Pequeno manifesto contra o machismo e suas
consequências.
Sobre o vídeo em que o Alexandre Frota conta um
estupro no programa “Agora é tarde” dia 25/02/2015 e é aplaudido: quando eu era criança,
sempre muito sensível, muito delicada, eu achava terrível meus coleguinhas
darem risada dos outros quando caiam. Nunca achei graça em ver gente se
machucando, pelo contrário, me dá uma pena danada. Da mesma forma, nunca curti
apelidos ofensivos. “Baleia”, “Bundão” e etc..
Enfim, eu cresci e aprimorei minha empatia. Cresci e
continuo sem achar graça de desrespeito, menosprezo, ofensa e discriminação. Então
vem um ogro, um sujeito nojento, que, na minha concepção, não vale nada nem de
boca fechada, menos ainda aberta, e conta isso em rede nacional! Ele contar,
sendo ele o tipinho baixo de homem que é, não me assusta, mas as pessoas rirem,
o apresentador não se manifestar quando o cara conta, numa linguagem machista,
que “comeu” a mãe de santo e ela “apagou”, ah, daí é demais!
Aliás, eu sou super contra essas palavras vulgares
em relação às mulheres: “delicia”, “comi”. Cara mulher não é docinho de padaria
para ser comido e ser delicioso. Acho que essas coisas, esses adjetivos caem muito
bem numa relação sexual com intimidade, a dois, entre quatro paredes (onde tudo
vale) e não na “boca do povo” como elas costumam “estar”.
Acho vulgar, acho nojento, tanto quanto o “entrevistado”
em questão. Isso que ele narrou aí meu amigo vem tipificado no Código Penal brasileiro
da seguinte forma: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a
ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro
ato libidinoso".
O sujeito valeu-se do tamanho, foi violento (fez a
mulher desmaiar) e a penetrou sem que ela dissesse sim, o beijasse ou desse qualquer
indicio de vontade. Ausência de vontade=não querer!
Sabe o tal “uma vez eu comi uma mãe de santo”? Sim,
isso aí é comer, afinal o homem só “come” a mulher quando a estupra, porque
além de lhe tirar a dignidade, não lhe dá prazer. Porque, meu amigo, sexo bom é
quando quem come é a mulher, se é que você me “entende”. É quando a mulher
deseja, pede, gosta, goza!
Ah, mas daí você, machista, do tipo que acha que a
mulher tem sempre culpa, me indaga: “Por que ela não gritou?”. Por vergonha,
por medo, por receio, por não acreditar que o ato ocorreria e, por exemplo, por
saber que, para pessoas machistas como você, se ela gritasse, o caso viria à mídia
e ela seria vista como a “mãe de santo que deu em cima do ator da Globo” e se “aproveitou”
do caso para fazer fama, afinal, a culpa é sempre da mulher!
Como no caso da estudante de medicina da USP
(Ribeirão Preto) que denunciou um estupro e vem sofrendo discriminação dos
colegas. Jovem cuja coragem eu mesma admiro, ao menos neste País em que a
mulher é a “coisa” e o homem é o “pegador”.
A mulher “obriga” o cara a transar sem camisinha, a
mulher usa calça colada, a mulher tem a bunda grande, a mulher usa decote e,
portanto, é um objeto comível, a mulher está “bêbada”, está “facinha” certo!? Certo
para você que é um ser humano estupido, ignorante, machista e muito, muito
nojento.
O corpo da mulher, as roupas da mulher, os drinques
que ela toma e a sua atitude não giram em torno do seu pinto. Chega desta
autoconfiança fálica doentia! Ah, e quando a mulher está bêbada? Estupro
também, artigo 217 do Código Penal (sobre estupro de vulnerável),
especificamente parágrafo 1º: “Incorre na mesma pena quem pratica as ações
descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, NÃO
tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, POR QUALQUER
OUTRA CAUSA, não pode oferecer resistência.”
Logo, você sujeito abjeto que acha o máximo transar
com a menina embriagada que não tem condições nem de gritar e nem de ver o que
está ocorrendo para poder lhe dizer quão nojento e desestimulante você é,
também comete crime, cuja pena, diga-se, varia de 8 a 15 anos!
Aliás, eu nem sei quem é mais covarde, o cara que
estupra a mulher apontando uma arma ou uma faca ou o que transa com a mulher
apagada. Sinceramente? O distúrbio é o mesmo, só que o que age com ela acordada
ainda tem mais coragem, porque a vitima esta vendo o que ele esta fazendo.
Enfim, chega desta sociedade que dá gargalhada
dessa narrativa doente e patética. E, diga-se, plateia lotada de mulheres. Aplaudindo,
quando poderiam vaiar! Arre, que vergonha! Que sociedade vergonhosa. Que
tristeza, que nojo, que revolta! Sem mais.
Cláudia de Marchi
Sorriso/MT, 02 de março de 2015.
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