Dó dos infelizes, no mundo dos felizes.
É quase trágico sentir-se infeliz num mundo em que todo mundo faz questão de disfarçar a sua tristeza e frustrações. Aparentemente a humanidade imbuiu-se da missão de guardar para si o próprio sofrimento.
E assim a vida segue. Quase todo mundo apregoando a busca pela melhora interior, a felicidade com que se levantam todos os dias da cama, a tranqüilidade de espírito que possuem, a alegria pela chegada de toda sexta-feira.
Ninguém reclama, ninguém se sente só, todos são bem sucedidos no amor e na profissão. Sim, quem diz que as pessoas são bem sucedidas numa área ou noutra da vida é pessimista. Todos são realizados nos mais variados aspectos.
Se a depressão era o mal do século que passou, a hipocrisia vem se mostrando o mal deste século. Pessoas deprimidas não encontram eco para a dor que sentem num mundo em que todos apregoam o bem estar e a felicidade.
Reclama-se do governo, reclama-se da falta de cuidado com o meio ambiente, reclama-se da corrupção, reclama-se de tudo, mas pessoa alguma, que se sinta desconfortável na própria vida, sente-se à vontade para falar de seu pesar interior.
É tanta gente feliz, contente e que se preocupa com um mundo melhor nas redes sociais e no dia a dia da gente que, se existe alguém deprimido no mundo, a pessoa tente a sentir-se cada vez mais sozinha e isolada: ninguém é vil, ninguém se sente descontente com a própria vida, ninguém fala de frustração alguma.
Todos são só sorrisos, fotos bonitas, alegria, projetos sociais, ânimo elevado. Pessoa alguma confessa sentir-se triste, solitária, apesar de ter amigos, ninguém é infeliz ou frustrado. Tenho, portanto, pena das pessoas que não se adéquam a esta felicidade obrigatória que tomou conta do mundo.
Não penso que a vida é ruim, mas sei que ela não vai ao encontro de todas as expectativas que podemos ter. Existem injustiças, existe tristeza, existe frustração, existem sonhos que desmoronam. Todavia, a regra virou uma apologia estranha ao bem estar, a fé e a alegria. Como se sentir-se mal fosse um pecado, uma heresia. Isso me preocupa.
Cláudia de Marchi
Passo Fundo, 13 de março de 2013.
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