito de ser livre. Deixem os outros se embriagarem, cometerem as orgias que quiserem, falar as besteiras que desejarem. Deixem os outros serem felizes se não estão traindo a confiança de ninguém, se estão, enfim, apenas vivendo suas vidas. Cada um, sempre, na sua, com alguma coisa em comum: O desejo pela felicidade, bem estar, bem viver. Cada qual, obviamente, da sua forma.

Cláudia de Marchi

Marau, 03 de abril de 2008.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O contentamento.

O contentamento.

Não vejo como o ser humano pode dificultar tanto o 
seu caminho para o contentamento, nem como consegue colocar tantos preconceitos com o estado de contente, o confundindo com a posição dos acomodados.
Ser contente não é ser acomodado, pelo contrário, para tanto é necessário pouco comodismo mental. Estar contente com o que se possui, por exemplo, não significa olvidar de metas, de sonhos, da busca por outras realizações.
O certo é que ser contente é a arma de quem deseja aproveitar sua vida e ser feliz no único momento real que possui na vida: o presente. Sonhos, metas e
 ideais, via de regra, dizem respeito ao futuro para o qual a pessoa pode e deve despender seu ânimo, sua energia, pois para encarar as eventuais dificuldades que surjam no caminho que trilha ou pretende trilhar.
No presente estamos nesta ou naquela posição. Às vezes estamos felizes em nossa vida afetiva e frustrados em nossa atividade profissional, as vezes estamos com a carteira cheia e não temos alguém para chamar de “querido” e dar um presentinho qualquer. Às vezes temos dinheiro, um parceiro legal e nossa vida familiar esta um caos.
Outras podemos estar em ascensão profissional, cheios de pretendentes do sexo oposto, mas podemos estar em crise interior, confusão psicológica e mental. Tudo faz parte da trajetória humana. E é por disso saber que vejo a necessidade do se tornar contente para que sintamos felicidade em nosso presente e aproveitemos melhor nossa vida sem lamentar.
Feliz, já disse algum sábio, é quem se contenta com o que possui sem lamentar o que ainda não tem. Ninguém no mundo possui “tudo”. Aquele que achamos que tem “tudo” certamente irá responder que sente falta de algo, que busca alguma coisa, que gostaria que algo fosse diferente.
Infelizmente é assim, a tendência humana, ao que me parece, é a da eterna busca, do eterno descontentamento. Logo, o sujeito que aparentemente possui “tudo’, mas que não esta contente “ainda”, - porque ele sempre vai dizer que “quando tal coisa acontecer” ele se sentirá mais “realizado”- não é uma pessoa de coração e alma felizes.
Nada demasiado raro nessas constatações, apenas me apavoro com a tendência que o homem possui de lastimar, de se sentir vítima, vazio e infeliz, quando, tendo garra, saúde, e fé em si mesmo poderia se sentir bem, aceitando alguns inconvenientes, fruto, da vida de um ser imperfeito, e se contentando com o que possui para, sorrindo no presente, fortificar sua alma para buscar o que deseja no futuro, caso ele chegue, pois, do contrário, sairá da vida bem. Bem porque contente.
O contentamento é o pai da felicidade daqueles que vivem um dia de cada vez. Daqueles poucos sujeitos que, realmente, sabem viver sem achar motivos para invejar o outro ou se sentir inferior no mundo.
Ninguém é melhor ou pior do que ninguém, alguns são mais belos, mais ricos, mais inteligentes, mais auto-controlados, mais racionais, mais emocionais, mais politizados, mais famosos que outros, apenas isso. Melhor, na essência, ninguém é. E o primeiro passo para o contentamento é aceitar tal fato sem colocar-se em posição ilusória, seja ela no sentindo de superioridade ou inferioridade. Essa capacidade é rara na vida humana, lamentavelmente, assim como é raro encontrar um sujeito que se sinta verdadeiramente feliz.

Cláudia de Marchi

Marau/RS
, 27 de março de 2008.

terça-feira, 25 de março de 2008

Os que "correm atrás"

Os que "correm atrás"

Tem de tudo nessa vida, pessoas de todos os jeitos, com variadas formas de pensar, ser, sentir e viver. Certo é que pensar na maioria não é a melhor forma de verificar a qualidade dos pensamentos humanos. A maioria se engana demais, a maioria tem crenças errôneas, a maioria se vê como vítima de algo e acha que a felicidade esta por vir, às vezes passa a vida "querendo" ser feliz e esquecendo que o único momento adequado para isso é o presente.
A maioria das pessoas possui desejos e sonhos e se frustra, se deprime porque a vida não se lhe apresentou como queria. E assim os seres sofrem, se sentem pequenos diante da vida e os sentimentos de descontentamento se tornam tão fortes que acabam por ignorar as coisas que poderiam lhes fazer sorrir.
Sempre, em qualquer situação, teremos alguns inconvenientes, todavia a felicidade é proveniente da forma com que encaramos a vida como um todo. Se focarmos apenas para aquilo que nos desagradou e esquecermos das outras benesses que possuímos acabaremos a vida como infelizes e perderemos grandes oportunidades de sentir paz de espírito e alegria.
Quem passa a vida correndo atrás de um ou outro objetivo perde dela o seu melhor: A trajetória, o caminho, o dia a dia. E se por algum motivo o objetivo não se alcançar? E se morrermos antes de conseguirmos o que desejamos? Teremos um epitáfio no estilo "Aqui jaz aquele que lutou", e não algo como "Aqui jaz aquele que viveu: sorriu, chorou, amou, mas gozou cada segundo".
Poucos vivem, muitos existem na vida procurando algo que nem sempre encontram. Viver é sentir a vida, é colocar nos olhos a lente do contentamento. Ser feliz é ser contente com quem se é e com o que se possui e não lastimar o que não se tem. Ser feliz é se conformar em ser mais um, em ser um ser igual aos demais - nem melhor, nem pior. Cada pessoa tem suas virtudes. Especiais são as pessoas que conseguem ser contentes e humildes. Estes fazem parte da minoria- aqueles que, apesar dos pesares, são contentes.
Existem pessoas que não aceitam ser felizes, que querem tudo do seu jeito. O parceiro perfeito, a conta bancária recheada, ausência de débitos, ausência de devedores e credores, saúde perfeita, família harmônica, liberdade plena, amor, sexo, tudo numa simetria adequadissima. Mas não existe perfeição para quem é imperfeito. E, lamento informar, abaixo do céu e acima do chão não existem pessoas perfeitas nem vida ideal.
A vida requer paciência, complacência, compreensão de si mesmo e de seus limites, aceitação do outro como ele é, respeito ao próximo e a si mesmo, a suas limitações. A vida também requer que a respeitamos: Que aceitemos que nem tudo será da forma que desejamos, do contrário, se não aprendermos a sermos contentes com o pouco ou com o muito que possuímos jamais seremos felizes. Seremos apenas mais um frustrado no mundo. Um frustrado orgulhoso, que se achando melhor do que os outros viu a vida passar, as pessoas chegarem e saírem, sem aproveitar o bem que cada um teve e pode lhe fazer. Seremos, apenas mais um que viveu e morreu sozinho.
Quem acha que "amanha", que "quando a vida estiver desta ou daquela forma" será feliz não percebe que desconhece o que é felicidade e que, provavelmente quando tal dia chegar estará procurando outra coisa para correr atrás, Aliás, o mundo esta cheio de "corredores atrás profissionais". Correm atrás do amor, do dinheiro, do equilíbrio, da auto satisfação, do prazer e, enfim, da felicidade. Correm atrás porque desconhecem o que ela é. Ela é, pura e simplesmente, o ato de ser contente com a vida e com quem se é nela. Quem corre atrás da felicidade esta desperdiçando cada minuto porque enquanto a busca o descontentamento se instala, do contrário não a estaria buscando, e, isto sim, a estaria gozando.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 25 de março de 2008.

segunda-feira, 24 de março de 2008

O lado bom do sentimento ruim


O lado bom do sentimento ruim

Algumas pessoas gozam intensamente seus sentimentos. Quem ama profundamente, quem se entrega a um amor de cabeça e alma tende a fazer o mesmo quando sente ódio, raiva e outros sentimentos menos nobres e edificantes. Sabe-se que o oposto do amor é a indiferença, e não o ódio, este é, isto sim, a resposta do coração à uma frustração. Todo ódio um dia termina, assim como passam as tempestades, os terremotos e qualquer intempérie, enfim mesmo sendo um sentimento negativo na raiz ele pode gerar alguns frutos com sabor adocicado.
Na verdade todos os sentimentos possuem dois lados, embora negro na maioria das vezes o ódio pode ter um lado mais ameno, mais acinzentado quando dá forças a quem sofreu alguma frustração, alguma traição. Ele dá força para a superação e para o esquecimento e, quando a mente esquece quem lhe causou, quando a ira dá lugar ao asco, o ódio some. O tempo entra ai como o principal agente e o sentimento negativo como uma muleta que deixa de pé o individuo frustrado.
Só odeia quem tem orgulho e sofre alguma frustração ou traição. Aliás, traição não é apenas o adultério, este é, obviamente, o fim notório de qualquer sentimento por parte de quem nutre por si alguma estima. Trair é ser desleal com os sentimentos do outro, é ver seu sorriso, sua alegria, seu contentamento e amor sem expor o descontentamento, a vontade de colocar um fim no relacionamento, é deixar o outro crer em sentimentos não sentidos e sonhos que não se inteciona a realização. É deixar alguém amar e desejar algo sozinho fazendo-o crer através do silêncio que existe reciprocidade.
Frustração é expectativa não realizada, é planos feitos e cortados no meio do caminho. Mais triste é aquela que foi proveniente da traição por parte do outro que vendo o sonho alheio não alertou que não estava em sintonia com ele. Se o frustrado possui orgulho e estima própria não hesitara em fazer o amor se tornar ódio.
O bom disso é que todo ódio tem um pouco de desprezo, de asco, e com o passar do tempo é esse sentimento que passa a dominar, e, como toda pessoa que sente o estômago revoltar de nojo por algo acaba regurgitando o que sairá do individuo serão as lembranças do passado, os sonhos frustrados e, especialmente, aquela pessoa que gerou a frustração.
Nada, absolutamente nada é imutável nessa vida. Para uma pessoa equilibrada até o ódio pode se tornar positivo, basta que seja sentido de forma emocionalmente inteligente, assim ele será como um agente de reciclagem interna para fazer o sentimento frustrado se tornar desprezado e, conseqüentemente, esquecido. É por essas e por outras razões que fica visível a sabedoria latente da vida, Felizes os que, mesmo com o coração doído e os olhos lagrimejantes conseguem perceber a maravilha que é gozar a vida e seus sentimentos, bons e ruins, porque dependendo da força e vontade do individuo o que poderia ser ruim pode se tornar bastante salutar.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 24 de março de 2008.

sábado, 22 de março de 2008

Vantagens da feiúra

Vantagens da feiúra

Acabei de ler uma reportagem sobre um livro denominado Feo publicado por pelo jornalista argentino Gonzalo Otálora. O livro parece uma autobiografia e traz, também, as vantagens de ser um homem, digamos, “desprovido” de beleza.
Pois bem, dentre tais vantagens estão as seguintes: Não são acusados de assédio sexual no trabalho, não são enganados por uma viúva linda e interesseira (desconfiam que há algo de errado quando a “esmola” é demais), não precisam ser comparados- vencem o paradigma do corpo perfeito, e, dentre outras não citadas aqui, esta a que julgo ser a melhor: Os feios vivem um amor verdadeiro.
Disse o autor que se superada a primeira impressão, as brincadeiras e a mulher se apaixonar por um feio este será um amor honesto. Realmente, todavia afirmo que a pessoa apaixonada pode até ver a falta de beleza do outro, mas o amor tem seu efeito entorpecente: Mesmo uma parte estando ciente da ausência de formosura do amado (sendo esta a parte racional do ser), outra sente por ele uma forte atração e nele vê atributos que outros não percebem (sendo esta os olhos do afeto, a parte emocional).
Talvez por tal fato tenha o autor referido que o amor sentido por um feio é honesto. Mas, por ser mulher obrigo-me a falar das vantagens em não ser bela. Uma mulher que não é bonita, via de regra, sempre tem seu crescimento profissional creditado à sua “capacidade intelectual”. A bonita pode ser taxada como “amante” do chefe, ouvir comentários, – de longe é claro, - como: “Também com aquele decote”, “Você já viu a boca dela? E a bunda? Pudera não ter tido aumento. Acho feio, mas os homens adoram”.
O homem mais velho, ou não tão belo esta com uma namorada bonita. Ora, ora: “Ele deve ter mais dinheiro do que aparenta”. O povo pensa, o povo fala, enfim, o julgamento social estigmatiza as pessoas. A mulher bonita não entendeu uma piada, é porque é burra. Se a feia não entendeu é porque não estava prestando atenção.
Mulher bonita e inteligente passa meses do inicio de uma relação pensando se o cara ama ela mesmo, ou se esta com ela porque os seios são firmes, as pernas longas e elegantes, o sorriso bonito, e os cabelos bem tratados. Enfim, a mulher bonita se sente muitas vezes como um belo cartaz, e por ser pensante se indaga muito e sofre.
Fosse a mulher bonita e inteligente menos bela estaria contente. Saberia que os homens que lhe ligam estão interessados nela pelo senso de humor e inteligência. E, quando apaixonadas saberiam que o amante as admira pelo que são, afinal, a única beleza que perdura com o tempo e, inclusive, com ele aumenta é a da alma.
Ser linda pode ser ótimo, mas tem seus inconvenientes. Tem dias que ninguém quer ser chamado de belo, tem dias que a pessoa bonita se sente sufocada porque ninguém se esforça para ver o que há por trás de sua aparência, porque, enfim, ninguém tece um elogio a sua forma de ser. Podem elogiar suas roupas, seu sapato ou perfume, mas esquecem de elogiar seu gênio, seu humor, seu senso de solidariedade, por exemplo.
Ninguém gosta de se sentir como frutos na feira em que as pessoas escolhem pela aparência e só pensam em como será “por dentro” remotamente, porque, ainda com a possibilidade de levar um fruto ruim a beleza de sua aparência é o cerne para a aquisição.
Inonvenientes e convenientes o certo é que ser feio com personalidade e inteligência é mais meritório do que ser bonito e se tornar escravo das opiniões alheias. A pessoa pouco bela, mas com uma inteligência emocional aguçada e, consequentemente, com autoconfiança tende a ter menos problemas derivados dos estigmas colocados pelos tolos.
A mulher feia que se valoriza pode ter poucos homens para ir para a cama, poucas paqueras, poucos caras lhe olhando com interesse e poucos sujeitos a lhe ligar, mas quando tiver alguém que lhe diga que é “linda” sentirá a sinceridade de quem lhe estaja amando, pelo que é, e não pelo corpo que têm. Isso é ainda mais certo se além de feia for pobre, do contrário, outras dúvidas podem surgir.

Cláudia de Marchi

Marau, 22 de março de 2008
.

sábado, 8 de março de 2008

O PODER DAS MULHERES

O poder das mulheres

Pouca coisa me deixa tão amolada como ouvir de mulheres que elas gostariam de nascer homens numa possível próxima encarnação. Longe de ser feminista, sou racional e amo ser mulher.
Só as mulheres sabem o gostinho de ter orgulho por ter mudado leis, conceitos, superado preconceitos. Antes donas de casa, zelando por maridos, que, via de regra, perdiam o interesse por suas esposas e, (ingratos) acabavam fazendo com outras coisas saudavelmente impudicas que não faziam com suas “doces” (e passivas) esposas. Traidores com “T” maiúsculo, atualmente, infelizes com letras garrafais.
Hoje, mulheres altruístas, donas de suas vidas que terminam relacionamento quando, entre quatro paredes, as coisas não vão bem. Felizes somos nós mulheres que, além de ter o orgulho antes dito, podemos ter orgasmos múltiplos, podemos ficar excitadas na praia sem ter que colocar a mão sobre uma sunga ou sem ter que usar uma bermuda larga em pleno sol de 35 graus!
Se o mundo mudou, se os homens reviram seus conceitos – nos mais variados aspectos - foi porque, nós mulheres fortes, decididas e lutadoras, mudamos. Nós precisamos de amor (como todo ser humano, homens, mulheres, hetero ou homossexuais), mas, quando maduras, não dependemos emocionalmente de ninguém, apenas de nós mesmos e de nossa (boa) relação com nossa alma. Quando estamos de bem conosco ninguém nos segura, somos mais fortes e marcantes que o vento minuano e nem precisamos de eco para “abalar”.
Se quisermos comer, comemos. Se quisermos alguém usamos de nosso olhar poderoso, nossa inteligência perspicaz, nosso toque suave, nossa sensualidade sutil e marcante para conquistar, e se não quisermos usamos de nossa franqueza, educação, ou de nossa habilidade para a sinceridade felina (que arranha a alma alheia) e dispensamos. Com classe, ou não, mas sempre de acordo com nossa razão ou nosso instinto (porque não?) pois não precisamos do outro para pagar nossas contas ou nos levar num restaurante bacana- se quisermos ir nós vamos.
Temos amigas e independência – uma dupla que nos faz sorrir pela diversão propiciada e pela certeza de que, hoje em dia, nós mulheres amamos por deliberalidade, de coração e não porque nos consideramos dependentes do “bicho homem”- que é bom, muito bom. E, ao contrário do que dizem os machistas nós gostamos é de homem e não de dinheiro.
Dinheiro temos o nosso, temos bancos, agiotas e ninguém precisa saber de nossas dívidas. De homem a gente quer mesmo é o respeito, a fidelidade, o toque, o calor, a pegada, o afago, o cavalheirismo (não precisamos que nos paguem as contas, mas adoramos o cavalheiro que paga o jantar, não há nada de redundante nisso, mulher gosta de homens gentis) um pouquinho da alma e o coração, dentro dos limites, é claro, porque nós, mulheres modernas sabemos que não podemos querer a alma toda de ninguém, do contrário teremos que penhorar a nossa também a troco de amor. E relação saudável é baseada na confiança mútua, no respeito e na independência pessoal.
Nós gostamos de homem e ainda podemos criticar-lhes o potencial. Quem mandou achar vantagem fazer pipi em pé? A gente não precisa encanar com um falo pequeno, “PP”, médio, grande ou “GG” que não possuímos e, Freud me desculpe, não invejamos os deles. Hoje em dia somos donas de nosso nariz e “ele” deixou de significar independência e altruísmo. Fizemos pipi sentadas com orgulho, sim senhor!
Ser mulher é ser sensível, é aprender com a vida e com os homens a usar a razão, é ir à psicóloga para se descobrir um pouquinho mais, é ir ao salão de beleza e sair balançando as madeixas como se a rua fosse uma passarela, é se encontra com as amigas para falar besteiras, criticas as pseudomulheres que caçam dotes financeiros e não físicos, e ainda falar dos homens que acham bom “galinhar” se esquecendo que a língua feminina é afiada e crítica, muito crítica. Não agradou querido, a mulherada fala mesmo. Com ou sem razão, mas que falam, isso falam. Elas podem, com licença. Eles também, mas a crítica delas é muito mais letal porque mais cheia de detalhes, afinal, toda a mulher é um mundo de detalhes da alma à capacidade de criticar.
Nem todas são “top”, nem todas tem classe, nem todas tem elegância, traquejo e sensualidade ao mesmo tempo. Mas todas, pobres ou ricas, fugazes ou contidas, “piriguetes” ou chiques, possuem na alma um misto de poder e delicadeza. Algo divino, que Deus guardou só para as mulheres, porque, certamente, Nele há um pouco de nossa alma e na nossa há muito Dele, por isso nossa sensibilidade e capacidade de compaixão é aguçada.

Marau, 08 de março de 2008.

Cláudia de Marchi

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O rumo da Vida

O rumo da Vida

A vida é um paraíso de mistérios e é por não entendê-los que muitos fazem dela um inferno. Eu, porém gozo dela o seu melhor e vejo em tudo uma sabedoria latente, uma beleza estonteante, exemplo disso é o seu evoluir, a sua bela cadência. Exemplo disso é o rumo que ela dá aos seus viventes.
Qual o rumo da vida humana? Alguns se questionam, eu afirmo: A evolução. Apenas as almas muito medíocres regridem, pessoas razoáveis evoluem, aprendem, crescem, amadurecem. Seja sofrendo, seja sorrindo, seja caindo, seja tropeçando, a vida leva o homem ao aprimoramento, se ele opta por outros caminhos é por opção e demérito seu.
É graças à sapiência da Vida que as pessoas adquirem com o tempo aquilo que não perece com ele: A sabedoria, a maturidade, pois. Pode ser que a beleza juvenil vá findando lentamente, mas a beleza que se adquire com as experiências e o doce passar dos anos não acaba, pelo contrário, aumenta e, creio, não finde há sete palmos do chão.
Sabedoria é aquisição eterna do espírito. Beleza física diminui ou pode ser adquirida com dinheiro e um bom cirurgião plástico, dermatologistas, massagistas, esteticistas, enfim. Mas um dia ela será esquecida e o homem será lembrado pelo que foi, pelos sentimentos que gozou, pelos que expressou, pelas palavras ditas, pela força dada, pelos pensamentos que teve e pela pessoa que foi. Ou melhor, pela pessoa que se tornou. Homem de méritos é o que se torna algo melhor do que foi outrora.
Todos, cultos ou não, belos ou não, convictos ou indecisos acerca de nossa existência somos seres em transformação. Deixa de ser um destes quem escolhe morrer para a evolução colocando-se num pedestal infeliz porque ilusório (e ilusório porque proveniente de idéias de uma alma infeliz), ou, porque morre carnalmente.
Enquanto vivos todos somos aprendizes, todos estamos sujeitos a mudanças de idéias, de rumo. A vida não pára. E o homem jamais deixa de aprender. É por essas e por outras que me sinto feliz na proximidade de cada aniversário. Foram-se algumas lágrimas, passaram muitas risadas, tolerou-se muito, alguns silêncios, outras mancadas, mas sempre o saldo é de melhora, de evolução, do contrário não estaria viva. E viva a Vida!

Cláudia de Marchi

Marau, 22 de fevereiro de 2008
.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A benesse secreta do amor.


A benesse secreta do amor.

Certa vez eu ouvi que existem coisas que apenas quem ama compreende, releva, entende. Nunca dei tanta importância para tal fato enquanto era eu quem relevava, todavia ouvindo de uma das pessoas mas próximas de mim nesta vida o que ela alegremente suportava por amar constatei quão forte é tal fato, tendo em vista que a pessoa que ama, compreende e aceita com alegria no coração o que outros ouvem com desdém e criticam por inexperiência ou ignorância (a vizinha mais "chegada" da maldade).
Talvez seja por isso que jamais devemos ou podemos opinar na vida alheia no que diz respeito ao amor, às suas realizações afetivas, enfim. O que salta aos olhos dos pais do rapaz apaixonado, não afeta seus sentimentos. O que ele fala sobre o agir da amada que arrepia seus pais, não o impede de ama-lá e perdoa-lá. E só quem ama sabe o real significado da palavra perdão porque a vida a dois exige um constante "relevar".
Obviamente todos teu seu limite, que é, logicamente, o de seu amor próprio - os limites impostos por seu brio. Mas, enquanto o copo imaginário da paciência, da indulgência e, portanto, do amor ao outro não transborda, muitos gestos, atos, afirmativas e palavras são relevadas que se contados a outro seriam criticados. Só quem ama entende o ser amado a ponto de perdoar suas mancadas.
Todavia, o interessante é que quem não ama o ser que "mancou" ama à outro e deste aceita o que para outros seria inaceitável. É neste assunto que se verifica como, todos, absolutamente todos possuem telhado de vidro. Não podemos criticar ao outro, em especial se ele ama alguém, porque se hoje tripudiamos e reparamos sua paciência e indulgência, amanha seremos nós quem poderemos estar relevando coisas, quiçá, piores do que as que reparamos anteriormente.Ninguém esta imune ao amor e suas benesses. Afinal a paciência, a capacidade de entender e perdoar quem se ama gera a mais pura alegria e felicidade interior.
É, a vida é uma bela obra em que o silêncio vale ouro e a palavra, via de regra, custa menos do que a mais simplória das pratas. Calar-se é a melhor forma de evitar julgamentos, todavia, relevante é saber que se um dia escorregamos e pecamos por falar, coitados serão os que reparam ou criticam, porque a vida cobra com juros e correção o mau julgamento injusto dos que pouco sabem sobre ela e em especial sobre o amor - dádiva que enobrece a alma de quem a ele se entrega porque ensina imensuráveis lições.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 08 de fevereiro de 2008.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Caos Brasileiro

Caos Brasileiro

"Brasileiro não desiste nunca". É o que dizem. Creio que brasileiro não pode desistir de nada nunca, porque se pensar demais, desiste de viver, tenta mudar de País (porque mudar o País cansa, e brasileiro já é cansado demais), cortar os pulsos ou deixar a insanidade que ronda a porta de seus pensamentos lhe dominar e ir, devidamente amarrado, rumo à um Hospital Psiquiátrico.
Basta ler os jornais, assistir aos telejornais para ter essa sensação nauseante de "Que País é Este", aliás, acho que a música escrita pelo saudoso Renato Russo deveria ser nosso Hino Nacional, chega de "Ouviram do Ipiranga..." e "blá, blá,blá", como se aqui fosse o paraíso. Até a Amazônia os americanos estão julgando como deles e nada fazemos, o que nos resta? Fazer como nossos antecessores, os índios, fumar um cachimbo e dormir no melhor estilo "no stress".
Presos perigosos ganhando liberação no Natal enquanto o sistema carcerário se espanta com o não regresso de muitos. Criminosos contumazes são criminosos, e não quadrúpedes. Quem depois de tomar uma cerveja, ver a mulherada desfilando no verão, vai querer voltar para o cárcere? Além do mais já se sabe que com nossa pseudo-política criminal "mané" que entra em Presídio "Especialista em Roubo" sai "Mestrado em Homicídio". Ou seja, do jeito em que está não existe (nunca existiu na verdade) função ressocializadora da pena, de forma que até mesmo seu caráter retributivo esta deixando a desejar.
São jovens embriagados cometendo imprudências no trânsito, levando a vida de famílias inteiras, arruinando com o viver dos que não foram. Caos aéreo, juizados especiais instalados em aeroportos demonstrando que as próprias companhias reconhecem o desrespeito ao consumidor que cometem. Caos aéreo, caos terrestre, violência urbana. E o Congresso inerte, o Legislativo pensando em "leis", diga-se, estapafúrdias e imbecis como a cara que ficamos ao assistir os noticiários de televisão (instalar chips nos presidiários soltos nas datas festivas, é o cúmulo do absurdo, porque não pensam em construir mais presídios para que as penas sejam devidamente cumpridas?).
Brasil, o País em que nada ou quase nada funciona. O País da Constituição Federal perfeita, do Sistema Único de Saúde "teoricamente" perfeito e praticamente assombroso, praticamente criminoso. O País que durante anos malogrou seus contribuintes com uma contribuição chamada de "imposto do cheque" destinada à educação, à saúde, enfim, à tudo para a qual, na prática, ela não se destinou.
Quem quer educação procura instituições particulares, quem quer assegurar atendimento médico digno arca com no mínimo mil reais ao ano com plano de saúde, quem deseja segurança, além de pagar vários impostos e pedágios para trafegar em estradas razoavelmente boas, tem que fazer seguros. Nossa Nação tem riquezas naturais magníficas, mas desde a colonização faltou uma grande riqueza: A atitude, a garra, a vontade de agir, de se insurgir contra absurdos e até mesmo de guerrear.
E assim vamos vivendo. Ou paramos, respiramos fundo, enchemos nossos pulmões de ar e coração de esperança criando a ilusão que, (queira Deus se torne real), criaremos um lar diferente, filhos educados, pensantes e pouco frívolos, porque se não pensarmos um pouco em nós mesmos e nas nossas benesses interiores, na nossa boa vida afetiva ou financeira, enfim, naquelas pequenas coisas que nos alentam e alegram a alma, naquilo de bom que temos, só nos restará sorrir pela não aprovação da prorrogação da CPMF, afinal, se dependermos de nosso País para sermos felizes ou termos orgulho, iremos lavar roupa e morrer afogados no balde, porque a situação esta feia. Muito feia. Feissima.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 27 de dezembro de 2007.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Mais humanidade dentre os humanos.

Mais humanidade dentre os humanos.

Não ando em uma época de muitas palavras, tampouco de muita escrita. Talvez seja o excesso de trabalho, as mudanças profundas pelas quais minha vida vem passando, pelo excesso de vontade em cumprir com excelência todas as tarefas que assumi, enfim, estou numa fase de não muito escrever ou falar, mas de muita ação, o que, todavia, não significa inatividade psíquica ou emocional, se assim fosse estaria morta.
Faz algum tempo que não escrevo, um pouco mais de um mês, venho sentindo falta, mas aqui estou, na tradicional época de final de ano, de “espírito natalino”, a colocar no papel minhas idéias. Escrevo para falar o que desejo à humanidade no ano que em breve inicia.
Paz no coração? Amor, saúde, dinheiro, companheirismo? Sim, obviamente, desejo isso e muito mais e é o que também desejo para minha vida pessoal em 2008, todavia, o que mais desejo é mais “humanidade” no coração dos seres humanos. Desejo que os homens aprendam a sentir mais, a ter mais compaixão, e, assim, a exercer o real amor cristão.
Colocar-se no lugar do outro, julgar menos, compreender mais, ser mais paciente, compreensivo, sem deixar de ter brio, coragem e força. Ser forte sem ser duro, ser complacente sem ser “tapete” de ninguém. Auto-respeito, respeito ao próximo, amor ao outro, isso torna o homem realmente humano, do contrário é um animal, um ser racional na teoria e sem sensibilidade na prática, logo, algo desumano.
“Amar ao próximo como a si mesmo” significa respeitar ao outro, não fazer a ele o que não deseja que ele lhe faça, não dizer o que não gostaria de ouvir e se disser, saber que toda atitude gera uma reação. Via de regra, uma reação proporcional ao agravo, ou ao agrado.
Dê dureza, grosseria, rancor, críticas e recebas o mesmo em troca. Do contrário, basta dar amor, basta respeitar, porque os frutos da árvore do bem se multiplicam em dobro se comparados com os gerados na árvore do mal e das mazelas, sejam elas psíquicas ou manifestadas em atos.
Sonho, pois, com um 2008 mais humano. Mais respeito no trânsito, na fila do banco, entre clientes e empresários, entre outorgantes e outorgados, entre casais, entre pais e filhos, entre as famílias, enfim, mais amor no coração dos homens, porque é a capacidade de amar e, portanto, de sentir compaixão que torna o homem realmente humano.

Marau, 22 de dezembro de 2007.

Cláudia de Marchi

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Virtude de mestre


Virtude de mestre

A auto-confiança é uma bela virtude. Mas, como tudo o que é virtuoso não pode ser excessiva. Há limites para tudo neste mundo, das maiores virtudes até às mais humildes atitudes. O homem se torna um perigo para si mesmo quando passa a crer demais em si mesmo e no seu "talento".
Confiar no seu "taco", dizem, é importante. Confiar em Deus, digo, também o é. Confiar em si mesmo, na própria força, garra e virtudes também é sumamente necessário. Mas confundir "tudo" e passar a crer que se é o próprio Deus no mundo, o "todo poderoso" Rei da Vida não é nada interessante. Quando o homem esta acreditando poder tudo, vem ela (a Vida) e, sorrateiramente, mostra que ele não pode gerir tudo nela, tampouco te-lá, sempre, como deseja.
Lembro que alguém certa vez comentou que existem juizes que pensam que são Deus, outros que acham que são, e outros, ainda, que tem certeza disso. Da mesma forma existem pessoas assim, cuja auto-confiança e certeza de seu próprio poder e aptidões as tornam arrogantes e estupidamente "cheias de si".
E de tão "cheias de si" que ficam acabam por se tornar vazias. Vazias de humildade, de amor para dar e receber e, porque não dizer, de alegria de viver, porque todo arrogante afasta de si as pessoas, inclusive as que julga amar. Existe um filme sensacional que fiz questão de assistir duas vezes que mostra tal fato, chama-se "Crime de Mestre".
Tudo poderia ser excelente para os personagens se ambos soubessem conter o ego inflado. A convicção de ser o melhor, o excelente, o "the best" em sua profissão, no caso de um advogado, e em seu agir no caso do personagem do bom e velho Anthony Hopkins estragam as pretensões de ambos em momentos diferentes da trama. Coincidentemente, no final vence aquele que reconheceu sua falha, enquanto é vencido e se esvai pela própria arrogância aquele que, não contente em ter para si a proeza realizada, precisa conta-la, gabar-se. (De fato, grandes peixes morrem pela boca.)
Uma das grandes lições deste filme que considero um dos melhores que assisti nos últimos meses é esta. Mas não é preciso assisti-lo para depreender tal aprendizado, basta observar a vida, muitas vezes a nossa própria: Ela vem, quieta, humilde, e, de repente, puxa o tapete daquele que esta acreditando demais em suas virtudes e proezas. Por outro lado, se mantém elevado aquele que confia em si mesmo sem perder a melhor virtude que um homem pode ter: A humildade.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 31 de outubro de 2007.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Se é amor...

Se é amor...

Se é amor que seja verdadeiro. Que seja intenso, de corpo e alma, de mãos, pés, abraços, beijos, nucas, cheiros, cabelos, apertões, carícias. Que seja de desejos para o futuro, de sonhos sonhados juntos, de esperanças divididas, de reclamações e dores compartilhadas ao pé do ouvido, de abraços, de apoio, de confiança. Se é amor que seja de olho no olho, mãos entrelaçadas, corpos e alma unidos, perdão bem disposto.Se é amor que seja de doação e não de comodato, de compra e venda ou arredamento, nem, necessariamente, de "casamento". Amor puro cultivado no dia a dia. Amor puro, que apenas do amor depende.
Amor sem pedir retribuições que não sejam as à ele inerentes: Respeito, sempre. Confiança, companheirismo, parceria, união. Lealdade e fidelidade. Todos entrelaçados. Quem não respeita, não faz companhia, não divide a vida, as dores da alma, as alegrias do coração, quem não compartilha leva o relacionamento rumo à bancarrota da deslealdade, da infidelidade em suas diversas manifestações, dos atos impensados de mágoa.
Se é amor que penda para o perdão. Não para as cobranças. Se é para perdoar que seja da alma para dentro, e não da boca para fora. Que seja o perdão coerente e racional que avalia a conduta alheia sem olvidar da sua, e, pois da sua própria culpa e ato gerador da atitude magoante ou "desgastante" do outro. Perdão sem cobranças, sem "o jogar na cara", porque se do contrário for não é puro, não é verdadeiro, e, logicamente, não é perdão de quem ama de verdade.
Se é amor de enamorados que seja assumido. Assumido no silêncio dos olhares, na paciência, no convívio, no saber ceder espaço, no coração, na alma, no lar. Não precisa de alianças, champagne de primeira, festa de alta classe. Precisa de amor. Precisa de respeito à liberdade do outro, às limitações do outro e a "bagagem" de probleminhas que toda pessoa traz consigo, às tradicionais "diferenças de criação e vivência". Precisa de coragem e maturidade para compartilhar a vida com alguém sem querer ou pensar em dele se adonar.
Amar não é prender. Não é privar das amizades, da individualidade, dos momentos de solidão ou confraternização intima e com amigos que todos precisam para se sentirem sãos de espírito e donos de si mesmos apesar de ter alguém importante no coração. Amar é respeitar, é ceder espaço e, inclusive, liberdade ao outro. É, pois, confiar e sorrir tranqüilamente sabendo que quem ama e é bem amado não é seu por uma escritura pública ou prisão de qualquer forma. Mas porque lhe ama, respeita, confia e admira.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 24 de outubro de 2007.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Sem inocência

Sem inocência

Apesar dos princípios de algumas religiões e de pontos de vista filosóficos e espirituais variados afirmo que o ser humano é inocente pelo que lhe “ocorre” unicamente do zero aos 9 meses de vida. Ou seja, o único ato pelo qual (teoricamente) ninguém pede e tampouco gera é o de “vir ao mundo”.
Depois que nasce o homem não é inocente por nada. Por mais injustiçado que seja, por maior que seja a sua dor, de alguma forma, consciente ou não, foi ele quem lhe deu causa. Não existem adultos inocentes, ou vítimas do acaso, do destino ou dos outros.
Existem, isto sim, homens vítimas de si mesmos. As pessoas geram o seu sofrimento das mais variadas formas. Por terem medo de amar, por terem medo de se entregar à algo, à uma situação ou sentimento, por temerem o amanha, o “dar certo” (que acarreta responsabilidades) ou o dar “errado” que acarreta frustrações.
O homem erra por omissão, erra através de atos, falha com os outros por não lhes dar valor, atenção, erra consigo por temer demais o que deveria apenas sentir e gozar, por não seguir sua intuição e seu coração. E, assim, não existem adultos vítimas de ninguém. Apenas deles mesmos.
Ademais, toda ação gera uma reação. Nem sequer um tapa levado na cara neste mundo é dado em vão. Por trás da ira do agressor, da mágoa do traidor, da mentira do “camarada”, da revolta da esposa, da displicência do companheiro, existem e existirão, sempre, um “porque”, algum motivo que nem sempre é admitido.
O homem não deixa de ser culpado, o homem não deixa de ser vítima da humanidade apenas porque nasce e tem consigo o dom da racionalidade. Mas, porque convive. Viver só não é tarefa das mais difíceis, em especial para os covardes. Conviver sim, é uma arte que apenas as pessoas emocionalmente seguras e inteligentes conseguem edificar.
Ceder, ponderar, transigir, respeitar. Dar e receber, e, principalmente ter a consciência de que no convívio não se “age” só. O agir de um refletirá na resposta, na atitude e, quiçá, na omissão do outro. E é por isso que, neste exato momento, inúmeras pessoas estão derramando lágrimas.
Lágrimas que elas mesmas geraram, quiçá sem saber que suas atitudes as levariam à dor, mas a vida não exige que saibamos o que ela nos mostrará. Ela nos cutuca a ferida e nos aponta, queiramos ou não, saibamos ou não, o porquê de nossas mazelas.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de outubro de 2007.

O lobo da alma humana

O lobo da alma humana

Tem dias que a gente se sente um guerrilheiro preso pelos inimigos. Canhões, armas, mãos, soqueiras, ameaças, tudo direcionado contra nós, nos constrangendo, pressionando, e, porque não admitir: Amedrontando. Quem leu Myra y Lópes sabe que o medo (como um gigante de nossa alma) quando elevado, faz a ira nos enrubescer a face e amargar o coração.
Todo mundo já sentiu-se no limite. No limite da paciência, da serenidade, do equilibro. Todo ser humano já deve ter tido a vontade de dizer: "Sim, eu estou fora do meu equilíbrio. Suma. Me deixe em paz". Alguns dizem, outros remoem a vontade de dizer, e outros, mais racionais ainda esperam a raiva passar e a serenidade voltar.
Eu faço parte do grupo dos impulsivos. Do grupo dos que magoam sem querer por perder o auto-controle. É medo de fracassar, medo de fraquejar, de errar, medo de ser criticado, julgado injustamente, medo de se ferir, e, inclusive de magoar e ser magoado. Orgulho?Talvez. Fraqueza?Certamente. Mas é preferível admitir uma fraqueza e respirar aliviado do que viver constantemente sobre a pressão do "tenho que ser infalível".
Todos somos falíveis. Todos somos capazes de gestos nobres, iluminados e gloriosos e outros nem tanto. Outros horrendos, de vingança, de raiva, de descontrole, porque não admitir? Não quero viver a vida e afirmar para mim mesma, como fez Fernando Pessoa, que todos se fazem passar por príncipes na vida. Eu não sou princesa. Não sou santa, nem perfeita, com o respeito de minha mãe que me exige perfeição desde antes de eu nascer.
O que me alegra nas atitudes vãs e vis do ser humano é, justamente, a impulsividade. O impulsivo é aquele que precisa aprender a pensar antes e não depois de agir. Bem, pelo menos ele tem uma tarefa a aprender na vida, e sabe disso, pior é aquele que se achando perfeito se vê como imutável demonstrando uma ignorância imensa e sui generis.
Pois bem: Felizes os impulsivos porque deles poderá ser o reino dos aprendizes na escola da vida. Como advogada sempre disse que o homicídio é o mais "humano" dos crimes. Não falo do assassinato planejado, feito de forma estratégica, falo daquele mais passional, onde o cidadão age, agride e mata (às vezes sem desejar tal resultado) e se arrepende depois. Agiu sem pensar, por impulso. Ao contrário daqueles que não lesionam o corpo ou levam uma vida humana mas planejam na surdina de suas mentes cometer um ato ilegal e lesar alguém.
A impulsividade é o lobo que ronda a alma humana para lhe equiparar aos animais. Mas, e daí?O homem é um animal, porém racional. Obviamente, precisa aprender a mandar este lobo para longe de sua mente e domina-lá usando o dom que se chama razão. Todavia, quando não o faz, inegável a possibilidade do arrepender-se, e, de preferência, de aprender com o erro.
Mais triste do que errar por impulso é planejar o erro, é prever o resultado, é vingar-se, é agir com meticulosidade para obter um resultado que venha a magoar alguém. Erros não justificam erros, mas o fato do homem ser humano justifica o fato dele errar. E se é pra errar que seja por um impulso ruim, e não por uma maldade permanente e contumaz. Errar é humano, errar sabendo do erro e o desejando é comprovação de maldade humana. Antes o ser instintivo do que o racionalmente pérfido.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de outubro de 2007.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Além do saber amar

Além do saber amar

O que você espera de quem você ama? Irmãos, pais, amigos, namorado, esposa? Respeito?Compreensão?Apoio?Amor, claro, amor! E a maior demonstração de amor é o respeito. Ninguém ama sem admirar com a alma, ninguém admira sem raciocinar na importância da pessoa em sua vida.
O grande problema ocorre quando, por não se amarem, as pessoas não conseguem se deixar amar. Disse Herbert Viana: "Saber amar, é saber deixar alguém te amar". Mas não é só isso. Não mesmo. Saber amar também é deixar o egoísmo de lado, fazer pequenas abdicações sem "jogar" na cara do outro o "esforço". É ouvir, compreender, é ser parceiro nas horas de risos, lágrimas, gozo e tristeza.
Todavia quem não sabe se amar, quem não ama à si mesmo, quem não valoriza quem é jamais vai conseguir compreender o amor que recebe, jamais vai saber a importância de dar e receber carinho e atenção. Quem não se ama é um morto vivo na vida afetiva: Muito embora fale de sentimentos, ande em busca deles, não consegue vive-los, senti-los e goza-los.
Não importa o quanto uma pessoa que não se ame seja amada, ela nunca irá dar o devido valor à quem lhe estima. Nem a ela mesmo ela dá. E dar valor, é, sim, demonstrar o que sente, com palavras, gestos, afeto e, sobretudo, respeito. Para que maltratar, para que xingar ou ser estúpido com quem lhes tem no coração? Errar alguma vez em meio as turbulências diárias é perdoável, mas se redimir com respeito e carinho é a melhor solução, afinal, não existe amor que suporte desrespeitos e atitudes de tripudio a seu sentir.
Não há mistérios no caminho dos relacionamentos. Amor próprio é o primeiro passo, auto respeito, junto com aquele, depois é encontrar alguém por quem a alma palpite, admire, se encante e a ele dar o seu melhor: Amor e respeito, consideração a seus sentimentos e essência. Nada tão complicado, e, como tudo que envolve o ser humano parte da premissa de fazer ao outro o que deseja que ele lhe faça.
Antes de querer apenas ser amado, cuidado, e zelado, é necessário desejar dar amor, cuidados, zelo e carinho. A vida é uma comunhão de sentimentos onde os egoístas nadam e morrem na praia. Sós, infelizmente, sós com suas reclamações, ao lado daqueles que não souberam se amar, ser amados e dar amor. A vida dá ao homem de acordo com suas atitudes. Sempre foi assim. E sempre será. Ninguém sofre em vão, ninguém é feliz sem razão.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 19 de outubro de 2007.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Verdades do amor

Verdades do amor

Em que lugar o amor morre? Aonde ele se perde? Em que ponto do caminho do relacionamento a solidão vai para um lado, o costume e a carência para outro e o amor fica no chão, esmagado na confusão de sentimentos e ilusões? Onde reside o amor no coração dos que não gostam da própria existência, onde reside este nobre sentimento na alma daqueles que não confiam em quem dizem amar?
Complicado não é sentir, complicado não é viver, complicado é complicar o que nasceu para ser simples, leve e saudável: A vida e os sentimentos que são mananciais de alegria e rejubilo no coração dos que a eles se entregam, e, sabem se entregar sem medo de sofrer. Não sei se o amor morre, creio que o amor de verdade não morre nunca, apenas se esconde. Se esconde embaixo do amor próprio daquele que ama alguém, mas que, por algum motivo se cansa.
Existem situações intoleráveis, desrespeitos insuportáveis, atitudes magoantes, desconfianças sem sentido, acusações infundadas e ofensivas, e o amor, ao contrário do que podem pensar alguns, não "agüenta tudo". O amor é sentido forte no peito, na alma, mas ele acaba, aos poucos, se escondendo para que o amor próprio prevaleça. Quem agüenta desaforos, quem "agüenta" tudo não ama. Não ama, porque não se ama.
O amor também não se perde. Ou ele existe e permanece, ou ele se esconde para que amor próprio se liberte e o individuo consiga ser feliz, com ele mesmo e, quiçá, com outro alguém. Amor não se conjuga no passado, já dizia o poeta. Ou ele existe hoje, ou se escondeu para o auto-respeito prevalecer, ou, na verdade, nunca existiu. Foi paixão, foi ilusão ou, porque não, medo de solidão.
Certo, porém, é que aquele que não ama à si mesmo e à sua vida e nem dá a ela os seus melhores sentimentos não ama ninguém. Dizer que alguém que não ama a própria vida é capaz de amar verdadeiramente alguém é o mesmo que dizer que "chocolate é doce como limão": Uma redundância estúpida que indica algo impossível. Confiança, respeito mútuo, capacidade de ceder e compreender são os maiores indicativos da existência de tal sentimento. E quem não confia em si mesmo, nem se respeita não pode dar ao outro o que não conhece e possui.
Relacionar-se, assim como viver é prazeroso. Prazeroso para quem tem prazer em ser quem é, viver como vive, amando à si mesmo e a vida que possui. O homem faz da sua vida, dos seus relacionamentos e dos seus sentimentos aquilo que pensa deles. Felizes no amor são os que acreditam nele, relacionamentos harmônicos possuem aqueles que acreditam que a inteligência, a sensibilidade e uma boa dose de sentimento puro podem tornar uma relação entre seres diferentes uma forma agradável de viver, aprender e crescer em união, é claro.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 16 de outubro de 2007.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

(A) Os homens pais

(A)Os homens pais

"Antes eu fazia umas loucuras de moto e agora eu penso: Tenho uma filhinha para cuidar". Ouvi essa frase de um grande amigo que foi abençoado com a paternidade há quase 2 meses atrás, ou melhor, quase 11 meses, porque a benção do espírito paterno nasce com a concepção e desde o momento em que os papais tomam consciência de que algo pequeninamente grandioso virá iluminar e mudar suas vidas.Me emocionei com tal afirmativa.
Todos falam da benção que é ser mãe. Acho que as mulheres sempre tiveram a maternidade como uma benesse divina, pessoal e própria, a ponto, inclusive de afastarem dos homens, dos pais, o gozo da sensação de "ser pai" e de se vincularem com o filho. Quase véspera do dia das crianças (data que me traz doces recordações) eu me comovo ao ver o que um filho faz na vida de um homem.
Bom pai não é o "papai casado com a mamãe!, tampouco é aquele que "dá" tudo, que "compra" tudo. Bom pai é aquele que se apodera do espírito da paternidade. Que sorri enternecido ao ver seu pequeno, sentindo-se forte e responsável por sua educação. Experimentando uma sensação de importância e relevância no mundo, certamente, nunca sentida. A paternidade, tal qual a maternidade, muda a vida de uma pessoa, tirando de seus umbigos o foco de seu viver.
Chega um momento na vida de todo ser humano que as coisas se tornam repetidas, que o quente e o frio ficam, simplesmente "mornos": Mesmas obrigações, mesmas comemorações, responsabilidade pessoal que vai ficando tão insossa a ponto de requerer irresponsabilidades: exageros, bebedeiras, saídas sem olhar para trás, atitudes sem olhar para frente.
E é em tal momento quem um filho vem como uma dádiva. Uma dádiva que nasce e faz o homem renascer para sentimentos e sensações praticamente divinas. É isso que senti e apreendi do estado de espírito de meu grande amigo, e, certamente, grande pai. É o que percebo em muitos grandes pais que conheço: O filho se torna uma razão de viver que se confunde com sua própria vida e entusiasmo perante ela. (Dizer "meu filho" com ternura é algo emocionante, tal qual ouvir).
Bem aventurados os filhos dos bons pais. Bem aventuradas as crianças que vieram à este mundo que não é nenhum paraíso, mas se torna um local mais doce e agradável quando há uma mão forte para lhes segurar, um abraço caloroso para lhes propulsar ânimo e acarinhar de forma a lhes ensinar a ser adultos fortes e maduros.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 11 de outubro de 2007.

Doação de sentimentos

Doação de sentimentos

Mais difícil do que rejubilar-se com a vida, do que ver graça nela apesar das adversidades, mais difícil do que conquistar um coração é fazer ou tentar fazer seu dono feliz. De todas as pretensões não creio que ser amado seja a maior, a maior pretensão que o homem pode ter é, para mim, a de fazer seu par ser feliz quando ele não é.
Pode o amor ser dado, o afago, o carinho e o ombro amigo, serem garantidos, podem serem ditas milhares de palavras de apoio e estima, a força e paz serem emanadas, nada é suficiente para suprir o que o outro, talvez, não possua: Paz de espírito, apreço por si mesmo, gratidão à Deus pela vida que tem, e, portanto, felicidade por ser quem é.
Felicidade, nesse aspecto é a de sentir-se bem na própria pele, sendo quem se é, respeitando a si mesmo, seus defeitos e mancadas, vendo a luz das virtudes apesar das pedras dos defeitos que existem para serem superados e afastados de nosso caminho. Amar a si mesmo é respeitar as próprias fraquezas, é se cobrar por alguns fatos, mas não se torturar pelo fato de ser humano, ou seja, de ser imperfeito.
Falo, em suma, de que é assumir uma função torturante e impossível a de querer "fazer alguém feliz". Se alguém precisa ser "feito" feliz é porque não é completo. E ninguém completa ninguém, muito embora os românticos menos realistas prefiram crer nessa ilusão. Amigos, casais harmoniosos se "somam", compartilham sentimentos e vivências e não se completam. São maduros, e, portanto, "cheios" em si mesmos.
Plenos de amor, de alegria, de auto-confiança e, também, desejosos por compartilhar com alguém as benesses de sua alma clara, como diria Gil, que apenas o amante "clarividente" e, como ele, apto para o amor poderá enxergar. Quem precisa de completude é porque é semi-vazio, e qualquer coisa semi vazia não pode gozar do "cheio" do amor. Quem não é, pois, completo e feliz consigo e em si mesmo, não poderá ser feito assim por outro alguém.
A intenção de quem deseja fazer alguém feliz é nobre, mas o resultado é catastrófico. Em especial porque aquele que não consegue se rejubilar com o que tem de bom na vida, que não consegue se regozijar consigo mesmo, demonstrando amor-próprio e felicidade interior, jamais poderá amar a alguém e, tampouco, conseguir compartilhar uma vida, bons e belos momentos. Inevitável, portanto a frustração daquele que quis fazer um bem maior para alguém. O bem de lhe dar algo que não possui, que, quiçá seja um algo chamado paz.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 11 de agosto de 2007.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Pessoas farpas

Pessoas farpas

A vida não é difícil. Conviver também não, é uma questão de paciência e complacência, o que é difícil são as pessoas que não percebem que viver é fácil. Difíceis são, também, aqueles que não percebem que em crescer, também, inexiste dificuldade bastando um pouco de coragem e entusiasmo para levantar-se de manha sem precisar da aprovação alheia, de elogios ou de força.
Viver requer força, é verdade, mas força pessoal, estima própria. Pessoas que precisam do apoio e do entusiasmo alheios para sentirem-se bem são extremamente difíceis, ou melhor, são pessoas chatas. Inconvenientemente chatas, a ponto de se tornarem pesadas, tanto na energia que emanam como na "adequação" na vida alheia - elas se tornam fardos. Não tão pesados, é verdade, mas fardinhos de chatice irritantes como farpas.
Infelizmente não são poucas as pessoas que se tornam dependentes da atenção alheia para viver e buscam, através de mesquinharias, formas de serem agradadas, exaltadas e, enfim, de chamar para si os holofotes dos sentimentos alheios ainda que para tanto tenham que se colocar em posição de inferioridade frente aos outros.
À alguns falta vergonha para se fazer de infelizes e buscar a atenção dos outros, enquanto sobra pouco apreço por si mesmo e carência. Todavia existem males que ninguém pode solucionar a não ser o próprio homem. A vida requer a convivência social, mas a felicidade e o bem estar são coisas extremamente individuais. Individuais e "optativas"- basta querer ser feliz, basta desejar simplificar a existência.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 10 de outubro de 2007.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Crenças do bem.

Crenças do bem.

Digam que a vida é dura, digam que a torpeza impera, digam que não existem mais pessoas honestas e verdadeiras, digam que o amor se tornou sinônimo de conveniência e que carinho se coaduna mais com carência do que com sinceridade, digam que a família é um berço de hipocrisia, digam que a verdade morreu e foi jogada no oceano amarrada na imensa pedra da justiça.
Digam que sou otimista, inocente, digam que vivo num mundo próprio, digam que sou uma autista que só ouve o que lhe apraz. Eu digo que vejo a realidade, ouço tudo, compreendo muito, mas em meu coração não aceito a versão pseudo-realista do mundo, que não vê nada, além de desencanto e que, aos poucos, perde a esperança na vida e, sem perceber, deixa de viver, porque, simplesmente deixou de sentir o bem a ela inerente. Viver é uma dádiva que poucos gozam.
Eu tenho fé na vida, na coragem, na força e no empenho dos bons homens. Acredito no ser humano, mas desconfio bastante, ora, porque não? Eu disse que não sou autista, tampouco tola, mas eu sinto a vida e seu fluir, o homem e seu sentir, a energia do olhar dos bons, a malevolência do sorriso dos maus, e de vez em quando confio e desconfio ao mesmo tempo, porém sempre prefiro a alegria especial da confiança que as pessoas especiais me inspiram.
Tenho na pele estrelas tatuadas porque espero que o bem brilhe na constelação de minha existência, do lado esquerdo fiz um coração. Um coração que jamais sairá de meu corpo porque simboliza que, acima de tudo, é no amor que acredito. No amor e no respeito, seu sinônimo especial e abrangente. Quem ama respeita, sempre.
Creio no amor sincero, verdadeiro, não na troca vulgar de momentos sem sentimentos. Eu acredito em sensações, sentimentos fortes e marcantes. Que marcam o coração como a tatuagem marca a pele. Sim, eu conheço a dor, sinto as dores do mundo, tenho compaixão como raras possuem: A dor daqueles que sinto que são especiais me emociona.
Mas, sempre, há o “apesar”. E eu vejo além da dor, além da injustiça de hoje, além da maldade, da inveja, da maledicência, além dos berços dos mal amados, além das famílias desunidas, além das palavras jogadas ao vento pelos mentirosos e estelionatários sentimentais.
Eu vejo a vida que eu quero, somo à energia da vida que tenho, e sei da vida que levo, dos caminhos que escolho, do rumo que tomo, por mais que me critiquem, é preferível ser feliz e criticado, a ser triste e adequado. Desconfio do que é demasiado perfeito e “de acordo”.
E, sobretudo, creio ser preferível a dor da verdade a conveniência da mentira agradável. Bem aventurados os sinceros, os que acreditam que a justiça divina pode se estender sobre os homens fazendo com que, com um pouco de luz, seja feita, também, por eles. Ainda acredito no ser humano. Nos indivíduos do bem, posto que, ainda que raros sempre irão valer mais do que uma multidão dos maus.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 08 de outubro de 2007.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A miserabilidade da pena de prisão no processo penal.

A miserabilidade da pena de prisão no processo penal.

Cláudia de Marchi[1]


O Direito Criminal sempre me encantou, antes mesmo de me formar na Universidade de Passo Fundo trabalhei ao lado de um dos melhores e mais honestos advogados criminalistas da região, após, porém, me afastei um pouco da área, com uma espécie de medo de afirmar-me como criminalista mulher perante a sociedade.
Na verdade, a palavra criminalista mascara alguns estigmas negativos, sendo cada vez mais difícil a atuação dos advogados nesta área, em que o Ministério Público é colocado como anjo a favor da sociedade, e os advogado de defesa como um ente praticamente “pró-criminoso”. O que não é verdade, como diria Francesco Carnelutti, o advogado é aquele que é chamado a socorrer (“Advocatus, vocatus ad”) tal qual o médico, mas apenas a ele é dado este nome, porque à ele se pede a forma essencial de ajuda que é a amizade[2]. Amizade, frise-se, não à delinqüência, mas à família do delinqüente, e, porque não dizer, dentro de certos limites profissionais e morais, à ele mesmo.
Pois bem, o Direito Penal não foi uma paixão passageira em minha vida, tenho hoje, a certeza de que minha afinidade pela área constitui-se em um amor, porque mesmo distante, voltei a atuar em alguns casos e sinto aquela alegria jovial que chega a tirar-me o sono tamanha a empolgação e, inclusive, preocupação com certos casos.
Algumas menções e palavras ficam na mente do advogado. Atendi ao pai de um novo cliente, um rapaz de boa família, que, como eu, estudou nos melhores colégios da cidade, tendo sido meu colega durante o segundo grau, e na própria Faculdade de Direito. Drogado, há alguns anos assassinou a parceira, igualmente viciada, num momento em que, certamente, a razão lhe faltou. Sem ter conseguido a progressão de regime com 1/6 da pena, o pai busca um Recurso, e me disse, de forma a comover-me: “Eu sei que se eu tirar meu filho de lá agora eu ainda posso recupera-lo. Se ele ficar lá dentro mais tempo, eu vou perde-lo.” É doído ouvir isso, dói na alma porque faz pensar na realidade do sistema penal brasileiro. Na realidade do Brasil, enfim.
Ao contrário do que afirma a maioria das pessoas eu não vejo problema na ausência de leis, eu vejo problema na falta de política criminal. Na falta de atitude do Estado ao pensar no futuro, na necessidade de aplicação de penas enquanto faltam lugares nas prisões, quando a corrupção existe no Governo e dentro dos careceres. Vejo problema nos poucos presídios existentes, na degradante situação dos presidiários, enfim, na constatação de que a pena de prisão pode punir, retribuir ao “mal do crime a sua pena”, mas nunca, jamais atua de forma preventiva especial, ou seja, dando meios para a ressocialização do condenado. Pelo contrário, creio que o individuo saia do presídio carregado de aprendizados negativos.
Poderiam ser implantados trabalhos diversos, desde agrários até outros, como conserto de máquinas, computadores, marcenaria, culinária, enfim, várias espécies de labor para ocupar os presos e, assim, auxilia-los em sua recuperação psíquica para voltar à sociedade. No caso do meu cliente, se vê assolado pelo arrependimento, pela culpa e não possui atendimento psicológico nem nada do tipo, pelo contrário, existe tráfico de drogas dentro do presídio criando em seu pai a desconfiança de que o filho possa estar consumindo algum tipo de entorpecente que, “não” se sabe “como” entra no Presídio.
Todavia o jovem deseja sair, ir para uma clinica de reabilitação, concluir o curso superior, enfim, deseja se recuperar, voltar à sociedade com dignidade. Talvez, neste País este seja o desejo de muitos presidiários, mas será que conseguirão? E o contato, 24 horas por dia, com criminosos contumazes que nada mais fazem se não contar suas histórias de revolta, ódio e delitos hediondos? Existe uma certa diferença entre a mente da pessoa que em certo momento cometeu um crime, um homicídio, por exemplo, e aqueles que cometem ou cometeram vários deles, todavia, dentro dos presídios todos se misturam na inércia de seus dias. Penso, pois, que enquanto o sistema penal se mantiver desta forma (errada), enquanto o Estado não der atenção à necessidade de construção de presídios e implementação de meios de ressocialização aos criminosos a progressão de regime se mostra urgente para que jovens que cometeram um crime não tenham sua personalidade ainda mais degradada vez que estão sujeitos a más influências dentro dos presídios, o que remete meus pensamentos a necessidade de exclusão da reincidência da lista das agravantes da pena. Existe algo errado, algo muito errado em nosso Sistema Penal, e, enfim, em nosso Estado Democrático de Direito e é a sociedade que paga pela sua prostração diante da grave realidade.
[1] Advogada na cidade de Passo Fundo/RS e especialista em Direito Constitucional pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
[2] CARNELUTTI, Francesco. As misérias do Processo Penal. 5ª Ed. Campinas: Bookseller, 2001, p.28.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Auto salvamento

Auto salvamento

Assisti a um filme surpreendentemente bom ontem, chamado "Anjos da Vida - Mais bravos que o mar", trama que mostra a história de um salva vidas da Guarda Costeira dos Estados Unidos que, após um acidente (resgate mal sucedido) em que perdeu seu colega e amigo, foi convidado para treinar "pretensos" salva-vidas. Um veterano talentoso, praticamente um mito dentre os salva-vidas, ensinando jovens afoitos em aprender e se tornarem profissionais excelentes.
Kevin Costner é o veterano e Ashton Kutcher o jovem que se destaca por quebrar os recordes nos treinamentos. Enfim, o filme é excelente e o final bastante emocionante. Uma das cenas que mais me chama a atenção é quando o personagem de Costner responde a pergunta de Jake Fischer, personagem interpretado por Kutcher, que desejava saber quantas foram as vidas que o mestre salvou, vez que se falava em 200 e 300 pessoas.
A resposta, bastante interessante foi "foram 22", o jovem, boquiaberto indagou se não tinha sido 200 ou 300 como diziam os boatos, momento em que o salva vidas experiente respondeu: "Vinte e dois foram as vidas que perdi", enfim, aqueles que não conseguiu salvar. Para quem trabalha e vive para salvar vidas em alto mar, bem como para os que vivem para resgatar pessoas, os dados mais marcantes e desconcertantes são os dos que não ficaram neste mundo, enfim, dos que não conseguiram salvar.
Bem, esta é a realidade para os que vivem para salvar a vida alheia, não para a maioria das pessoas que vivem para se salvar neste mundo em que muitos valores estão se esvaindo, mas que, possui muitas outras graças. Enfim, o ser humano que deseja ser feliz na vida deve aprender a colocar na balança o que lhe ocorre, colocando porém, mais peso na estima pelo que de bom lhe aconteceu.
Sempre irão existir acontecimentos que nos magoam, até quem mais amamos e que nos ama poderão nos ferir de alguma forma. Sempre existirão os mentirosos, interesseiros, as pessoas falsas, os homens sem brio, os indivíduos que não respeitam a liberdade e a vida alheia, por outro lado, sempre existirão pessoas boas, corajosas, amorosas, honestas que estão em nossas vidas como jóias raras a brilhar demonstrando que viver vale a pena, são como benesses da vida em nossos caminhos.
Se salvar neste mundo significa muito mais que existir na realidade, que respirar e trabalhar sem sentir prazer em viver, significa ter paz, alegria de viver, felicidade no coração e tranqüilidade na alma, embora a vida não seja um mar de rosas. Assim, o homem que quer se salvar no mundo tem que dar valor ao bem que faz e às benesses que recebeu e não aos prejuízos e sofrimentos que teve. Melhor ainda se conseguir compreender que sofrimento traz aprendizado, e, enfim, que tudo vale a pena, já diria Fernando Pessoa, quando a alma não é pequena. (Saber viver, é, de fato, atributo das almas grandiosas).

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 28 de setembro de 2007.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Auto-respeito

Auto-respeito

Eu tenho compaixão pelas pessoas que não se auto-respeitam. Via de regra falamos que a moçoila volúvel "não se respeita", não se dá valor, que o rapaz "galinha" também não se valoriza. Em alguns casos pode ser verdade, mas, na realidade a pior demonstração de falta de respeito por si mesmo ocorre quando o homem não aceita suas limitações, quando não consegue se perdoar por algum erro, ou, pelo fato de ser quem é: Por não ser perfeito nem adequado às expectativas alheias.
Respeitar é aceitar o outro, é não fazer ao outro o que não desejamos que ele nos faça, é ser compreensivo e ter compaixão para com as pessoas. O conceito, pois, de respeito quase todas as pessoas possuem, mas, o visualizam quando se refere ao "alter", ao respeito para com o outro, para com o mundo, e esquecem que, muitas vezes, falam dele e até mesmo o têm, sem te-lo por si mesmos.
Respeitar a si mesmo é valorizar-se com suas limitações, o que, obviamente não implica no comodismo "sou assim e serei para sempre", até mesmo porque tal afirmação vai de encontro com a ordem da escola da vida que é o aprendizado e a mudança gerada por ele. E só aprende quem erra, se perdoa e segue adiante, sem demasiada auto-crítica, flagelação ou piedade por si mesmo.
Todos sabem que não devem ser cruéis com o outro. Tortura física, então é crime hediondo. Mas muitas pessoas se torturam psiquicamente, são cruéis consigo mesmos. Não perdoam suas mancadas, seus erros, e, muitas vezes, não se perdoam por não satisfazer as expectativas dos outros, dos pais, do marido, da esposa, dos filhos. Isso é uma forma de auto-mutilação, tal qual a a ingestão demasiada de remédios, de álcool e de drogas, por exemplo, que são, praticamente, torturas físicas.
Infelizmente, não são poucas as pessoas que não respeitam a si mesmas. Que não aceitam seus limites, que não relevam seus erros, que não perdoam a si mesmo e aos outros, e, assim, fazem de sua vida um inferno, por, simplesmente, olvidarem de si mesmos, por não conseguirem se auto-compreender partindo da seguinte realidade: O passado, como diz a palavra, já passou e nele agimos de tal forma porque ontem não tínhamos a maturidade e quiçá a sapiência que temos hoje.
Não adianta lastimar, não adianta se drogar, tomar remédios ou porres homéricos. O passado ficou lá atrás, seus reflexos devem ser aceitos vez que são imutáveis. O primeiro passo, porém, para encontrar o auto-respeito esquecido é ter serenidade para aceitar o que não se pode mudar na vida, e a paciência para mudar aquilo que podemos.
Nunca devemos olvidar de que, se precisamos de paciência para com os outros, temos que te-lá para conosco mesmos porque somos imperfeitos e jamais iremos agradar à todos. Precisamos mesmo é ter paz em nosso espírito, respeitar a nós mesmos, e viver bem, sem exigirmos de nós o que a vida não nos deu: Perfeição e adequação imutável.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 26 de setembro de 2007.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Os sem-noção

Os sem-noção

Quem não conhece um sujeitinho inconveniente? O típico individuo chato, egoísta, aquele que acha que o mundo deve curvar-se perante suas afirmativas e idéias que, via de regra, nunca mudam. Aquela pessoa que insiste em sustentar uma idéia ou, até mesmo, uma meta, olvidando do direito alheio, ou, o que é pior, da necessidade de respeitar o outro e sua liberdade de pensamento e atitude.
É, de gente inconveniente o mundo esta cheio. São as mulheres que não percebem que não são bem quistas pelos coitados que pressionam usando de todas as artimanhas possíveis, inclusive a de solicitar auxílio de amigos e coisas do tipo. Aquelas que chegam abraçando, se fazendo de amigas e distribuindo sorrisos falsos, apenas para se mostrar como sendo queridas e convenientes quando, na verdade, são a falta de auto-respeito, maturidade e noção do ridículo ambulantes.
Enfim, há vários tipos de pessoas inconvenientes. Vendedores insistentes, aliás, as pessoas que insistem normalmente são chatas. A história de que a água mole em pedra dura bate até fura-la é verdadeira, mas muita coisa desmorona junto com a pedra, inclusive a paciência e a estima pelo insistente. Tudo que é agradável e verdadeiro brota da espontaneidade, como uma flor surgindo na mata: Não há necessidade de pressão, de insistência ou algo semelhante.
Há também aqueles desocupados que vão no local de trabalho alheio falar mais do que pastor em dia de pregação sem pensar que estão atrapalhando as pessoas que precisam se dedicar à suas atividades. E, o que dizer daqueles que acham que detêm toda a razão do mundo?Aqueles que já não acham mais que são Deuses, mas que se auto outorgaram a certeza de tal fato como se tivessem um certificado de "Enviado do Céu".
Todavia, pior do que um ser inconveniente na vida quotidiana é quando eles conseguem passar em algum concurso público, ou, ainda ganhar alguma eleição, assim aliada a chatice, esta a prepotência e a capacidade de persuadir os menos avisados e cultos. Mais chato, ou melhor, mais perigoso do que um individuo chato e sem noção do ridículo e de sua impertinência é um ser com tais atributos dotado de alguma forma de "poder", como o de julgar por exemplo.
Os chatos, os inconvenientes, as mulheres mal amadas e insistentes, os rapazes com ego inflado, todos estes e os demais impertinentes são aqueles sem "semancol", ou, simplesmente, "sem noção": Sem noção do ridículo, sem noção da realidade, sem noção, enfim, da própria chatice e do fiasco que fazem agindo da forma que agem.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 25 de setembro de 2007.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Apesar

Apesar

Apesar de imperfeita a vida tem muitas maravilhas, inclusive o fato de que tudo em nossa existência depende de nosso olhar para e de nossa capacidade de buscar pensamentos antídotos àqueles que nos fazem sentir mal envenenando nosso humor e harmonia de espírito. É um eterno tentar ser alegre, ser feliz e viver bem "apesar dos pesares". Afinal, apesar das mazelas existem as coisas boas, cabe a nós valorizarmos mais estas do que àquelas.
Levantar com ânimo diariamente para viver nesse nosso mundo é um exercício de garra e força, afinal apesar da cama ser confortável e do sono ser uma bela fuga, a vida bem vivida requer força e, principalmente, vontade de felicidade e ai reside nosso mérito ao aprendermos a dançar nesse baile chamado vida. Quando falo em felicidade não me refiro à meta inatingível do "serei feliz quando...", mas, pelo contrário, a constatação: "Sou feliz hoje apesar dos inconvenientes do mundo".
Não deveríamos saber nem apreender o significado da palavra futuro. Talvez assim vivêssemos mais intensamente o dia de hoje e desperdiçaríamos menos momentos lamentando, vendo as coisas de um ponto de vista negativo e pedante, talvez assim, toda vez que a tristeza e a depressão vierem bater a nossa porta conseguíssemos tranca-lá e, ainda que pulando a janela, fôssemos fazer algo que nos faça contentes e alegres, afinal, apesar de termos alguns motivos para chorar temos, sempre, (muitos) para sorrir.
Tudo depende de nós. Somos nós quem criamos nossa tristeza e amargura nutrindo pensamentos ruins e enxergando com lente de aumento nossos problemas. Podemos fazer o contrário, supervalorizar o que é bom e o bem que a vida nos fez. Um amor, uma amizade, as alegrias quotidianas, a maravilha da natureza que sequer observamos absortos em nossas preocupações vãs e problemas que criamos quando nos sentimos pequenos diante da vida.
Nenhum homem é pequeno, nenhum homem é fraco ao menos que se sinta assim. Se ele se sentir de tal forma a vida irá lhe dizer o mesmo que diz aos felizes: "Você é o que você pensa ser. E que assim seja!". A única diferença entre um ser feliz e um infeliz é a forma com que ele vê a si mesmo e a vida. Alguns conseguem ver bem, apesar dos pesares, outros vêem os pesares apesar das boas surpresas da vida.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 26 de agosto de 2007.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Os outros II

Os Outros II

Porque algumas pessoas tem uma tendência maior à deixar-se influenciar pelo medo da opinião alheia? Depende do caso, o certo é que baixa auto-estima e o orgulho andam, freqüentemente, lado a lado em tais circunstâncias. Relevante, porém, pensar nos casos em que o analisar previamente o possível julgamento do outro indicia falsidade.
Valores, formas de pensar a vida, cada um tem os seus. O certo é que de nada adianta agir como políticos desonestos e cônjuges infiéis (ou, enfim, qualquer espécie de traidor e larápio, afinal aqueles são os traidores da Nação com a qual deviam estar "casados", visando, porém o crescimento e evolução) que não possuem auto-controle, vergonha e brio por não agirem de forma correta, fazendo sujeiras, roubos e outros ilícitos na surdina demonstrando medo do julgamento popular após seus atos serem descobertos.
Os valores e o agir das pessoas deveria ser de tal forma justos que não tivessem que se envergonhar de seus atos. Porém, tal agir deve ser inerente e não baseado no medo da opinião alheia, mas, isto sim na adequação com sua própria consciência. Quem age de forma "correta" apenas com receio da crítica alheia pode, muito bem, mascarar seu agir em frente a tais pessoas e agir tal qual seus parcos valores por trás delas. Eis ai a desonestidade e deslealdade.
Sempre preferi pessoas abertas, que dizem o que pensam e agem da forma que lhes apraz sem ter duas caras. Transparência é uma grande virtude nesse mundo cor-de-rosa da boca e das aparências para fora e fétido, negro e podre por dentro. Chega de beleza, honestidade, meiguice, progresso e probidade "para inglês ver" enquanto o brasileiro padece, sofre e nada faz.
Não existe o "certo" e "errado", mas existem valores praticamente universais. A atitude de cada pessoa deve se aproximar do justo não porque os outros assim o desejam, mas porque a pessoa é e pensa da forma com que atua no palco da vida, do contrário fica fácil agir de forma diversa atrás da cortina de sua existência que assim se torna um teatro - um mundo falso.
Viva à auto-censura, a consciência de si mesmo e o agir da forma mais apropriada aos valores universais! Não fazer aos outros o que não se deseja que eles nos façam não significa viver fazendo o que os outros desejam e esperam. É preciso viver com liberdade, agir com espontaneidade, pensar e falar com transparência, mas numa justa medida onde o respeito pelos outros deve se manter. Respeito, não escravidão. Amor, não servilismo. Compaixão, não falsa caridade. Verdade, não falsidade.Sempre.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 24 de agosto de 2007.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Os outros

Os outros

Pense rápido: Até que ponto você deixa de agir ou falar pensando na opinião alheia? Quantas foram as risadas contidas, as piadas que ficaram só na mente, as afirmativas veladas, os gestos contidos em prol "dos outros", e, obviamente, do medo do julgamento e opinião alheia?
Primeiramente, meu amigo, quero dizer que mudar seu jeito, conter seu estilo, e se auto-censurar pensando na opinião que os outros terão é, primeiramente sinal de medo. E, este medo leva ao real sentimento existente nessa forma de agir: Orgulho.Sim, você que se acha "humilde" porque vive pensando nos outros e na sua opinião acerca de seus atos é um tremendo orgulhoso.
O medo de ser mal julgado, criticado, tripudiado indica orgulho. A pessoa não quer parecer frágil, não quer parecer vil, teme criticas até mesmo de seu humor, e por isso se cala, afinal não quer ser criticado, quer parecer, sempre o melhor, o "acima" de qualquer critica, "acima" de qualquer mal julgamento. E vai ficando tão acima de tudo que acaba sumindo, evaporando com as nuvens de seus receios tolos.
Certa vez um grande amigo me disse que eu devia me cuidar com meus atos porque muitas pessoas julgavam minha espontaneidade de forma negativa. Confesso que parei para pensar, "controlar" um pouco a língua (como diria minha mãe), afinal pensar antes de falar é sempre salutar. Todavia, de resto, eu tenho minhas certezas, dentre as quais a que "mudar" pelos outros nunca vale a pena.
Mudar, crescer, evoluir e aprender são essenciais em nossa vida, mas por nós mesmos e não pensando no julgamento alheio. Essas pessoas, esse "ente" verbal e material denominado de "outros" sempre irão criticar e mal julgar porque, sendo a maioria, estão em constante conflito interior e, por isso, atribuem a nós seus problemas, conflitos e "defeitos". Os outros, enfim, sempre irão nos criticar por algum motivo, querer agradar-lhes é algo mais do que impossível, é algo estúpido.
Aliás, não existe mudança baseada na opinião dos outros, mas "adequação" apenas. E quem vive se adequando aos outros não têm a si mesmo, enfim, já perdeu sua essência na vida. De tanto se adaptar, se adequar, a pessoa se perde de si mesma. Fundamental é se conhecer, se aceitar, e, até mesmo se auto-modificar, mas movido pela própria vontade e necessidade sem pensar, exclusivamente, em agradar aos outros.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 23 de agosto de 2007.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Aconchego

Aconchego

As pessoas não são muito diferentes no que diz respeito à necessidades emocionais. Todo ser humano gosta de se sentir amado, cuidado. É um anseio que nos acompanha do berço até nosso fim, seja ele previsto ou inesperado. Vivemos desejando o aconchego, valorizando a sensação de sermos amados, estimados.
Pode a vida estar atribulada, a conta bancária semi-vazia, podem os clientes nos chatear, os devedores nos trapacearem, é no abraço, é ouvindo as palavras de quem nos ama que encontramos um elixir, uma força para enfrentar as dificuldades.
Ruim mesmo é buscar e não encontrar aconchego, compreensão, atenção, amor. Engana-se quem pensa que pobre é aquele desprovido de conforto na vida, pobre mesmo é aquele que não tem um ombro para chorar, uma mão para pegar, aquele que não tem ninguém para dizer que ele é importante em sua vida.
A felicidade esta nos pequenos momentos, ser feliz é uma questão de ânimo, de vontade, mas garanto que é mais fácil ser alegre devendo no banco e comendo costela barata com maionese no almoço de domingo, porém rodeado de pessoas queridas, podendo “sestear” ao lado de quem lhe faz sorrir, do que saborear um filé mignon ou uma picanha numa mesa vazia.
Pena que nem todas as pessoas saibam da importância que possui um afago, um abraço, um “eu adoro você” para o outro, muito embora gostem de recebê-lo. Via de regra, os indivíduos preferem dar a receber (individualismo ao extremo, egoísmo em alta). Todavia, de nada adianta sentir-se bem sem fazer o bem. Receber e não dar é o primeiro passo rumo à cova da solidão.

Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 10 de agosto de 2007.